<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971</id><updated>2011-04-21T13:50:08.681-07:00</updated><title type='text'>mão-dupla</title><subtitle type='html'>Permitido estacionar, atravessar e avançar o sinal.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>41</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-6719546347886825686</id><published>2008-03-30T18:04:00.000-07:00</published><updated>2008-03-30T18:11:41.382-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;span style="color:#ff6600;"&gt;Ficando calma&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando uma situação a deixava particularmente nervosa, aflita, ansiosa, Maria da Glória, que era avessa a remédios, apelava para umas coisas que, vistas de longe, quer dizer, por gente que não a conhecia, poderiam parecer maluquices.&lt;br /&gt;A primeira providência era separar um pouco de seu próprio cabelo e ficar alisando aquela mecha, continuamente, até que ficasse bem lisa, macia. Com o dedo indicador, então, tratava-se a seguir de rodopiá-la, no sentido dos ponteiros do relógio. Depois, era só prendê-la entre o dedo médio e o anular, enquanto a unha do indicador percorria a mecha pra baixo e pra cima. Essa técnica era, sobretudo, prática, já que podia ser praticada em qualquer lugar.&lt;br /&gt;Havia uma outra, muito eficaz, no entanto de logística mais complicada. Dependia da boa vontade do seu gato Euzébio. Estando ele deitado no chão, ela só tinha que passar os pés descalços na barriga do bichano, pra lá e pra cá, devagar. Impressionante, a calma que isso lhe dava. Diga-se de passagem que o gato também gostava. Só não dava para ficar muito tempo, porque aí o gato é que ficava nervoso e passava a mordiscar seus pés, quando não enfiava as unhas com força no seu calcanhar.&lt;br /&gt;Cantar também era uma boa solução para momentos estressantes. Na maioria das vezes, não dava para cantar em voz alta, mas em voz baixa era muito repousante. Maria da Glória tinha predileção por duas músicas em particular. Aquela do Caetano, que começa assim: “Gosto muito de você, leãozinho, de te ver entrar no mar, tua pele tua luz tua jubá” (tinha que ter esta entonação, senão não rimava e ela tornava a ficar nervosa). E uma música que ela não lembrava quem era o autor: “Andaluzia, pega o pandeiro e vem pro carnaval. Andaluzia, essa tristeza te faz muito mal...” Na verdade, a segunda parte da música é que era milagrosa, mas tinha que cantar a primeira antes, para fazer efeito. “Arranca tua fantasia, alegra o teu olhar profundo, que a vida dura só um dia Luzia, e não se leva nada deste mundo”.&lt;br /&gt;Uma balinha de hortelã, daquelas bem fortes, também podia funcionar. Ela tinha uma hipótese: “enquanto a bala não terminava, nada lhe aconteceria”. Era como se a bala marcasse um tempo. Um tempo diferente do tempo lá de fora, no qual a situação ruim estava acontecendo.&lt;br /&gt;Escrever “aragem”, muitas vezes seguidas, exagerando bem no arco do “g”, era um segredinho seu muito antigo. Descobriu o quanto isso era tranqüilizador quando escreveu a palavra no caderninho que ficava junto ao telefone, sem querer, falando com o namorado. Nesse dia, os dois brigaram feio, mas ela não se desesperou. E depois descobriu por que.&lt;br /&gt;Tudo ia muito bem com a sua vidinha, assim desse jeito, equilibrada, até que Maria da Glória se apaixonou. Foi quando conheceu Luis Antônio. Uma semana depois, estava totalmente destrambelhada. Não comia, não dormia, tremia toda quando o telefone tocava.&lt;br /&gt;Tentou todas as maravilhosas técnicas que desenvolvera durante anos, mas nada adiantou. Esqueceu a letra das músicas, o gato não cooperava, engoliu a bala e engasgou, deu um nó no cabelo que só saiu cortando com a tesoura. Tentou escrever aragem, mas tremia tanto que parecia que tinha escrito “bobagem” e depois só conseguia escrever isso.&lt;br /&gt;Desesperada, invadiu o banheiro da mãe, escancarou o armário de remédios e meteu um “lexotan” pela goela abaixo. Mais tarde iria lembrar desse dia como o primeiro de sua vida adulta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Miriam Danowski&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;strong&gt;30.03.2008&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-6719546347886825686?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/6719546347886825686/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=6719546347886825686' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/6719546347886825686'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/6719546347886825686'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/03/ficando-calma-por-miriam-danowski-em-30.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-1527762651231488957</id><published>2008-01-24T15:40:00.000-08:00</published><updated>2008-12-10T17:00:00.307-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_Q1U-yJo8tR8/R5ki8VZ4NsI/AAAAAAAAAEI/bF2ZAmUXFRI/s1600-h/barco.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5159193268062795458" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_Q1U-yJo8tR8/R5ki8VZ4NsI/AAAAAAAAAEI/bF2ZAmUXFRI/s320/barco.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_Q1U-yJo8tR8/R5ki8lZ4NtI/AAAAAAAAAEQ/CYdbXimm1H8/s1600-h/os+dois.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5159193272357762770" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_Q1U-yJo8tR8/R5ki8lZ4NtI/AAAAAAAAAEQ/CYdbXimm1H8/s320/os+dois.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Matéria publicada no jornal&lt;br /&gt;O Perú Molhado edição 840 &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;– por Miriam Danowski&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Axel Brummer e Peter Glockner, nascidos na Alemanha Oriental, entusiasmados com a queda do muro de Berlim, pegaram suas bicicletas e saíram mundo afora, a começar pela China. Depois, tiveram a idéia de construir um junco chinês (o que foi feito na Indonésia), igual ao barco que Marco Polo usou nas suas viagens.&lt;br /&gt;Fizeram a travessia do Atlântico, saindo de Veneza, até a Alemanha. E também reproduziram a rota de Marco Polo.&lt;br /&gt;Apaixonados pelo Brasil, eles chegaram a morar por cinco anos na Amazônia, e casaram ambos com mulheres daquela região. Nessa época, os dois, que não deixam escapar uma aventura, subiram o rio Amazonas de caiaque.&lt;br /&gt;Desta vez, decidiram refazer a rota do Pedro Álvares Cabral. O barco aportou em Salvador e saiu, no dia 16, rumo à Búzios, onde chegou dia 23 de janeiro.&lt;br /&gt;Essa viagem foi feita sem patrocínio, ao contrário da rota de Marco Polo, que teve apoio do governo alemão. De Búzios vão até ao Rio.&lt;br /&gt;Só não sabem ainda o que vão fazer com o barco depois disso, já que têm planos de se estabelecer no Paraguai, onde já compraram terras e vão construir suas casas. Inclusive, aceitam sugestões.&lt;br /&gt;No trecho Salvador-Búzios, aderiu à tripulação o advogado André Martins e sua filha Maíra. Ao todo são 15 pessoas, sendo três brasileiros e o restante de nacionalidades variadas.&lt;br /&gt;Mas Axel e Peter, ao percorrer o roteiro de Cabral, querem mais do que vencer um desafio. Acreditam plenamente na hipótese, defendida por alguns autores ingleses, de que, antes dos portugueses, foram os chineses que chegaram às costas brasileiras. Será? &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-1527762651231488957?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/1527762651231488957/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=1527762651231488957' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/1527762651231488957'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/1527762651231488957'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/rplica-do-barco-de-marco-plo-o-kublais.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_Q1U-yJo8tR8/R5ki8VZ4NsI/AAAAAAAAAEI/bF2ZAmUXFRI/s72-c/barco.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-3289744444042778089</id><published>2008-01-13T18:19:00.000-08:00</published><updated>2008-01-13T18:24:15.609-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;Texto publicado no Jornal O Perú Molhado edição 468&lt;br /&gt;Miriam Danowski. Búzios, outubro 2.000&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Borja Blazquez: A subversão gastronômica&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Diante da irreverência do jovem chef, nada se perde, tudo se transforma. O que era líquido vira sólido, o sólido vira espuma, o gelado vira quente, o doce e o salgado se confundem, já que a riqueza de texturas surpreende o paladar, e não só ele, mas também o olfato e a visão, levados a experimentar sempre novas sensações&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cozinha performática, não é apenas o chef que está no palco, não é só o chef que comanda o espetáculo. O cliente é parte integrante do processo, não um agente passivo, não apenas um consumidor.&lt;br /&gt;Sua figura de garoto – ele tem apenas 25 anos – não combina com a profundidade dos conceitos que enuncia, mas só enquanto não se sabe de onde ele vem e onde se formou, pois aí se deduz que boa parte de toda aquela sabedoria vem por uma via atávica, uma herança que faz daquela região da Espanha, um dos lugares mais culturalmente interessantes do mundo. Borja nasceu no País Basco, onde, aos 17 anos já cozinhava. Mas, sua verdadeira iniciação na gastronomia, em sua vertente mais revolucionária, se deu com os irmãos Adrià – Ferran e Albert -, em Gerona, Catalunha, durante os dois anos em que trabalhou no restaurante El Gulli. Essa cidade fica quase ao lado da cidade de Salvador Dali, Cadaqués.&lt;br /&gt;Borja Blazquez ficou em Búzios por uma semana, convidado por Sonia, do Cigalon, em nome do Búzios Gourmet, para desfrutar da natureza generosa e para gravar uma edição do programa de culinária que faz para um canal de tv à cabo da Argentina – onde está morando atualmente -, o “Gourmet.com”.&lt;br /&gt;“Depois de ter viajado por toda a Espanha, cozinhando nos melhores restaurantes d ela – ele conta – saí pelo mundo para absorver as novas tendências, conhecer novos produtos, aprender novas receitas. No Brasil, cheguei a ter um restaurante em Florianópolis, numa praia. Na Argentina, hoje, dou aulas, presto assessoria à restaurantes e estou fazendo esse programa, que se chama Maremagnum, que é transmitido por quase toda a América latina. Acredito que chegue ao Brasil, até o fim do ano”.&lt;br /&gt;No programa, Borja cozinha pescados, mariscos, frutos do mar, pelos litorais mais bonitos do mundo inteiro. Ao ar livre, mesmo. Em Búzios, ele cozinhou em diversas praias, como a do Canto, Ferradurinha e até na Lagoinha, e se impressionou com a “boa energia que corre aqui”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Desconstruindo receitas&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt; – Ele dá uma idéia das conseqüências práticas dessa cozinha tão subversiva: “Por exemplo, com manjericão, o que fazemos habitualmente? Podemos comer a folha, fazer uma infusão, um pesto, um creme. Na nova cozinha criativa, a partir da infusão, processamos o manjericão, escorremos e fazemos uma gelatina. Num sifão, usado para fazer cremes, jogamos essa gelatina e, com uma carga de ar, obtemos espuma, algo parecido com uma musse. Só que a musse normal levaria uns 30% de creme, 20% de gemas, 20% de claras, sobrando pouco para o manjericão. Com essas novas técnicas, conseguimos uma textura igual, sem adicionar nenhum outro sabor além do manjericão. Para fazer espumas, precisamos de muito pouca cocção, ou nenhuma. Ou seja, os alimentos não perdem vitaminas, clorofila, nem suas cores.”&lt;br /&gt;Fala também do trabalho que fazem com os “granizados”: “Pegamos gelo picadinho e granizamos com sabores de limão, de cítricos em geral.&lt;br /&gt;Ou usamos sucos, como o de tomate, salgado e apimentado, que congelamos e depois picamos bem. Fazemos também sorvete com alcachofras e flores, como as rosas.&lt;br /&gt;Mas nada exprime mais eloqüentemente o que essa cozinha conceitualmente pretende do que suas técnicas de “desconstrução”.&lt;br /&gt;Eles pegam uma receita tradicional e simplesmente a colocam de pernas para o ar, transformando os ingredientes, modificando sua textura, sua forma e sua temperatura.&lt;br /&gt;Borja dá um exemplo: “Imaginem uma receita de risoto de almejas (lambretas) e lagostins. Os ingredientes são o arroz, as almejas, os lagostins, alho e salsinha. Em vez do arroz, faríamos um leite de arroz. Do lagostin, após uma vertiginosa passagem pela frigideira, e um amasso no pilão, captaríamos a essência, que está na cabeça, o coral. O caldo seria gelatinado e colocado num sifão para virar uma espuma de água do mar, com gosto de almeja. O alho, o fritaríamos em rodelinhas, bem dourado e a salsinha, também frita, para ficar crocante”.&lt;br /&gt;O objetivo, que Lee não cansa de repetir, é destacar os atributos mais característicos de cada ingrediente, harmonizá-los, tudo com a maior delicadeza, com a maior sensibilidade.&lt;br /&gt;Não é a toa que lê recomenda aos chefs atenção, prestar atenção à natureza, suas formas, e dela tirar idéias e ensinamentos para o preparo dos pratos.&lt;br /&gt;Faz parte integrante dessas novas tendências da cozinha o estudo da Química Culinária. Ele explica: “A pergunta não é só como se faz, mas por que se faz assim e não de outra maneira. A diferença entre a carne vermelha e o pescado é, antes de mais nada, de natureza química. A carne vermelha contém muito mais colágeno, que é o tecido que envolve as fibras. Por isso, ela amolece, se suaviza quando a cozinhamos e, também, por isso ela resiste mais tempo. Já com o peixe, o contrário. Ele endurece ao cozinharmos, porque suas proteínas coagulam entre 60 e 70 graus. O pouco colágeno torna a carne do peixe mais perecível, mas é também essa a razão pela qual ele é tão bem digerido por nosso organismo”.&lt;br /&gt;Para pesquisar essas coisas é que os irmãos Adrià se recolhem ao seu laboratório, em Barcelona, todos os anos, de 15 de setembro a 1 de maio. Durante esse período, o disputado restaurante Le Bulle fica fechado. Só por curiosidade, o menu degustação lá servido se constitui de 27 pratos diferentes e custa o equivalente a 180 reais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-3289744444042778089?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/3289744444042778089/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=3289744444042778089' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/3289744444042778089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/3289744444042778089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-publicado-no-jornal-o-per-molhado_13.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-4938479597167216138</id><published>2008-01-05T17:24:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T17:26:29.018-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto publicado no Jornal O Perú Molhado.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios, agosto 2002&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Canevacci:&lt;br /&gt;“Búzios, metrópole comunicacional”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;em&gt;Entrevista a Miriam Danowski&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade está se preparando para fazer seu Plano Diretor e uma pergunta continua sem resposta. Que cidade nós queremos? Mesmo porque nem sabemos quem somos nós. Uma bucólica vila de pescadores? Um balneário democrático, acessível a todos? Um lugar chique, de turismo internacional?&lt;br /&gt;Nessa Praia de Babel (d’aprés Marcelo Lartigue), vamos indo. De crise em crise, de temporada em temporada. Adorando quando os turistas chegam, mas logo torcendo para que vão embora e a cidade fique toda pra nós.&lt;br /&gt;O projeto da Torre de Babel era ambicioso. Conectar a terra com o céu e conversar com os deuses diretamente, olho no olho. E deu no que deu. Crime e castigo – uma tremenda confusão, cada povo condenado a falar uma língua diferente, ninguém se entendendo.&lt;br /&gt;Nós buzianos aprendemos a lição e fomos mãos humildes. Horizontalizamos o projeto e transformamos a torre em praia. Não falamos direto com os deuses, mas em compensação nos entendemos (quase sempre). Cada um por aqui fala uma língua, mas isso é o de menos. Numa dessas capas do Peru, se disse uma vez, por ocasião de uma copa do mundo, que Búzios não tinha dúvida de que ia ganhar. Claro, são tantas as nossas nacionalidades, que uma delas ganharia.&lt;br /&gt;Seríamos tudo isso ao mesmo tempo? Bucólicos, chiques, democráticos? Cosmopolitas, pescadores, deuses?&lt;br /&gt;O antropólogo Massimo Canevacci, da Universidade de Roma, fala aqui sobre esse desafio do homem contemporâneo de habitar identidades múltiplas, inventar constantemente o presente, integrando o local com o global, sem tentar afastar os conflitos. Esta entrevista foi dada em sua vinda à Búzios, na última semana, para participar do Seminário de Antropologia Cultural e Comunicação Visual, organizado por Carmen Tatsch, pesquisadora da escola de Comunicação da UFRJ, que desenvolve, sobre a Rasa, a pesquisa “Resgate do Folclore como recurso à promoção de bem estar sócio-interacional”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não é assim também com o dualismo esquerda-direita?&lt;br /&gt;- Isso é um pouco complicado. Mas os partidos de esquerda não compreenderam ainda muito bem esse processo de mudança, por isso, às vezes, a direita ganha mais facilmente, pois embora não domine a teoria, sabe na prática. Berlusconi, o primeiro ministro da Itália, é um exemplo. Ganhou as eleições com relativa facilidade por ser homem das comunicações, donos de tvs e jornais. A comunicação é política. E a direita sabe fazer essa relação entre a política e a comunicação. Hoje, você tem que saber intervir na luta dos signos, dos símbolos de comunicação – o jeito de vestir-se, de fazer música, de utilizar o corpo. E, no corpo, nada é natural. Tudo é construído, através de formas culturais. A esquerda e, de modo geral, as ciências sociais, tem dificuldade de entender. Que o corpo não é natural, mas uma construção. Cada indivíduo é muito particular e na sua vida quer produzir e não herdar. Isso significa que a identidade pode ser múltipla. Inclusive eu, num mesmo dia, posso atravessar identidades diferentes. Agora estou aqui, com esta roupa, falo com você. Antes, eu era outra pessoa. Esta noite, não sei onde vou, que roupa vou vestir, que música vou ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso não causa uma certa vertigem?&lt;br /&gt;- Está certo. É uma grande vertigem, mas também um grande desafio. Pode ser percebido como fratura, fragmentação, onde você pode perder. Há uma tradição de ler os fragmentos como uma coisa ruim. A minha perspectiva é muito diferente. Eu gosto da fragmentação do meu eu, dos meus eus. O plural do eu não é nós, é eus. É uma pluralização da minha individualidade. Que eu quero chamar “multividuo”. Uma multiplicidade de subjetividades, que eu posso, como um cyber-pirata, por exemplo, conseguir através da Internet. Lá você pode adquirir a identidade que quiser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É como a liberdade que a gente tem hoje de não ficar assistindo um único filme ou um único canal na TV? Com o controle remoto, editamos a nossa programação, construímos nosso próprio canal.&lt;br /&gt;- Sim, cada pessoa constrói sua própria viagem, que é totalmente individual. Não é uma experiência comum. Nesse sentido, também, a dimensão coletiva, comunitária, é uma coisa horrorosa. Todo mundo aqui fala da comunidade de Búzios, mas a comunidade significa que não tem uma diferença entre os indivíduos. A comunidade deve resolver tudo, sem conflito, sem diferenças, sem controle. Em primeiro lugar, comunidade é controle. Um controle terrível. É difícil sair do controle da comunidade. A palavra comunidade parece que tem um poder mágico, de resolver os conflitos – religiões, partidos, individualidades, jeitos de viver. Mas não existe isso. E se existisse seria uma coisa horrorosa. A diferença é fundamental. O passado da modernidade foi saber escolher o que era comum. Agora, é poder escolher a diferença entre as pessoas. Este é um momento fascinante. A diferença tem a mesma importância que uma vez teve a identidade. A gente está transitando de um sistema lógico, político, filosófico, antropológico, fundado sobre a identidade, para um sistema muito mais complexo, onde a diferença é que funciona. E isso significa que num mesmo sujeito também estão as diferenças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Diante do “multividuo”, como fica a questão da representação, mesmo a política? Já que cada um é muitos, como se fazer representar?&lt;br /&gt;- Na minha opinião, está acabando um sistema político baseado nos partidos. A forma “partido” nasceu, alcançou a maturidade, envelheceu e está morrendo. Que novas formas, “pós-políticas”, podem ser inventadas? O conceito é meio ambíguo, não sei o que dizer... Gosto também de falar das formas apolíticas. Porque a matriz da política é a Polis, a cidade, a modernidade. Se o contexto é a metrópole comunicacional, também a política, como uma forma lingüística, como um conceito, não é mais adequada. Tanto na Europa, como nos Estados Unidos - no Brasil, também, está nascendo – aquilo que se chama “tatz” (temporary autonomous zone = zona temporariamente libertada). O melhor exemplo para isso é a rave, uma festa ilegal, que você faz em uma velha fábrica abandonada, onde você pode convocar, de uma maneira informal, dezenas de pessoas. Por uma noite, ou duas, a velha fábrica, que era o lugar da produção, volta a ser um espaço de liberdade, com música inovadora, etc. Momentos temporários de liberdade são fundamentais para se viver numa multiplicidade. Porque, se você pára, você fica numa condição de estabilidade e, em grande parte, reproduz o poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Voltando a Búzios, com suas inúmeras nacionalidades...&lt;br /&gt;- Você estava me dizendo que um levantamento estatístico apontou que quase 50 etnias diferentes estavam presentes em Búzios. A tentativa de restabelecer uma Búzios de pescadores – como era bonita a Búzios da minha infância, dava muito peixe, as casas ficavam dia e noite com a porta aberta, toda essa brincadeira. Isso não pode mais existir. Agora, Búzios é um espaço, mais que um lugar. Lugar é muito identificativo, espaço é bem mais fluído, multiplicativo, no qual a tensão, o desafio, entre o que é bem localizado e o que é bem globalizado se produz. E o desafio não pode se resolver de uma só maneira, restabelecendo apenas o “local” ou ficando somente no “global”. É o que a gente gosta de chamar “glocal”, uma tensão constante entre o local e o global. E cada pessoa pode tentar inventar a sua resposta. A resposta não pode ser uma identidade de Búzios. Nunca vai ser isso. (Risos...) Búzios será sempre mais um espaço de liberdade e de experimentação, se transcorrer nesse tipo de fluxo e lidar constantemente com sua pluralidade de identidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como podemos aqui em Búzios pensar sobre a cidade, já que vamos fazer nosso Plano Diretor, dar os rumos para onde a cidade deve crescer ou se desenvolver. Como isso vai se expressar no espaço?&lt;br /&gt;- É a mesma coisa. O que falei se refere também ao Urbanismo e à Arquitetura. Búzios não pode ser o que foi uma vez, nem como é Las Vegas. Búzios tem que inventar sua própria forma. Fiquei muito impressionado com aqueles trabalhos expostos no seminário, feitos com giz, muito original. Assim é com o Urbanismo e a Arquitetura. Você tem que inventar formas inovadoras. Você não pode, por exemplo, parar o consumo. A cidade era a da produção, agora é do consumo, que é tão importante quanto a comunicação. Mas o que significa consumo? Uma cidade como Búzios, que tipo de consumo tem que oferecer? Não somente ao habitante, mas também ao estrangeiro. Isso pede novas formas na Arquitetura. O arquiteto mais interessante da contemporaneidade é o que sabe produzir formas que não são mais paradas, mas múltiplas. Que se movem. No Japão, na Holanda, há muitos arquitetos bem experimentais, cujos edifícios não param. O exemplo pode ser banal, mas veja o Mexicoloco...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ah, o Guapoloco...&lt;br /&gt;- O que o Guapoloco fez? Utilizou um tipo de Arquitetura desconstrutiva, modificando a perspectiva (fazendo-a oblíqua), que foi utilizada por muitos arquitetos experimentais dos anos 80 e 90. Você pode entender que aquela multiperspectiva, embora seja uma tentativa um pouco simplista e banalizadora, segue uma tendência da arquitetura contemporânea, muito interessante.  Muitos arquitetos contemporâneos não querem fazer lojas, casa, espaços, na forma da perspectiva tradicional, preferem a multiperspectiva e acabou. Libenskind, Ghery, Ito, diversos arquitetos estão produzindo novas formas. Acho que Búzios podia ser um espaço onde esse tipo de arquitetura inovadora pode produzir um urbanismo diferente. Que está no presente, mas que produz futuro. E não se congela no passado dos pescadores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós arquitetos estamos muito incomodados com os muros, que estão mudando a cara da cidade.&lt;br /&gt;- As casas no lado esquerdo da Praia do Canto, que chegam até o mar, parecem fortalezas. Você passeia pela praia e tem esse muro, que é um horror. Você fecha a relação entre a cidade e o mar com esse tipo de privatização. Incrível, a estrutura arquitetônica é horrorosa. Não sei como o município de Búzios permite uma coisa assim, deviam ser destruídos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Também acontece com os condomínios – bairros dentro de muros. Explica-se pelos problemas de segurança, mas é horrível.&lt;br /&gt;- Sim, urbanisticamente, é uma coisa horrorosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Discutimos muito por aqui, também, a preservação do estilo de Búzios. Que está se perdendo.&lt;br /&gt;- Você não pode reproduzir a casa do pescador dos anos 50. É uma coisa simplesmente ridícula, não funciona. Os arquitetos têm que fazer novas formas arquitetônicas, que respondam às normas da administração da cidade, mas que permitam as pessoas escolher. Essa relação entre a forma de arquitetura experimental e a forma da arquitetura ligada ao contexto é fundamental.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-4938479597167216138?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/4938479597167216138/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=4938479597167216138' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4938479597167216138'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4938479597167216138'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-publicado-no-jornal-o-per-molhado_9543.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-610097446734218124</id><published>2008-01-05T14:09:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T14:15:46.759-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto para concurso da Revista Piauí (*)&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios maio 2007&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;O tanque da Harley&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Os desafios que o professor de literatura gostava de propor aos seus alunos já tinham ficado famosos na história do liceu. Não se contentava em sugerir um tema ou um título. Preferia propor uma frase, que os alunos tinham que dar um jeito de encaixar nas dissertações. No quadro negro, escrevera a frase da dissertação do mês: “… E escondeu o punhado de cânfora no tanque de sua Harley”.&lt;br /&gt;Matias virou-se para José e comentou: “Oba, sei tudo sobre motos, essa vai ser mole para mim”.&lt;br /&gt;Gaspar, debochado como sempre, foi logo dando um jeito de driblar a tarefa: “Se a empregada do cara se chamasse Harley, ele podia esconder a tal da cânfora no tanque de lavar roupa dela...”&lt;br /&gt;Encantava ao professor Gustavo, mais que o resultado final, os caminhos tão pessoais que cada um escolhia para resolver a empreitada. Para medir a reação da turma diante dessa sua nova proposta, olhou detidamente para cada aluno. E, com maior atenção, para o Tadeu, sentado como sempre na primeira fila, ajeitando de tempos em tempos o cabelo liso que teimava em cair-lhe sobre os olhos. Era mesmo bonito o rapaz, reconheceu o professor. Ainda mais assim, com a expressão intrigada de quem tentava decifrar uma charada.&lt;br /&gt;O velho Gustavo se deu conta, mais uma vez, de que era a ele que seus desafios literários eram endereçados. Tadeu não era muito de falar, mas tinha uma percepção aguda. As poucas observações que fazia eram tiros certeiros.&lt;br /&gt;Alheio à admiração do professor, o rapaz estava de fato entretido com a frase escrita com giz no quadro negro. Viu que precisava saber o que era realmente a cânfora e para que servia. Indagado, o professor explicou que a cânfora não é solúvel em água, mas que, com facilidade, se dilui na gasolina ou na benzina. Disse também que instituições de pesquisa têm denunciado a grande toxicidade da substância e que o governo tem tomado medidas para controlar seu uso na fabricação de esmaltes de unha e outros ítens da cosmética, no contato com crianças e pessoas doentes, principalmente.&lt;br /&gt;Em seguida, Tadeu reparou que a frase falava de um punhado, que não deixa de ser uma medida de quantidade, só que muito imprecisa. “Um pouco parecida com pitada, que aparece na maioria das receitas culinárias, principalmente quando citam o sal como ingrediente” – pensou.&lt;br /&gt;“Da mesma maneira, punhado deixa um bocado de arbitrariedade para o protagonista da receita”. Quando pensou isso, notou a palavra bocado, que é ainda mais imprecisa – tanto, que nenhuma receita costuma usá-la. Uma coisa sabia. Um punhado não é muito. E podia se referir a uma substância em pó, umas folhas, uns ramos....&lt;br /&gt;No entanto, se a cânfora fora escondida no tanque da moto, esse “escondida” significava que o sujeito pensava em recuperá-la depois. E, sendo assim, provavelmente não a teria colocado ali na forma de pó. Só se não sabia que a cânfora iria se diluir. Ou será que teria um jeito de coar a gasolina e recuperar a substância original? Ou deixar a gasolina se evaporar, simplesmente?&lt;br /&gt;Para esclarecer esse tipo de dúvida, teria que procurar alguém do curso de química. Mas antes, Tadeu preferiu investigar melhor o assunto. Na verdade, tinha um certo orgulho de sua organização mental, de testá-la nesses desafios. Olhou pro lado e viu a preocupação estampada na cara de vários colegas. Ele, no entanto, sabia que o importante era ficar tranqüilo e abordar todos os ângulos do problema, antes de tirar qualquer conclusão.&lt;br /&gt;De repente, percebeu que havia uma coisa antes de todas. Uma espécie de invasão de domicílio. O professor dar um título, um tema, era aceitável, porque era claramente um exercício de poder. Mas querer que uma frase de sua autoria fizesse parte da redação alheia, era bem diferente, uma imposição disfarçada. Antes mesmo de encaixar a frase no texto, Tadeu começou a senti-la como um corpo estranho, um intruso. Depois, numa reversão súbita de sentimento, teve vontade de construir todo o conto ao redor desse estranho. Quando pensou “ao redor”, imaginou, é claro, um círculo, e a frase perto do  centro, nem no início, nem no fim. Mas isso era muita submissão, uma aceitação incondicional da autoridade do mestre. Imaginou, em seguida, outra solução: largar a frase distraídamente em algum lugar do texto. Um lugar onde ela passasse quase desapercebida, onde não pudesse exercer qualquer tipo de contaminação.&lt;br /&gt;Lançou um olhar para o professor, que lhe retribuiu sorrindo com cumplicidade, sem saber que o rapaz não estava se sentindo nem um pouco cúmplice. Ao contrário, o sentimento de Tadeu era mais de raiva. Só que uma raiva diferente, que lhe dava um certo prazer, e o aproximava do professor Gustavo, como uma vítima se aproxima de seu algoz.&lt;br /&gt;O rapaz, vivendo a estranheza daquela emoção nunca antes experimentada, não fazia idéia da verdadeira razão desses jogos mentais postulados pelo mestre.&lt;br /&gt;Gustavo era um homem esquisito, inquieto. Achava que nada de mal lhe acontecia. Nunca batera com o carro, nunca ficara seriamente doente, nunca fora demitido. Preso, por participar dos movimentos estudantis na faculdade, escapara ileso, sem ser torturado. Não porque tivesse delatado os companheiros, mas porque ninguém tivera nada para lhe perguntar. Sentia como se tivesse o “corpo fechado”. Isso era bom, mas era também motivo de angústia. Era como se a sensação de estar invisível, que ele tantas vezes tivera na adolescência, tivesse contagiado tudo. Como se ele não fosse muito real. Como se planasse, sem peso. Por vezes, desejou ter uma âncora. Ou uma coisa muito pesada, para amarrar no pé e voltar para o mundo.&lt;br /&gt;Cada vez que sentava para ler um livro, acontecia coisa parecida: uma frase era o suficiente para alimentar meia hora de devaneios. Seu mundo interior não dependia quase nada do que vivia. Assim, quando começou a ensinar literatura, viu que aquela era uma ótima maneira de se apoderar da vida alheia. Isso sim, mobilizava-lhe a curiosidade e lhe atiçava o ânimo.&lt;br /&gt;A idéia das frases-intrusas surgira durante sua diversão favorita dos fins de semana – a pintura. Mas ele não conseguia criar alguma coisa do nada. Sentiria vertigem se tivesse que pintar numa tela em branco. Preferia consertar o que alguém tivesse feito antes.&lt;br /&gt;Num armarinho, comprava um pedaço pequeno de tecido, de preferência um retalho da banca de saldos. Colava aquilo numa folha de papel, com muita margem. E ficava horas ali, completando a padronagem, ampliando o tecido até suas novas margens. As vezes, completava só as linhas. Outras, estendia as cores. E, como lhe afligia a falta de limites, ia fazendo as cores se desvanecerem, para o final não ser muito abrupto.&lt;br /&gt;Quando esticava as linhas, dava um jeito delas se emaranharem, de modo a esconder as pontas. Senão, outro aflito podia inventar de continuá-las. Quando o sol começava a se pôr, ele se apressava em terminar a pintura e definia claramente as margens, para que nenhuma dúvida pairasse de que aquele era o final.&lt;br /&gt;O sol também se punha quando, no final da aula, Tadeu se aproximou de sua mesa para entregar a redação. Gustavo estremeceu ao sentir a aproximação do aluno. Respirou fundo, decidiu que não era a hora de remexer sua vida, foi até o quadro negro e escreveu a frase do próximo conto: “O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;(*) O texto não foi mandado porque perdi o prazo&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-610097446734218124?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/610097446734218124/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=610097446734218124' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/610097446734218124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/610097446734218124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-para-concurso-da-revista-piau.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-1511016218198558556</id><published>2008-01-05T13:56:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T13:59:42.229-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto publicado no Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios 2007&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Marcio Fortes,&lt;br /&gt;o ministro que atende o telefone&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Entrevista a Marcelo Lartigue&lt;br /&gt;Texto final Miriam Danowski&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Em visita a Secretaria de Planejamento o atual Ministro das Cidades, Marcio Fortes, aproveitou suas férias de carnaval para oferecer para Búzios as verbas que o governo federal está destinando para diversos aspectos do desenvolvimento urbano – esgoto, drenagem, regularização fundiária, habitação. Para receber o investimento, a Prefeitura tem que apresentar, em tempo recorde, o que ele chama de projetos-básicos. Já está na mão do Ministro uma lista das obras prioritárias para a cidade, entregue pelo Secretário Octavinho. Na entrevista exclusiva ao Jornal o Perú Molhado, Marcio Fortes, que é um freqüentador habitual de Búzios, conta que passou o carnaval correndo na praia de Geribá, recuperando a forma depois da dieta que o fez perder 10 quilos. Promete correr também, pessoalmente, atrás dos recursos para nosso município e dá o número do seu celular para quem quiser falar com ele. E avisa que não adianta ficar tímido e desligar, que ele liga de volta.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Marcio Fortes é diplomata de carreira – cursou o Instituto Rio Branco e, depois de ter ficado no Itamarati no início da carreira, foi para Nova Iorque. Além disso é Doutor em Direito Público. Trabalhou em diversos ministérios, considerando que isso podia ser interessante para sua formação. Foi Secretário Executivo (vice-ministro) do Ministério de Minas e Energia, do Ministério da Agricultura, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Assumiu o Ministério em 2005. Apesar de estar em Brasília há quase oito anos, ele mora no Rio – é carioca.&lt;br /&gt;O Ministério das Cidades foi criado pelo presidente Lula em 2003, a partir de reivindicações dos movimentos sociais. Em 88, a pressão desses movimentos resultou na inclusão na Constituição Federal do capítulo sobre Políticas de Desenvolvimento Urbano. Depois de quase 11 anos tramitando no Congresso, o Estatuto da Cidade saiu em 2001 e o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, em 2005. Outro marco regulatório importante é a Lei de Saneamento, que foi aprovada no final do ano passado e sancionada no início deste ano.&lt;br /&gt;Diz o ministro que conduziu pessoalmente a negociação: “Depois de mais de 15 anos discutindo essa legislação, conseguimos que passasse por unanimidade no Senado e por aclamação na Câmara. Foi uma grande vitória, e a lei só não entrou em vigor esta semana, porque são necessários 45 dias de prazo. Nos próximos dias, estaremos ouvindo as entidades que representam os estados, municípios, empresários, trabalhadores, prefeitos, associação de prefeitos, associação de municípios, para saber o que, no entender deles, tem que ser regulamentado, até para evitar dificuldades e atrasos na implementação da lei e aplicação dos recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)”.&lt;br /&gt;Apesar de recente, o Ministério das Cidades tem sido alvo de muita cobiça. Na reforma ministerial anunciada pelo Presidente, fala-se que a pasta está incluída na dança das cadeiras, mas isso também já foi desmentido. Marcio Fortes tenta explicar o interesse de tantos políticos no seu Ministério: “O Ministério das Cidades toca diretamente o coração de cada morador. Você já imaginou gente que nunca teve chave de uma porta receber a chave de uma casa? É uma alegria: você acender uma luz, abrir uma torneira e sair água. Outros ministérios têm sua atuação sobre a população em geral, você não identifica cada um. No caso do meu, você dá um recurso para habitação, e vê a casa sendo entregue, tem contato com os que foram beneficiados com água, esgoto. E também é um ministério que se articula muito com os prefeitos, governadores, companhias municipais e estaduais de habitação e saneamento, deputados e senadores (na apresentação das emendas). E também temos uma relação direta com o povo, inclusive através das Conferências das Cidades, que fazem parte da estrutura do Ministério, juntamente com o Conselho da Cidade que, por sinal, acontece este ano. A primeira foi em 2005. São reuniões municipais, estaduais e depois nacionais, onde há a participação de toda a sociedade civil – empresário, trabalhador, representante de movimentos sociais, estudantes. Localmente, se indica os delegados, que vão aos conselhos, até chegar a Brasília. Participam em média três mil representantes. Essa visibilidade toda é que atrai os políticos”.&lt;br /&gt;- O Presidente Lula é quem define – explica ele - em função da indicação dos partidos, mas quer que as pessoas tenham currículo, qualificação técnica. O que é importante para que não haja desvio de função, para que não se fique nem só na visão política e nem só na técnica. Um ministro tem que ter as duas visões.&lt;br /&gt;Presidente do Conselho de Administração de 20 empresas estatais vinculadas aos ministérios em que trabalhou, Marcio Fortes acredita que bateu um recorde: “Siderúrgica Nacional (quando era privada), Eletrobrás, Conab, BNDEs, Codevasp e muitas outras. Muitas vezes, eu tinha que fazer reuniões depois da meia noite para caber na agenda. Posso dizer, tendo sido diretor executivo e ministro interino em tantas ocasiões, no Ministério das Minas e Energia, no Ministério da Agricultura, no de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que não é só ministro que trabalha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Já que isso aqui é uma entrevista pro Perú Molhado, vou fazer uma pergunta provocativa. Como vai sua construtora?&lt;br /&gt;Não é minha, é do meu homônimo Márcio Fortes, do PSDB, engenheiro. (Risos) Ele é amigo meu, inclusive já trabalhamos junto no Conselho de Administração da Cia de Docas do Rio. Eu era secretário de Obras do município do Rio e estava lá representando a Prefeitura. Essa confusão de nomes vem desde 1970. Eu estava num congresso de bancos, pelo Ministério da Indústria e Comércio. No intervalo, nos corredores, quando o alto-falante chamou por Marcio Fortes, eu me apresentei: “Sou eu”! Uma moça que estava lá me questionou: “Não é não. Eu conheço bem meu irmão e o senhor não é ele”. (Risos) Ainda hoje, muitas vezes, ele recebe convites meus e eu os dele, os jornais trocam nossas fotos... Mas nós nos entendemos bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O prefeito recomendou: “O ministro prometeu recursos para Búzios e temos que elogiar ele”...&lt;br /&gt;- (Risos) Eu sempre venho para Búzios, todo ano, e fico na casa de amigos. No ano passado mesmo, fiquei aqui do lado na casa do Eduardo, e estive com o prefeito Toninho Branco. Mas como agora estamos com os recursos ampliados, provenientes do PAC, recursos dos PPIs (Projetos Prioritários de Investimento) e também com reforço na área de financiamento, procurei o Prefeito, o Octavio, para ver quais os projetos que existem aqui, para a gente colocar na pauta. O presidente Lula diz sempre que os recursos existem, existe vontade política, mas que faltam projetos. Ele tem razão. Por isso, nós vamos até ajudar na elaboração desses projetos. E, no caso das companhias estaduais ou municipais, vamos ajudar a melhorar a gestão, através de convênios para a disponibilização de consultores. Não digo que vamos ensinar nada, não temos essa pretensão, mas vamos colaborar com as empresas para que a gestão melhore e também a qualidade dos serviços. Com o espírito cooperativo, não através de imposição de regras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Otavinho deve ter ficado maluco, ele está sempre atrás de recursos... O que o senhor achou da Secretaria?&lt;br /&gt;- Eu vi que a Secretaria está bem organizada, e que há muitos projetos. Fiquei muito contente com isso. São muitas as idéias, existem levantamentos, vários projetos básicos. Para a destinação de recursos é preciso que se tenha esses projetos básicos, no formato exigido pela Lei 8666, para as licitações, que depois pode ser aprofundado em um projeto executivo. Otavinho me trouxe vários ítens e disse que cinco ou seis já têm projeto básico. Os outros (dois ou três) serão enviados rapidamente para Brasília – eu vou ficar aguardando.&lt;br /&gt;Também vou colocar a equipe técnica do Ministério em contato com a equipe técnica da Prefeitura, para ver o que está correto e o que pode ser aperfeiçoado nesses projetos. O importante é que, de nossa parte, temos toda a boa vontade. Eu não sei dizer não. Mas vejam que não adianta eu ter vontade política, nem existirem os recursos. O projeto tem que ser elaborado, discutido com o agente financeiro – no caso a Caixa Econômica -, pois se trata da sustentabilidade do investimento. No caso da água, as perdas têm que ser evitadas e, no caso do esgoto, é preciso escolher soluções que evitem pressões sobre o meio ambiente. Tem muita coisa entre a assinatura e o início das obras, muita papelada, mas isso é normal. São exigidas licença ambiental e regularização das terras que serão objeto de intervenção – seja habitação ou saneamento. Na hora de apresentação, é preciso apresentar uma referência de entrada no órgão ambiental e, também, de que se trata de áreas regularizadas, que não sejam áreas de origem duvidosa e se saiba se são públicas - municipais, estaduais ou federais. A Caixa Econômica é muito dura nessa questão, justamente para evitar que os recursos caiam numa área que é privada. Imagine a confusão que daria.&lt;br /&gt;O presidente Lula fala o tempo todo que faltam projetos no Brasil inteiro. É verdade. Tanto é que a gente agora está usando os recursos do PAC, também, para ajudar na elaboração dos projetos. O que é compreensível, porque os projetos não são baratos. Por exemplo, no ano passado, no Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, colocamos um bilhão de reais de dotação. A maior parte seria para atacar as áreas de palafitas. Tínhamos um levantamento que dava conta de 110 mil famílias vivendo em palafitas. Só que pouco mais da metade dos municípios apresentou projeto. Apliquei então 550 milhões e o resto do recurso foi deslocado para as favelas. Acho que essa cultura vai se disseminar aos poucos agora, a partir da disponibilização dos recursos. Os municípios não precisam deixar de habilitar por falta de projetos, agora eles podem pleitear, além da obra, auxílio para a elaboração desses projetos. Eu faço um acordo de cooperação técnica (PMSS – Planos de Modernização do Setor de Saneamento, no caso dos projetos de Saneamento), ou dentro das cartas-consulta, que deverão ser apresentadas no segundo semestre. Ainda não entramos na nova formatação da ação do ministério, em que vamos colocar recursos para esse fim. No momento, nós é que estamos tomando a iniciativa de escolher as áreas prioritárias para a ação do governo federal. Mas num segundo momento, vamos colocar editais com regras para a apresentação das cartas-consulta pedindo recursos para habitação, saneamento, desenvolvimento institucional e também para a elaboração dos projetos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É verdade que Búzios perdeu um recurso federal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Quando eu estava no Ministério da Agricultura destinei duas verbas para Búzios – um trator e uma fábrica de gelo, para apoiar a atividade dos pescadores. Este último, infelizmente acabou não sendo aproveitado porque houve uma discussão sobre o local onde ficaria a fábrica – se no Centro ou em Manguinhos. E se perdeu a oportunidade. Hoje, eu vejo aquele píer muito bonito na Colônia de Pesca de Manguinhos, ao lado do centro gastronômico. Acredito que devo ter destinado esse recurso em 2001, uns 80 mil reais, se não me engano. Qualquer que fosse a solução, teria sido melhor do que perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Na lista que o Otavinho apresentou, o sr. acrescentaria alguma coisa?&lt;br /&gt;- Acho que Búzios está tendo tem problemas em relação a infraestrutura viária. Da última vez que vim, a Via Azul ainda estava em obras. Achei que o projeto ficou bom, mas entendi que está incompleto, inclusive dependendo de uma definição do Inepac, de modo que se possa fazer o retorno através de um binário, dentro do parque. Coloquei o Prefeito Toninho em contato com o Pezão, vice-governador do Rio de Janeiro, que já foi prefeito e que conhece bem essa problemática municipal, para que receba orientação sobre os trâmites para obtenção da licença ambiental, sem que haja agressão ao meio ambiente.&lt;br /&gt;Búzios tem um problema delicado: em dias normais tem população pequena, mas em dias de pico chega a 150 mil habitantes. Então, temos que cuidar dessa questão do saneamento e da água. As cidades com população flutuante muito elevada têm esse problema. A gente pensa que está tudo organizado, muito bonitinho para aquela dimensão de cidade, mas na verdade não está, o que se vê quando a qualidade de vida dos moradores é afetada e a cidade deixa de atrair os turistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Parece que pelo contrato, o esgoto de Búzios poderia sair só daqui a 20 anos...&lt;br /&gt;Sim, mas através do Ministério, acho que podemos influenciar. Quando eu estava no Ministério da Indústria e Comércio, estive com eles em Portugal. Era uma época de transição de governo – Santana estava saindo. E com isso fizemos sugestões para que a direção da empresa tivesse sua representação revigorada, com força para fazer novos investimentos e resolver as contestações e os pleitos, com relação à qualidade dos serviços.&lt;br /&gt;Eu estava conversando com o secretário de Planejamento e com o Prefeito sobre essa questão de contaminação das águas pluviais por esgoto. Disseram que a situação já está sendo corrigida em vários bairros. Na parte central da cidade, me parece que a situação é mais delicada, porque existem diversas lagoas e o esgoto acaba saindo nelas. Então, é preciso separar as águas pluviais do esgoto e trabalhar a drenagem.&lt;br /&gt;Temos que identificar as áreas que não estão sob influência da concessão do esgoto. A idéia é fazer saneamento integrado, que envolve drenagem de águas pluviais e esgoto, além de coleta e destinação de lixo. Mas, primeiro, temos que ver até onde vai a concessão, para que não haja superposição de ações, e ações indevidas, nem se crie problemas com a Prolagos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Em Búzios não temos favelas, mas temos bairros com população pobre, morando em lotes irregulares, em edificações irregulares, ruas mal traçadas, sem calçada, sem áreas verdes, ocupação de topo de morro e outras áreas de proteção ambiental, áreas de risco e até áreas públicas, com problemas de erosão, esgoto, alagamento, lixo. Além disso, há o problema das invasões. Na semana passada, estivemos em Punta Del Este, que é uma península, cuja periferia lembrava Búzios de antigamente. E, hoje, custa mais caro comprar um terreno lá - onde estão as melhores casas, os melhores restaurantes - do que na nossa praia da Azeda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O Ministério liberou nos últimos anos cerca de 50 milhões de reais para a elaboração dos Planos Diretores Participativos, para programar e reordenar o crescimento das cidades, através da presença de consultores, agentes multiplicadores, convênios com CNPQ, Prodetur. Temos outro programa que é o da Regularização Fundiária, propriamente, apoiada por nosso grupos de trabalho ou através de contratação de empresas. Quando o terreno é público, é claro que fica mais fácil negociar a doação. A ocupação de áreas de risco já é objeto de outro programa. São os casos de ocupação de beira de lagoa, encostas, em que as moradias estão sujeitas a acidentes, quando chove muito. A gente considera projetos de remoção dessas famílias para outras áreas. Pelos nossos levantamentos, os problemas de habitação não tão grandes assim em Búzios e temos possibilidade de resolvê-los através da transferência voluntária de recursos sem ônus ou através de financiamento para o município ou para o tomador, a custo praticamente zero, porque usamos os recursos do FGTS. O estado ou o município entram com terra, infraestrutura mínima e o tomador não entra com praticamente nada. Essa é a Resolução 460. Ou utilizamos os recursos do próprio orçamento geral da União. Os projetos, já falei com o Otavinho, podem ser apresentados rapidamente, nas duas frentes, para enfrentar essa situação de invasões, a que você se referiu, e que não é um problema só de Búzios, mas uma questão do Brasil inteiro. Nossa maior preocupação, a nível nacional, é com as regiões metropolitanas e cidades com mais de um milhão de habitantes, onde está concentrado o grande déficit habitacional, na faixa de 7.900.000 unidades. Os recursos disponíveis não são só para construção de casas novas, mas também para a melhoria e ampliação das moradias, urbanização (no caso de favelas e palafitas). Temos igualmente recursos para financiar materiais de construção, apoiando o processo de auto-construção, que acontece, no Brasil todo, em quantidade muito significativa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A população fixa de Búzios vem crescendo muitíssimo. Segundo o IBGE, em 1940, estávamos na faixa de 3.200. Em 1980, 5.300. Em 1991, 10.500. No ano 2.000, 18.100. Hoje, fala-se de 25, 30 mil habitantes.&lt;br /&gt;- O importante é identificar os problemas que a cidade enfrenta quanto ao trânsito, água, saneamento, nos momentos de pico, quando é visitada por gente do Brasil inteiro e do exterior (basta ver as placas dos carros). E temos que atender a essa turma toda. O prefeito está atacando nessa frente, o Otavinho já tem uma fábrica de projetos. (Risos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O presidente Lula sabe que o sr veio a Búzios?&lt;br /&gt;- Sabe sim. Eu tive uma reunião com ele na quinta feira antes do carnaval e pedi autorização para tirar oficialmente férias na quarta, quinta e sexta – isso foi para o Diário Oficial e são férias ainda de 2004! (Risos). O presidente faz reuniões freqüentes com todos os ministros e é do tipo que gosta de ouvir todos os envolvidos nos assuntos – presidentes de empresas, assessores, grupos que vão subsidiar a decisão dele em tal ou qual área.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há bastante preocupação aqui no município com o problema da segurança. Ações de regularização fundiária poderiam ajudar já que resultam em inclusão social. Falam que o Comando Vermelho já está instalado em Cem Braças e que na Rasa, toda semana, acontecem vários crimes de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Voltando da cidade anteontem, eu vi que teve um assassinato na Via Azul. Achei que era um atropelamento, vi os Bombeiros chegando, mas aí soube que tinha sido um assassinato. Mas é uma questão do âmbito do Ministério da Justiça. O governo federal sempre respeita as competências locais, mas, em entendimento com o governador Sergio Cabral, disponibilizou a Força Nacional de Segurança para ajudar o Estado do Rio de Janeiro. Algumas ações estão acontecendo na fronteira do Estado, para coibir entrada de armas e drogas. Mas acho que a sociedade tem que ajudar. Toda essa mentalidade que existe hoje de crime, tráfico, eu tenho uma visão de que isso deriva muito de cinema. As pessoas perdem a sensibilidade. Você olha até no filme mais inocente e sempre tem pelo menos três, quatro mortes. E a pessoa esquece que aquele que está ali apertando o gatilho é um ator, que é uma mentirinha, uma coisa virtual. Pensam que apertar um gatilho é como fazer um filme e saem por aí dando tiro pela ruas. Eu gostaria de ver a reação desses criminosos ao ver realmente o tiro sair, ver uma pessoa sangrar e morrer na rua. Acho que deve ser duro. Quando se perde essa sensibilidade, é preocupante. Você tem que ter uma ação em relação aos pais, uma ação mais intensa de educação, trazer para a sociedade essas pessoas que estão à margem, aumentar a qualidade de vida e a auto-estima dessas pessoas. O Ministério, aliás, foi criado para a inclusão social. Todos os nossos programas são direcionados para isso.&lt;br /&gt;Também é importante essa discussão de utilização de menores nos crimes - não acho que seja necessário rebaixar a idade. Muitos jovens na faixa de 17, 18 anos estão sendo recrutada, por causa do físico. Não interessa ao criminoso usar garotos de 14 anos...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- A obrigatoriedade dos Planos Diretores municipais implica em novas responsabilidades do município em relação a gestão de seu território. As prefeituras estão preocupadas em criar e capacitar seu corpo técnico permanente ou continua a balança continua pendendo para o lado dos cargos comissionados?&lt;br /&gt;- Eu acho que tem que prevalecer os cargos técnicos. O governo federal até colocou uma limitação quanto ao número de cargos em comissão (DAS), que podem ser objeto de indicação de pessoas de fora da administração e eu entendo que é importante os estados e municípios seguirem esse exemplo, para haver continuidade. Se não, você chama 20 pessoas e quando acaba o mandato do prefeito, vêm outras 20 que não sabem nada do que está acontecendo, que vão demorar a aprender e aí há a descontinuidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como o sr. vê as conseqüências desse novo “ciclo econômico”, o do petróleo, para essa região e para o Estado do Rio como um todo, já que a maioria das cidades beneficiadas pelos royalties não estão investindo esses recursos onde eles poderiam servir para garantir a sustentabilidade de suas economias quando se esgotar o ciclo?&lt;br /&gt;- Eu tenho falado com prefeitos da região e muitos deles estão preocupados com esse crescimento desordenado que aconteceu, por exemplo em Macaé, e estão reservando recursos até com a finalidade de prevenir. Nas nossas ações dentro do PAC estamos tendo especial atenção com relação a esses grandes empreendimentos, que envolvem a atração de muitos trabalhadores. Acabadas as obras, onde vão essas pessoas? Morar em favelas? É o caso do Projeto Jarí, no Amapá, que resultou nas palafitas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Há uma divergência de opiniões na cidade em relação a vinda dos Resorts, como o Breezes na praia de Tucuns, o Club Med, o Sheraton e outras bandeiras na praia do Peró, que é em Cabo Frio, mas que fica na zona de influência de Búzios, em uma Unidade de Conservação da Natureza (APA do Pau Brasil). Os que são a favor defendem que vai ser uma injeção de grana na cidade, que vai aumentar a oferta de emprego, que vamos ter turistas de qualidade. Os que são contra dizem que esse tipo de empreendimento enfraquece os negócios da cidade, porque o turista que vem, tem ali dentro tudo o que precisa – restaurante, lojas, lazer. Comparam os resorts aos condomínios, que ficam atrás de muros e não se integram á cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É um tema controvertido. E é a mesma crítica que alguns têm feito contra os navios de cruzeiro. Que as pessoas não descem do navio, que não vão aos restaurantes, nem fazem compras na cidade. Eu não acho que seja assim. Se você tem um centro de cidade bem organizado, com restaurantes de bom nível, com lojas de grife, isso atrai a população que desce e vem aproveitar. Desde que você tenha também praias limpas. Muita gente pensa que os turistas reclamam mais da segurança, mas reclamam mais é da limpeza. A limpeza da praia tem que ser feita durante diversas horas do dia. Coleta seletiva, então, seria ótimo. É claro que o resort quer segurar o cliente o dia inteiro com diversão, ginástica e tudo o mais. Mas muita gente sai. E o resort não está aqui por acaso. O resort vem porque existe Búzios. Todo mundo sabe que Búzios tem movimento noturno, tem a rua das Pedras, bons restaurantes. O mesmo acontece com quem tem casa. Eu, por exemplo, saio toda a noite para jantar na cidade. Cada dia num restaurante diferente. Cabe à Prefeitura fazer o que já está fazendo. Cuidar da água, do esgoto, das vias, estimular investimento em restaurantes, lojas de grife. É isso que atrai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu fiz um DVD, onde mostro as 57 nacionalidades de estrangeiros que moram hoje em Búzios e participam da vida econômica, cultural, social. Nenhum lugar da América do Sul tem essa característica, nenhuma cidade do nosso tamanho.&lt;br /&gt;- É, Búzios é conhecida mundialmente, e é diferente das outras cidades, muito valorizada pelos estrangeiros. Você, por exemplo, é argentino e eu sou neto de argentino. (Risos). Na verdade, minha avó, por parte de mãe era argentino, meu avô era espanhol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu falei com deputado Gabeira e ele me disse que, nesta semana, está entrando com um projeto no Congresso, permitindo aos estrangeiros, que têm permanência, escolher o prefeito. Chama de Lei da Reciprocidade, já que na Argentina, um brasileiro, com permanência pode votar no prefeito, que lá é o intendente.&lt;br /&gt;- Búzios tem uma situação peculiar. Eu não vi ainda equivalente em outros municípios. Mas acho que é uma questão que pode ser discutida no Congresso, mas não sei se é de aplicação nacional. Tem que ver as limitações, no contexto geral, de participação do estrangeiro nas decisões nacionais, como nas cias de aviação, direção de jornais. No nordeste brasileiro, o investimento estrangeiro é forte por causa das linhas aéreas – capital espanhol, português, italiano e até oriental. Isso é matéria típica da Comissão de Constituição e Justiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Podemos contar com seu apoio?&lt;br /&gt;- (Risos) Eu não sou político. Mas é claro que, através do meu partido (o PP), eu tenho uma relação intensa com deputados e senadores... Deixa eu ver o projeto. Tenho boa relação com o PV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O sr queria falar dos deficientes...&lt;br /&gt;- É, já que falamos tanto de Urbanismo e Desenvolvimento Urbano, vou falar da preocupação que estamos tendo em dar transporte e acessibilidade a prédios públicos e a prédios privados com freqüência de público, para que se tenha rampas, dimensões de banheiro suficientes para passar as cadeiras de rodas, etc. Estamos fazendo isso também no metrô de Porto Alegre, colocando escada rolante e elevadores onde é necessário. E nos projetos habitacionais, casas ou blocos, estamos exigindo também um número mínimo de unidades preparadas para esse tipo de deficientes. Porque é um drama passar pelo constrangimento que teve que passar a vereadora do Rio, a Georgete, que tinha que ser carregada para entrar nos prédios públicos. Os arquitetos do passado esqueceram disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- No Plano Diretor de Búzios, além da preservação do patrimônio natural, está incluído o impacto de vizinhança.&lt;br /&gt;- Isso é muito bom, porque é um instrumento para se redirecionar empreendimentos, adequando-os ao ambiente urbanístico e ao ambiente natural. Ou seja, você colocar uma casa de espetáculos num ambiente que é de tranqüilidade não vai afetar só pelo barulho – que pode ter um tratamento acústico – mas por causa do movimento de carros, da circulação da garotada. O Direito de Vizinhança existe exatamente para isso. Têm ocorrido situações interessantes, a exemplo de comunidades que não querem aceitar a presença de igrejas ou de indústrias. O Estatuto da Cidade é um documento importante, e muita gente desconhece. Vocês podiam sugerir ao prefeito que fizesse folhetos com essas explicações, para a população saber quais são seus direitos. O Plano Diretor Participativo é uma das conseqüências do Estatuto da Cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual foi a primeira vez que o sr. veio a Búzios?&lt;br /&gt;- Foi em 1986.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O que mudou nesses 20 anos?&lt;br /&gt;- A cidade evoluiu muito. Eu sou do tempo em que a gente quando vinha pra cá, tinha que trazer botijão de água e comida. Hoje, o comércio se desenvolveu. A água ainda vem pelos caminhões-pipa, mas só eventualmente. Agora, a cidade tem que obedecer a esse Plano Diretor, para evitar que haja uma situação delicada no seu crescimento, que tem que ser ordenado. Porque se está investindo, investindo, e é preciso evitar a ocupação de morros, evitar que o crescimento perturbe ecologicamente a cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tem gente aqui que quer que a cidade pare de crescer e se possível volte ao passado, quando era uma aldeia de pescadores. E outros que acham que deve crescer mais e mais, receber cada vez mais visitantes, se modernizar.&lt;br /&gt;- A expansão tem que haver, só que tem que ser ordenada. Se uma área já está bem ocupada, que se dirija as autorizações de construções para outras. Também não adianta fazer construções verticalizadas, que não têm nada a ver com a arquitetura local.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O sr. conheceu o Umberto Modiano?&lt;br /&gt;- Sim, conheci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele, que era sócio do jornal, e que tinha todas aquelas terras na Praia Rasa, às vezes reclamava: “Estou perdendo uma grana preta aqui, podia fazer igual à Avenida Atlântica”...&lt;br /&gt;- (Risos) Eu acompanhei a construção daquilo tudo, do hotel na ilha, da marina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Agora vem aí o Eike Batista.&lt;br /&gt;- É, o Eike está aí. A cidade atrai por suas características. Foi o que eu disse, mesmo com os resorts, a cidade tem vida própria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O sr. vem sempre nesta época?&lt;br /&gt;- Não, já vim em muitas ocasiões. Ainda no mês passado, estive aqui na casa do Pratini aqui do lado. Trabalhei com ele em vários momentos. Quando ele foi ministro das Minas e Energia, de Agricultura. No passado, na década de 70, também trabalhei muitos anos com ele no Ministério da Indústria e Comércio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O sr. joga golfe também?&lt;br /&gt;- (Risos) Não, não jogo, mas sei que ele e a Beth jogam todo dia. O que eu fiz aqui, que não fazia há muito tempo foi voltar a correr. Depois de ter emagrecido dez quilos, correr a praia ida e volta já foi um bom exercício. Tenho que correr, agora, é atrás dos projetos para cidade. (Risos). Tem que ser o mais rápido possível, porque eu estou me reunindo novamente no início de março com o Presidente sobre saneamento e manejo de águas pluviais, por isso queria ter esses projetos na mão. O Otavinho veio aqui ontem. Já trouxe a carta que eu pedi a ele com uma idéia geral dos projetos e uma estimativa de valor e, na semana que vem, me apresenta os projetos básicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O sr. já conhecia o Otavinho?&lt;br /&gt;- Já tinha estado com ele uma vez. Ele foi quem fez esta casa. E a do lado, do Loureiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Ele é conhecido como xerife.&lt;br /&gt;- Isso é bom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mais alguma coisa, ministro?&lt;br /&gt;- Eu queria mandar um recado para os prefeitos, deputados, senadores. Quem me conhece, já sabe disso. Eu não marco audiência. Basta ligar para a minha secretária, perguntar se eu estou, se estou na cidade. Eu não marco hora, porque meu horário é das sete da manhã à meia- noite. E disponibilizo meu telefone, que é (61) 9994-5527. Pode ligar, que eu respondo. Uma vez uma revista de grande circulação – vou dizer qual é, a Veja – e foram milhares de ligações. Tem gente que fica tímida: “Ah, pois não, é engano!” Mas aí eu ligo de volta. (risos) Uma vez eu estava aqui em Búzios e recebi telefonema de duas cidades de Minas. Disseram que viram numa revista antiga – certamente aquelas que ficam meses nas ante-salas de consultórios médicos ou de dentistas. Outro dia alguém me deixou um recado: “Vi seu telefone, liguei. Desculpe não ter falado”.&lt;br /&gt;A revista Veja em Portugal chama-se Sábado, mas circula na quinta feira... (Risos) Saiu a mesma matéria lá e recebi muitos telefonemas das pessoas, dizendo que seria bom se os ministros de lá também dessem seus telefones. Secretária, cerimonial segurança, tudo isso afasta muito a gente do povo. Muita gente liga só para conversar, não é para pedir nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- O sr. é simpático assim também lá em Brasília, ou é só aqui?&lt;br /&gt;- (Risos) Eu sou assim mesmo. Gosto de andar sozinho. Anteontem, fui ao Rio pegar meu filho e fui dirigindo o meu carro. Por falar em carro, lembro que no Ministério nós temos outra área que pouca gente sabe que é nossa, o Denatran. O Contran também. Os dois eram, antigamente, do Ministério da Justiça. Então, toda essa parte de trânsito, regulamentação, implementação, é com a gente. Muito particularmente, é meu interesse pessoal, porque eu perdi um filho em acidente de trãnsito. Há três anos atrás, no Rio de Janeiro. Havia três rapazes a bordo, o carro capotou e só o meu filho morreu. Graças a Deus que os outros não tiveram nada. Sou a favor de uma campanha para que os pardais sejam colocados em maior número e que estejam em locais visíveis, e não escondidos atrás de árvores ou de vigas de viaduto. Pardal tem que sair do ninho, porque seu objetivo é inibir, para evitar que essa garotada continue morrendo, não é só arrecadar. Onde meu filho morreu, na Praia de Botafogo, na última curva do Aterro, pouco antes do túnel, eu já vi dois ou três acidentes iguaizinhos e nunca ninguém colocou nada para evitar isso – nem redutor de velocidade nem pardal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-1511016218198558556?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/1511016218198558556/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=1511016218198558556' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/1511016218198558556'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/1511016218198558556'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-publicado-no-jornal-o-per-molhado_5958.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-2361282463264113496</id><published>2008-01-05T13:53:00.001-08:00</published><updated>2008-01-24T16:22:22.879-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto publicado no Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios 2007&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sonhos que aconteceram&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Por Miriam Danowski&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De 25 de julho a 5 de agosto de 2004, o Instituto de Arquitetos do Brasil - núcleo Búzios apresentou, na Praça Santos Dumont, a exposição "Búzios dos nossos sonhos”, reunindo, em painéis ilustrados, idéias para valorizar, embelezar e aprimorar a cidade. A exposição, vista por estudantes, crianças, políticos, moradores e visitantes, suscitou debates na imprensa e explicações dadas pelos expositores ao público na própria praça.&lt;br /&gt;Aos arquitetos interessava o exercício da liberdade de imaginação, além de despertar a percepção e o senso crítico da comunidade sobre o espaço arquitetônico e paisagístico de Búzios, conforme declarações dadas na época.&lt;br /&gt;Três anos depois, diversos desses projetos e idéias mostrados nos 14 painéis expostos pelos 18 arquitetos do núcleo viraram realidade, como o Parque da Lagoa da Ferradura, sugerido pelos participantes com o nome de Parque da Usina, uma opção de lazer da comunidade, para a prática de esportes e de atividades culturais, na região central da península. Igualmente a proposta de um corredor cultural indo da Rua das Pedras, ao longo da Orla Bardot, até os Ossos, que foi incorporada no Plano Diretor como “Área de Especial Interesse Cultural”. Também foi implementada a proposta de abertura para o mar da Estrada José Bento Ribeiro Dantas, no trecho junto à Colônia de Pesca de Manguinhos, com o Centro Gastronômico de Manguinhos.&lt;br /&gt;Falta agora a criação de um sistema de ciclovias, atendendo ciclistas e pedestres, e não só os automóveis, a valorização de bairros, como Cem Braças; a presença pública e a oferta de equipamentos urbanos na Praia de Geribá; o resgate das servidões, para uso da comunidade; e a criação de um circuito de praças temáticas, servindo simultaneamente à população local e aos interesses do turismo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-2361282463264113496?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/2361282463264113496/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=2361282463264113496' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2361282463264113496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2361282463264113496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-publicado-no-jornal-o-per-molhado_3358.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-2758920636064718114</id><published>2008-01-05T13:48:00.000-08:00</published><updated>2008-01-24T16:23:59.854-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto para o Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios 2005&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Jogando confete&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Por Miriam Danowski&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente muito legal o bloco do Perú, que comemorou dia 23 os também 23 anos do jornal. Nesses tempos esquisitos, em que Búzios deriva de cá pra lá, sem saber qual a sua cara (a velha dúvida cazuziana) e, pior, tenta “à la Zeillig, do Woody Allen” imitar a cara dos outros, adorei dançar ali, ao som das marchinhas de antigamente, tocadas pela banda do mestre Derli, atrás da alegoria do Helinho.&lt;br /&gt;Foi mesmo comovente ver o pessoal da terra e de fora se juntando ao bloco que começou com uns gatos pingados e no fim virou multidão.&lt;br /&gt;Naquele momento, me dei conta do que já sabia - que o Perú é, ainda, verdadeiramente, a “pièce de resistance” do espírito buziano, que teima em não esmorecer, apesar dos lugares-comuns da “vida civilizada”, do utilitarismo da política partidária, da hipocrisia das religiões tornadas modernas e marketáveis, de tudo isso que veio junto com a emancipação que tanto queríamos, como o contra-peso que você tem que levar pra casa junto com o filé mignon.&lt;br /&gt;Admiro realmente essa força do Marcelo (antes partilhada com o Aníbal e, agora, com a Mônica), que entendeu desde o início, que o humor é uma arma poderosa, a única capaz de desmontar a arrogância, o autoritarismo e a caretice, vindos de onde vierem. O humor, mais até do que a política, é capaz de sintonizar gregos e troianos, pobres e ricos, turistas e nativos.&lt;br /&gt;Tenho ouvido e lido vários candidatos a prefeito falando de cultura e identidade. Espero que tenham a sensibilidade de perceber que a questão é muito delicada e, principalmente, numa cidade turística que, com voracidade, tende a transformar tudo em mercadoria e a descartar tudo o que não se enquadra. Parabéns ao Perú pelo aniversário. Continue a ser do-contra, a andar na contra-mão, a fazer as perguntas erradas, a “carnavalizar a vida”, como já disse o mano Caetano.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-2758920636064718114?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/2758920636064718114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=2758920636064718114' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2758920636064718114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2758920636064718114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-para-o-jornal-o-per-molhado-bzios_3335.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-8860038392410075401</id><published>2008-01-05T13:45:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T13:46:25.187-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto publicado no Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios 2005&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Viagem à Varig, via Buenos Aires&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Por Miriam Danowski&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O dinheiro curto, as vantagens do câmbio favorável, pouco tempo para uma viagem longa e a decisão estava tomada. Uma semana em Buenos Aires, que tal? E, de quebra, a chance de entender, finalmente, de onde saíram esses seres incompreensíveis, que adoram Búzios, mas se reúnem diariamente para reclamar da administração, dos políticos, da economia da cidade. Que, na época das vacas gordas, ficaram conhecidos pelo compulsivo “dáme dos” quando saíam às compras pelas ruas e gostavam de alguma mercadoria. Depois, a situação ficou difícil: a crise econômica dos últimos anos imprimiu um golpe terrível no orgulho nacional, ameaçando o glamour da vida com jeito europeu. Em Búzios, o “dá-me dos” deu lugar ao “vamos compartir”, na hora de dividir com o parceiro um único prato no almoço.&lt;br /&gt;O roteiro era extenso. Restaurantes para comer carnes, iguarias regionais, pratos étnicos, bares tradicionais, bares da moda, museus, casa de cultura, shows de tango, lugares para se dançar, livrarias, bazares tradicionais, mercado de antiguidades, lojas de design, artesanato. Além disso um circuito de arquitetura – projetos contemporâneos, prédios modernos, edifícios históricos. Os táxis baratíssimos garantiam o acesso rápido aos pontos de visitação, através das amplas avenidas, com pavimentação impecável. Nada de engarrafamento, nada de tumulto no trânsito. Confusão, só a de todo dia, na Plaza de Mayo. Mas aí ninguém se espanta, já que essas manifestações, passeatas, discursos, indignações praticamente fazem parte do calendário de eventos da cidade.&lt;br /&gt;Tanto para ver, tanto para ouvir, tanto para caminhar e descobrir que, ao turista que visita Buenos Aires, só resta a terrível aflição de estar perdendo o imperdível ou se conformar em voltar uma e outra e várias outras vezes. Pode-se talvez resumir: uma cidade para se “curiosear”, que é a palavra que eles espertamente inventaram para falar do exercício da curiosidade. Olhos atentos, sim, mas tal percepção também diz respeito ao paladar. Buenos Aires é para ser degustada.&lt;br /&gt;Mario L. Tercco, fazendo alusão ao livro “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, diz o que significa entrar em Buenos Aires e qual a melhor maneira de se fazer isso. Sair de Buenos Aires, no entanto, parece não ser tão fácil. Ou, pelo menos, não o foi para mim.&lt;br /&gt;A passagem da Varig era até mais cara que a de outras companhias aéreas, mas os horários eram mais adequados e a viagem direta, sem escalas – apenas três horas, como o trajeto Rio-Búzios. Lemos as notícias sobre a crise da empresa, o leilão iminente, mas que graça tem a vida sem uma dose de risco?&lt;br /&gt;A dose, porém, foi bem maior do que podíamos esperar. Na ida, o vôo que saía às 20:45h do Rio foi cancelado e tivemos que pegar um que ia para o Uruguai, com escala em São Paulo. Resultado: a chegada, prevista para a meia noite, só aconteceu uma hora e meia depois. A alfândega, a ida de táxi até o hotel e o jantar de estréia na capital portenha virou mesmo um lanchinho no quarto, graças aos biscoitos estrategicamente reservados para eventualidades.&lt;br /&gt;Se o atraso da ida significou contratempo, a volta foi pior.&lt;br /&gt;O vôo, no domingo, estava marcado para as 18:35h. Porém foi cancelado, sem aviso prévio, sendo o próximo previsto para as 2h da manhã. Depois de despacharmos as malas e recebermos um vale-lanche e um vale-jantar para resistirmos até a partida, lá ficamos nós, ao todo 50 candidatos a passageiros, no aeroporto de Ezeiza, no meio do nada, a uns 40 minutos da cidade. Só nos restava procurar a cadeira mais confortável para sentar e esperar. Lá pelas 22h, outra má notícia – o novo vôo também tinha sido cancelado e só sairíamos no de 5 da manhã. Já estávamos quase indo para a Plaza de Mayo para protestar, quando a Varig resolveu nos adotar: “Vamos levar vocês para o Hilton, que é onde costuma ficar a tripulação”. A maior festa, que brasileiro é antes de mais nada um otimista: “Oba! Vamos para o Hilton, a maior mordomia! Mais uma hora e meia de espera – primeiro até o ônibus chegar, depois dentro do ônibus até liberarem as malas de dois passageiros que resolveram pedir as malas de volta. Conversa vai, conversa vem com o motorista, perguntamos: “E onde fica mesmo o hotel?” Na Santa Fé com Callao, foi a resposta. Um passageiro argumentou: “Ué! Mas o Hilton não fica aí!”. E decepcionados, lamentamos as conseqüências de não dominar o idioma alheio: era Wilton e não Hilton! Chegamos às 22 no hotel, e um garçom mal humorado resmungava que não havia ali serviço de jantar, só café da manhã. Anotou nossos pedidos e mais de uma hora depois trouxe os pratos feitos num restaurante das vizinhanças. Exaustos, lá pela meia noite e meia fomos dormir. Duas horas de sono e éramos um bando de zumbis mais uma vez rumo à Ezeiza.&lt;br /&gt;Finalmente o vôo saiu, depois de diversas brigas com as autoridades locais que queriam cobrar novas taxas de embarque de quem havia atravessado a aduana na noite anterior, e que exigiam o código de barras que estavam nos bilhetes que a própria Varig rasgara quando emitira novos boletos para o vôo das 5h.&lt;br /&gt;Já em território brasileiro, no aeroporto de Guarulhos, os problemas continuaram. Se os sem-terra e os sem-teto estão na mídia, nós os sem-avião, continuávamos incógnitos, mas fazendo jus ao cargo: o vôo das 11:30h foi cancelado e o próximo sairia às 13h. Para não perder o hábito, outra fila (a décima da jornada), para trocar os bilhetes.&lt;br /&gt;Alguém lembrou o filme do Spilberg – o Terminal – em que Viktor (Tom Hanks), um visitante do leste europeu em Nova York cuja terra natal está em guerra, acaba virando morador do aeroporto John Kennedy, onde permanece por mais de um ano. A história foi inspirada em um fato real, que, na verdade, ocorreu no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, onde o protagonista teve sua entrada negada por ser iraniano e por estar sem seu certificado de refugiado, que havia sido roubado. De fato, dava para imaginar que íamos ficar para sempre naqueles aeroportos.&lt;br /&gt;Chegamos ao Rio lá pelas 14:30h, quase 24 horas depois de chegarmos inicialmente ao aeroporto de Buenos Aires. Lamentos a parte, por nossa Varig, mais um patrimônio nacional a ir por água abaixo, quase teria valido a pena ir de ônibus. Mais 22 horinhas e uma boa economia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-8860038392410075401?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/8860038392410075401/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=8860038392410075401' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8860038392410075401'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8860038392410075401'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-publicado-no-jornal-o-per-molhado_05.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-7243987661676865925</id><published>2008-01-05T13:43:00.001-08:00</published><updated>2008-01-05T13:43:59.606-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto para o Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios 2006&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;“Desenvolver sem mudar”, o desafio de Búzios&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Por Miriam Danowski&lt;/em&gt; (IAB-Búzios)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saint Tropez, com seus 5 mil habitantes, e com cerca de 1.200 hectares de extensão,  tem um dos metros quadrados mais caros da Europa. E isso decorre, segundo o prefeito Jean Michel Couve e o consultor de urbanismo da Prefeitura de lá, Frédéric Finey, de um consenso, de uma espécie de pacto entre a população e seus governantes, que vem se consolidando cada vez mais, graças a um sistema completamente transparente de gestão pública, além de um forte controle do uso do solo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No encontro realizado no Hotel Pérola, Jean Michel advertiu sobre os potenciais desafios do Turismo:&lt;br /&gt;- “O turismo pode ser a melhor ou a pior das atividades econômicas. Se mal conduzido, pode empobrecer um lugar em 15, 20 anos”.&lt;br /&gt;E alinhou as indagações que devem ser feitas por uma sociedade que queira levar avante um Plano Diretor, como Búzios está pretendendo hoje.&lt;br /&gt;-“É para fazer como todo mundo faz? É para parecer mais bonitos do que somos? É para melhorar a qualidade de vida dos moradores?”&lt;br /&gt;Para ele, as respostas giram em torno de duas opções, que foram as escolhidas pela comunidade de Saint Tropez: “Intercâmbio cultural e melhoria da qualidade de vida”.&lt;br /&gt;Em conversa com o IAB de Búzios, no dia anterior, durante almoço no restaurante Cigalon, ele já havia mencionado a política rígida que adotam em relação à proporção entre a quantidade de casas de veraneio e de casas de morador – 1 para 1. A idéia é evitar o acúmulo de edificações que ficam vazias a maior parte do ano, como acontece com os apartamentos da Praia do Forte em Cabo Frio e como aconteceria com os apart-hotéis que queriam se instalar em Búzios e foram, recentemente, rejeitados por mobilização popular. É claro que ajuda o fato de Jean Michel já estar no comando da cidade há 12 anos seguidos, fora os seis anos de um primeiro mandato, garantindo a continuidade dos projetos. Nessa ocasião, falou ainda da sua preocupação sobre o rumo que Búzios vai dar ao seu desenvolvimento: “A entrada da cidade não me entusiasmou muito. Depois conheci o hotel El Cazar, onde estou hospedado. Linda vista pro mar, os barquinhos. Aí me levaram à praia da Tartaruga, maravilhosa! O centro da cidade, então, é mágico. Mas quando fui a João Fernandes, levei um susto! Tomara que não repitam aqui nossos erros lá na Europa. Costa sul da Espanha, sul de Portugal, Cote DÁzûr, Ilha de Malta, sul da Turquia. Eram todos lugares paradisíacos, que foram estragados”.&lt;br /&gt;As autoridades tropezianas entendem o Turismo como indústria e é assim que fazem a gestão da cidade, de maneira profissional, através de uma entidade de economia mista. É, então, essa sociedade anônima de direito privado, tendo o poder público como o maior participante do Conselho Administrativo e principal capital, que garante o comando da Prefeitura em relação às políticas de Turismo.&lt;br /&gt;Da aproximação de Saint Tropez com Búzios, a delegação espera, basicamente, a possibilidade de intercâmbio de clientes e a multiplicação da imagem dos dois destinos turísticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segredo é não crescer – O presidente da AHB, Antonio Valente, revelou, no debate, ter ficado impressionado com a paixão do prefeito de St Trop e sua equipe por sua cidade, o que seria, acredita, a base do bom trabalho que desenvolvem. E perguntou ao prefeito de Saint Tropez como conseguem manter-se tão pequenos, com uma área quase seis vezes menor que a de Búzios, e uma população que é um quinto da nossa.&lt;br /&gt;Jean Michel Couve atribuiu isso à vontade da população, com um forte sentimento de identidade e de pertinência ao seu território: “Queremos nos manter como somos, sem nos deixar seduzir por motivações passageiras, modismos, falsas atualidades. O tropeziano é agarrado às suas convicções e isso facilita a vida o prefeito”. E aproveitou para sugerir ao povo de Búzios o difícil desafio de “desenvolver sem mudar”.&lt;br /&gt;Armando Ehrenfreund e Antonio Valente, respectivamente representando as associações Comercial e de Hotéis de Búzios, além dos presentes na platéia, fizeram ainda outras questões ao prefeito e ao secretário de Turismo de St Tropez:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Qual é a quantidade de leitos disponíveis na hotelaria?&lt;br /&gt;- Temos em torno de 1.500 leitos e esse número não pode ser ampliado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde moram os que trabalham nos hotéis, nos restaurantes, no setor de comércio e serviços da cidade?&lt;br /&gt;- Em torno de St Tropez, desenvolvemos planos de moradia para esse pessoal. Mas não vendemos as casas ou os apartamentos populares. Para que não haja especulação imobiliária a partir desses investimentos subsidiados pelo Estado. Preferimos o aluguel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês têm hotéis de cadeia?&lt;br /&gt;- Não. Somente hotéis dos roteiros de Charme, a maioria de 20 a 40 apartamentos. Mesmo os nossos dois hotéis com 100 apartamentos, não são de bandeira, de redes, de cadeias. Aliás, a nossa bandeira é que Saint Tropez. Não temos grandes hotéis e não temos redes como Mc Donalds.. Por ter mantido essa identidade é que garantimos nossa clientela, de pai para filho, através de gerações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Existe a possibilidade de construir um condomínio de casas em Saint Tropez?&lt;br /&gt;- Não. Não existe esta possibilidade. Não queremos uma cidade de veraneio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como fazem para preservar o meio ambiente?&lt;br /&gt;- Temos uma boa legislação que protege a parte costeira, numa faixa de 150m, além do Patrimônio Histórico e do Patrimônio Ambiental. Mas isso só é possível graças à vontade do Estado francês e das autoridades eleitas. Escolhemos lá dois ou três lugares que poderão ter algum desenvolvimento, desde que isso não mude o aspecto geral da cidade, nem as atividades que correspondem às raízes históricas locais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-7243987661676865925?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/7243987661676865925/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=7243987661676865925' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7243987661676865925'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7243987661676865925'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-para-o-jornal-o-per-molhado-bzios_3809.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-7629760092178835300</id><published>2008-01-05T13:39:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T13:41:27.099-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto publicado no Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios 2007&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Picadinho de inimigo à moda do chefe&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Por Barão de Curupira (*)&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Esta receita passou de pai para filho desde o século II, de que datam os primeiras ocorrências dos goitacazes na região dos Lagos e no Espírito Santo. Os descendentes dessa tribo, extinta por volta do século XVII, ainda habitam entre nós. Aliás, estão inclusive sendo documentados por este jornal, para posterior inclusão no documentário do Marcelo, como mais uma nacionalidade da nossa Praia de Babel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ingredientes&lt;br /&gt;* 1 (um) inimigo bem tenrinho&lt;br /&gt;A escolha do inimigo (tapouyest, na lingua do seu povo) é fundamental para o sucesso do prato. É claro que você tem que ser fiel ao seu DNA goytacaz e escolher um inimigo corajoso, já que esta qualidade vai passar pra você, como sempre acreditaram seus ancestrais. Mas não custa unir o útil ao agradável e preferir um inimigo que vá também agradar seu paladar. Muito “malhado” não serve, que vai custar muito a cozinhar. Muito balofo também não – prejudica seu colesterol.&lt;br /&gt;* 1 (um) saco de mandioca descascada&lt;br /&gt;Você pode tentar convencer seu inimigo a descascar a mandioca pra você, o que não vai ser fácil, já que os inimigos costumam ser gente “du-contra”.&lt;br /&gt;* 1 (um) saco de cebola cortada em rodelas&lt;br /&gt;A cebola convém você mesmo descascar, porque você pode se emocionar vendo seu inimigo chorar e resolver almoçar no “comida a quilo” da esquina, estragando todo o ritual.&lt;br /&gt;* 1 (uma) dentadura de alho – termo utilizado na tradicional culinária goytacaz para designar a quantidade ideal de alho por inimigo, equivalendo ao número de dentes que o sujeito tiver na boca. Hoje em dia, como os dentistas custam caro, essa medida pode ser substituída pelo bom senso, se você tiver algum.&lt;br /&gt;* 20 (vinte) molhos de cheiro verde – tempero muito útil, principalmente se seu inimigo não é muito chegado a um chuveiro.&lt;br /&gt;* 5 (cinco) vidros de azeite extra virgem, sem o vidro&lt;br /&gt;* 10 (dez) vidrinhos de aji no moto – para realçar o sabor do prato e despertar seu apetite. Com ou sem o vidrinho, a seu gosto.&lt;br /&gt;* pimenta, à vontade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Modo de preparar&lt;br /&gt;Pegue um caldeirão bem grande, encha de água, ferva e convide seu inimigo a entrar. Se ele desconfiar de suas intenções (que são péssimas), invente qualquer coisa. Diga que aquilo é um ofurô japonês, por exemplo.&lt;br /&gt;Quando a carne estiver começando a amaciar, tire o sujeito da panela e corte em pedacinhos. Reserve.&lt;br /&gt;Numa outra panela, faça um refogado com o azeite, o alho e a cebola. Junte a mandioca, previamente cozida.&lt;br /&gt;Despeje tudo no caldeirão, acrescente o inimigo picadinho, mexa bem, abaixe o fogo e tampe. Cozinhe por meia hora, adicione o aji no moto, o cheiro verde e sirva em panela de barro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rendimento&lt;br /&gt;Dependendo da fome dos convidados, esta receita dá para até 8 (oito) pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adaptações&lt;br /&gt;Como os tempos mudaram bastante, desde que seus parentes goitacazes habitavam essa região, e não está tão fácil conseguir bons inimigos, você pode fazer uma adaptação desta receita, usando mesmo um amigo (ou uma amiga, conforme sua preferência) como ingrediente. Embora a democracia esteja na moda, o prato é “à moda do chefe”, e como você é o chefe, pode fazer a variação que bem entender.&lt;br /&gt;Pode até preferir interpretar esta tradicional receita no seu sentido “bíblico”. Neste caso, sugerimos que, em vez do caldeirão, você procure um motel. Fica mais confortável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Crítico de gastronomia e guloso incorrigível. Barão, tem passaporte para circular nos ambientes mais refinados. Curupira, porque incorpora, de tempos em tempos, aquela entidade folclórica, brasileiríssima, que só valoriza o que sobrevive a uma boa digestão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-7629760092178835300?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/7629760092178835300/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=7629760092178835300' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7629760092178835300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7629760092178835300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-publicado-no-jornal-o-per-molhado.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-2949275733996667605</id><published>2008-01-05T13:37:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T13:38:44.785-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto para o Jornal O Perú Molhado&lt;br /&gt;Búzios 2003&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Monte Rosa:&lt;br /&gt;“Um pé em Brasília é fundamental”&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Entrevista a Miriam Danowski&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há 13 anos, Ronaldo Monte Rosa, na presidência da Embratur, durante o governo Collor de Mello, instituiu Búzios como Área de Interesse Turístico. Significava um controle rígido do uso e ocupação do solo e medidas drásticas para preservar os bens naturais e o estilo singular de nossa arquitetura. O governo federal entendeu, na época, que a importância de Búzios como destino turístico, extrapolava o âmbito municipal. Interessava ao país como um todo preservá-la e valorizá-la. Como a intenção não se realizou, para recuperar o tempo perdido, ele recomenda mais agressividade na política municipal de Turismo, a começar pela criação de uma Casa de Búzios em Brasília&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ano era 1991 e Búzios, ainda 3º distrito de Cabo Frio, era governada pelo prefeito Ivo Saldanha, que se negou a assinar o convênio para a implementação dessa legislação. Assim, nada aconteceu.&lt;br /&gt;Na verdade, aquilo representaria uma emancipação branca, “federalizando” as regras municipais de uso do solo que Búzios havia conseguido introduzir na Lei de Uso do Solo de Cabo Frio, através do vereador Octavio Raja Gabaglia, ainda na gestão do prefeito Alair Correia.&lt;br /&gt;Em passeio por Búzios, no último fim de semana, hospedado pelo empresário Sérgio Murad, Ronaldo, que mora em Brasília, lamenta o fracasso da tentativa: “Aquela legislação poderia ter servido como um freio a certas ambições desmedidas de empresários que, visando o lucro esquecem do aspecto da preservação do patrimônio histórico, cultural ou ambiental. Esquecem que é isso que atrai o turista e faz com que ele venha gastar aqui seu belo dinheiro, gerando empregos, impostos, etc. A gente vê hoje uma Rua das Pedras descaracterizada, com edificações que às vezes lembram a Oscar Freire em São Paulo, às vezes o centro de Campos de Jordão, às vezes Miami”.&lt;br /&gt;Monte Rosa nasceu nas Alagoas, “no município progressista de São Luiz do Quitunde, onde o Banco do Brasil era a única agência bancária”: “Uma vez, eu ia passando de carro, viajando para Pernambuco. Quando cheguei em São Luiz do Quitunde, me deu aquela emoção e liguei pra um amigo em Brasília. Olha, tô passando em São Luiz do Quitunde, e passei! (Risos) Meu pai era gaúcho, engenheiro agrônomo, e foi tocar um projeto de agronomia lá no Engenho Barreiros, onde conheceu minha mãe, alagoana legítima. E foi nesse engenho que eu nasci, de parteira, à moda antiga”.&lt;br /&gt;Como não podia deixar de ser, Monte Rosa esteve entre os convidados para o casamento do filho do ex-presidente Fernando Collor, no último sábado, em Araras, Petrópolis, assim como Eduardo Modiano, Gilberto Gil e outras figuras do empresariado e da classe política nacional. À respeito da cassação política sofrido por seu antigo chefe, diz que pode demorar, mas a verdade vai se restabelecer: “Independentemente de erros que o governo Collor tenha cometido, eu nunca aceitei que ele tivesse sofrido um golpe político. A corrupção que pode ter havido no governo dele foi infinitamente menor do que a que houve no governo Fernando Henrique e que a de hoje. O gancho para tirar o Collor do governo foi o PC Farias, que não era ministro, nem presidente de nenhuma instituição governamental. Mas o que tirou o Collor do poder foi ter contrariado interesses que estavam enraizados aí há séculos. De grandes corporações como a Fiesp. E da classe política que não estava sendo atendida nas suas barganhas. O cara terminou com o cheque ao portador, o título ao portador – essas medidas que permitem fazer um rastreamento -, e ainda foi taxado como corrupto”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arquitetura típica – Ronaldo afirma que ninguém pode ser contra o crescimento econômico, o progresso, desde que aconteça de uma forma ordenada. E dá o exemplo da praia do Forte, em Salvador, onde há uma rua de comércio com os restaurantes e butiques, que lembra a nossa Rua das Pedras. No entanto, as lojas de griffes importantes como Richards e Lenny ocupam as casinhas de pescador. Eles tomam esses cuidados: de não deixar que a arquitetura típica do lugar seja descaracterizada.&lt;br /&gt;É também o caso de Veneza, onde, para se ter uma idéia, o Mac Donald está discretamente instalado numa construção antiga, adaptado à arquitetura da cidade, sem letreiros escandalosos.&lt;br /&gt;Mesmo o turismo ecológico, que é um dos mais novos segmentos do turismo já está, segundo ele, atento para não permitir que esse fluxo de visitantes transforme a cultura local. - “A intenção deve ser de manter em sua atividade as pessoas que estão fazendo uma renda, tecendo uma rede, fazendo um artesanato típico qualquer, que é isso que o turista quer ver. É preciso que se preserve esses hábitos culturais, sob pena de se acabar com o glamour, com o charme do lugar” - explica.&lt;br /&gt;A responsabilidade de preservar o que ainda não está destruído está nas mãos, afirma Monte Rosa, do futuro Prefeito &amp;shy;- a Rua das Pedras, as praias, o ar bucólico de nossa paisagem. Ele fala também de sua perplexidade diante do que aconteceu com João Fernandes: “O que é aquele troço vertical branco? O hotel dos italianos? É um absurdo terem permitido construir aquilo. Aliás, toda aquela ocupação, uma favela-chique” – diz ele, parodiando o Nani Mancini. Fala, igualmente, de sua aflição pelo destino da Ferradura, “que está indo pelo mesmo caminho”.&lt;br /&gt;Não é pouco o que se espera do novo governo. E Ronaldo, também, não economiza em expectativas: “Tem que segurar esse tipo de crescimento deosordenado e de mau gosto. Incentivar o empresariado daqui a resgatar o que havia de belo no passado. Coisas pequenas, mas que fazem uma diferença, como os letreiros das lojas, que devem ser padronizados, ter algum charme. Não pode ser o que está aí, cada um mais berrante, querendo chamar mais atenção”. Lembra que Búzios chegou a ter uma cultura dessas placas de madeira, feitas por artistas locais.&lt;br /&gt;Outra coisa impensável para ele é o centro da cidade sem tubulação elétrica embutida, uma enorme poluição visual justo no lugar mais visitado pelos turistas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quadripé essencial - A infraestrutura pública (saneamento, segurança, etc), a infraestrutura privada (hotéis, restaurantes, comércio), o agenciamento turístico e a divulgação (as agências, os operadores, as casas de câmbio), que complementam esse atendimento ao turista, e finalmente os recursos humanos (garçons, camareiras, atendentes). Esses são, segundo Ronaldo Monte Rosa, os quatro pés sobre os quais se apóia o sucesso de uma política de Turismo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-2949275733996667605?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/2949275733996667605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=2949275733996667605' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2949275733996667605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2949275733996667605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-para-o-jornal-o-per-molhado-bzios_7588.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-4390367840713478785</id><published>2008-01-05T13:21:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T13:28:48.301-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;Texto para o Jornal O Perú Molhado&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;Búzios 2003&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Quando a alta gastronomia&lt;br /&gt;põe os pés na areia&lt;br /&gt;e vai ao supermercado&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;As cozinhas do Cigalon, do Sawasdee, da Pousada Casas Brancas e do Parvati foram invadidas no último fim de semana por uma pequena legião de talentosos chefs trazidos por Rosário Scarpato, da TV Il Gambero Rosso – cuja tradução literal seria “o camarão vermelho” –, para gravar um programa de gastronomia, que vai ao ar pela RaiSat, no mês de julho.&lt;br /&gt;Will Goodfarb, de Nova Iorque, Martin Lippo, de Barcelona e Donato de Santis, de Buenos Aires, fazem uma culinária experimental que, além de alimentar os corpos e agradar o paladar, o olfato e a visão, pretendem fazer pensar.&lt;br /&gt;Tudo começou com o encontro entre Miriam Cutz, responsável pela área de Relações Internacionais da Secretaria de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, e o produtor italiano Rosário Scarpato, há dois anos, quando ela o levou para conhecer os melhores restaurantes da região de Petrópolis, resultando numa generosa matéria na revista Il Gambero Rosso, especializada em gastronomia e vinhos. No ano passado, o Estado do Rio mereceu outra cobertura especial, desta vez incluindo uma gravação de 45 minutos para a TV. Começaram pelo 1º Congresso Pan Americano de Sommeliers, depois o “Serra Vitis” – evento anual de gastronomia e vinhos, na região de Araras e Correias, em Petrópolis – e também gravaram um módulo que se intitulou a “Baía do Sabor”, tematizando Angra dos Reis e Paraty.&lt;br /&gt;Rosário, que mora na Austrália, participa das produções do grupo Il Gambero Rosso como editor, diretor, apresentador e redator.&lt;br /&gt;Miriam, há pelo menos cinco anos, se ocupa da divulgação turística no exterior das diversas regiões do Estado do Rio, ofuscadas pela atratividade e pelo excelente marketing que tem sido feito pela capital. O fato de o município e do Estado terem o mesmo nome, costuma também confundir, além dos turistas estrangeiros, os próprios brasileiros viajantes. Ela reconhece: “Esse trabalho tem sido diretamente incentivado pelo próprio secretário de Estado de Turismo, Sérgio Ricardo de Almeida, com quem formulamos como estratégias para interessar a mídia internacional, temas, ‘ganchos’, não só turísticos”.&lt;br /&gt;Rosário queria fazer um programa-piloto, primeiro de uma série, levando chefs internacionais para cozinhar com cozinheiros locais em regiões com potencialidade ainda não consolidada como destino gastronômico. Ele faz, entretanto, uma ressalva: “A intenção é trocar as experiências e não colonizar”.&lt;br /&gt;Essa convergência de interesses facilitou tudo e o que era só sonho, virou realidade. Miriam sugeriu a Rosário as fazendas do Vale do Café, produto turístico fantástico, embora ainda pouco explorado. Ofereceu também Búzios, por achar que se adequava aos objetivos do programa. Ficaram quase um ano conversando e resolveram convidar quatro chefs de cozinha, de lugares diferentes do mundo. Outra idéia de Miriam também foi aceita – a de incluir um chef local, o que facilitaria a integração das culturas. Escolheram Sonia Persiani, do Cigalon.&lt;br /&gt;Gravaram primeiro um programa no Vale do Paraíba, sobre a história e a cultura gerada em torno do ciclo do café no Estado, com receitas da época do Império, as maneiras de produzir e preparar o café, os chás imperiais, etc. E, depois, vieram para Búzios, onde cada cozinheiro fez a apresentação de seu cardápio em um restaurante diferente. Will Goodfarb cozinhou no Sawasdee, Martin Lippo, nas Casas Brancas e Donato de Santis, no Parvati. Sonia, cujo restaurante está de mudança para um novo endereço, na Pousada do Sol, utilizou as instalações da cozinha do Café Concerto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Uma gastronomia extra-territorial&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Will, que atua principalmente entre o Maine e a Filadélfia, tem especialidade em patisserie, tendo sido responsável por esse setor no conhecido Morimoto. Trabalhou, também, por cinco anos, num dos restaurantes mais famosos do mundo, El Bulli, de Férran Adriá. Foi fundador do movimento Akwa, que discute e propõe direções para o futuro da cozinha do planeta. E, agora, está para abrir um restaurante em Nova Iorque, no Washington Park, que vai se chamar “Cru”, com um conceito novo, se desenvolvendo ao redor de uma cave.&lt;br /&gt;Martin, argentino, é um dos líderes, como Will, do movimento internacional dos “cozinheiros viajantes”, ou da “cozinha de viagem”. Ele explica: “A cozinha de viagem pressupõe vários desafios. Um deles é chegar a um lugar desconhecido, não conhecendo as condições, as técnicas disponíveis, as tradições, quase nada. E ter que, rapidamente, preparar o menu para o mesmo dia, uma coisa que nunca se fez antes, que não se sabe se vai dar certo. Um grau de risco sempre existe, mas nesse caso, é bem maior”. E compara os cozinheiros viajantes a um conjunto de músicos, que se reúne numa noite para improvisar, para tocar o que resolvem no momento: “Somos todos cozinheiros, cozinhamos bem, fazemos comidas saborosas e ricas. Mas sempre podemos melhorar. Fazemos um prato hoje, amanhã ele pode sair melhor e, assim, vamos apurando o resultado, às vezes durante um mês inteiro, até podermos dizer que aquela é a nossa obra final. Como um artista, um arquiteto. Mas, no caso da cozinha de viagem, é diferente. Nosso trabalho depende muito da informação, do grau de percepção para entender o contexto local. Temos que buscar as fontes, os livros, ir ao mercado, conversar, andar na rua, observar, perguntar. Além disso, há o problema do idioma. Venho ao Brasil, e consigo me virar. Mas se vou à Alemanha, à Tailândia, a coisa começa a ficar mais difícil”. No entanto, ressalta que esse tipo de trabalho proporciona muito intercâmbio, já que se alimenta da globalização das culturas: “A cozinha continua sendo a dos restaurantes, mas há cozinheiros como eu, na maioria jovens, que começam a trabalhar de maneira itinerante, um pouco como artistas, buscando sua expressão”.&lt;br /&gt;- Nada tem a ver, porém - diz Martin -, a “cozinha de viagem” com a “cozinha internacional”, concebida pelas redes hoteleiras a partir de 1890, dirigida especialmente aos seus clientes, os turistas.&lt;br /&gt;Continua: “Nós temos um grupo, o Del Fuego, que é como uma banda de rock que sai viajando pelo mundo. Aliás, estivemos aqui em Búzios há três anos atrás. Nos intervalos das viagens, cada um cuida da sua própria vida, de sua família, seus negócios”.&lt;br /&gt;O italiano De Santis, que mora e trabalha em Buenos Aires, onde dirige o restaurante Verace e protagoniza um popular programa de TV – o El Gourmet -, foi o autor do último cardápio, apresentado, domingo, no Parvati. Seu currículo profissional inclui outros ítens invejáveis como ter sido chefe de cozinha do estilista Gianni Versace e no restaurante Valentino, na Califórnia.&lt;br /&gt;Sonia, argentina-buziana, chef do Cigalon, restaurante vinculado à escola francesa, e também uma experimentadora, foi a conexão dos cozinheiros internacionais com Búzios. Na verdade, Rosário reconhece que o programa nunca poderia ter tido o bom resultado que teve, sem sua ajuda, em todas as etapas, da concepção do evento até seus mínimos detalhes de produção: “Ela não só representou a cozinha local, mas foi quem nos ajudou a ler a cultura de Búzios. Nos levou à horta do Carlinhos na Rasa, ao pescadores para escolhermos o pescado. Sua intermediação foi fundamental”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Contrariando as expectativas&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Martin, Will e Donato têm em comum o fato de não quererem fazer só comida. Estão interessados, antes de mais nada, na experimentação. Rosário exemplifica: “Will, outro dia aqui, serviu uma ceia ao revés: começou com uma sobremesa – uma trufa de cacau com azeite de dendê, rodeada por uma farofa falsa, feita com leite em pó, maracujá em pó, tudo de supermercado, feita com a maior delicadeza. E essa não é bem a expectativa de quem vai a um restaurante comer uma massa”.&lt;br /&gt;Martin, também, usou a brasileiríssima caipirinha, dentro de uma “pipeta” (conta-gotas), que podia ser espirrada sobre uma lagosta. Diz Rosário: “Essa ‘pipeta’ é usada há pelo menos cinco anos por diversos chefs, mas sempre se pode criar uma situação nova”.&lt;br /&gt;A subversão dos chefs não se limita, porém, ao emprego de tecnologias. Rosário determinou que os cozinheiros usassem os ingredientes locais ou pedaços da história e da cultura do lugar, além do vínculo criado com os restaurantes onde cozinharam. Entre esses ingredientes, eles identificaram a pimenta rosa (a aroeira), o pescado, muita fruta tropical e ... a cultura de ir às compras no supermercado!&lt;br /&gt;Rosário justifica: “É a prova de que se pode fazer alta gastronomia, receitas sofisticadas, com produtos industrializados, tudo que está ao acesso das pessoas comuns. Martin, por exemplo, estava caminhando na praia e encontrou um pedaço de madeira e fez, ele mesmo, uma peça para servir os espetos de camarão. Esse é o espírito”.&lt;br /&gt;Só que a estranheza, segundo ele, vem do contraste entre esses produtos simples e populares e ingredientes especiais como a trufa, por exemplo. E confessa: “Não posso, na verdade, dizer que a trufa é um produto simples”. (Risos…)&lt;br /&gt;Os próximos programas para a TV não pretendem sempre girar em torno de cozinheiros-celebridades, cozinheiros-star: “Vamos fazer também com gente normal. Não se pode estar longe do povo. As pessoas têm que entender o que queremos expressar. O ideal seria que, em um evento como este, trouxéssemos uma televisão local”.&lt;br /&gt;O programa gravado em Búzios terá 20 minutos de duração. Rodrigo e Federico Garcia, de Mendoza, são os responsáveis pela câmera e pela fotografia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-4390367840713478785?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/4390367840713478785/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=4390367840713478785' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4390367840713478785'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4390367840713478785'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-para-o-jornal-o-per-molhado-bzios_4431.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-2140008727530195763</id><published>2008-01-05T13:18:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T13:20:18.255-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto para o Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios 2006&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Na cama: um filme de ação&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;Por Miriam Danowski&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece insólito, mas o filme do jovem chileno Matías Bize, rodado em 1995 e exibido no XII Festival de Cinema de Búzios, consegue ser cinema de ação, ainda que rodado, integralmente, dentro de um quarto de motel. E não falo só da tórrida transa do jovem casal, que a fotografia de Gabriel Diaz e Cristián Castro, primeiro, transforma em pintura abstrata e, depois, decompõe em percepção cubista.&lt;br /&gt;Uma troca de olhares numa festa, meia dúzia de palavras, clima de sedução. Nada disso vê o espectador, que só fica sabendo que os dois acabam de se conhecer.&lt;br /&gt;Enquanto não há passado nem futuro, o contato físico dispensa palavras. Intimidade total na completa presença. Não há ali ninguém além de Daniela e Bruno. Depois, tornam a fazer sexo, conversam, fumam, fazem sexo de novo, falam e fazem silêncio.&lt;br /&gt;Eles não sabem nem o nome do outro. Ela pede pra ele adivinhar. No jogo de tentativas, desfilam todas as mulheres da vida dele – as que conheceu e as que imaginou. E ela não pode decidir na pele de qual gostaria de estar.&lt;br /&gt;- E, agora, o que fazemos? – ele pergunta. São quatro da manhã. Ele liga a TV. O filme de sacanagem não desperta nenhum interesse – redundante. Daniela sintetiza: “Muito cedo para partir, muito tarde para chegar”.&lt;br /&gt;Onde ela não pode chegar a esta hora? – ele se pergunta, mas não pode perguntar.&lt;br /&gt;Primeira ausência: um, depois o outro, vão ao banheiro. Quando ele vai, ela abre sua carteira e descobre fotos de crianças – provavelmente os filhos. Depois, na vez dela, é ele que vasculha sua bolsa: convites de casamento – o dela, daí a poucos dias. Mentira ou versão?&lt;br /&gt;Primeira invasão: o celular que toca. Ela diz que é a amiga, em quem o marido bate. Isso explica a ligação tão fora de hora. Um pouco depois, toca o dele: é a ex-mulher. Quer saber onde está.&lt;br /&gt;- Com os amigos do mestrado - ele engana.&lt;br /&gt;Primeira briga: no calor da interlocução amorosa, ele chama pela ex. Quer consertar, mas erra o nome da amante. E ela se debate num ciúme que não tem o direito de estar ali. Mas está e produz o primeiro ressentimento: como você se sentiria se eu fizesse isso?&lt;br /&gt;O glamour do encontro estremece, se ofendem, se recriminam. Confessam a insegurança que se instala, passado o êxtase do contato físico.&lt;br /&gt;- Como eu vou saber se você não é uma dessas malucas, que vai ficar me ligando todo os dias?&lt;br /&gt;- E como eu vou saber que você não é um desses tarados, que vai me sufocar daqui a pouco, com uma meia de seda?&lt;br /&gt;Provavelmente, não vão se ver nunca mais. Mas é para essa desconhecida que ele conta um segredo que nunca revelara a ninguém. Sobre o dia em que se calou ao ver o irmão que fugira. E sobre a culpa que carregava depois do sumiço do menino para sempre. E é para esse desconhecido que ela também conta que o homem com quem vai casar bateu nela diversas vezes – que o drama da amiga era, na verdade, o seu.&lt;br /&gt;Comovente no filme a linha fina sobre a qual se equilibram os dois amantes. Viver o momento como personagem de si próprio ou se entregar, deixar-se conhecer e, nessa medida, conhecer o outro? Um dilema que vai se complicando, enquanto a vida lá de fora, pouco a pouco, invade o quarto, e a cama. Não estão mais a sós. Ao seu lado se deitam todas as facetas da dimensão humana, que Matias Bize expressa no texto impecável – os defeitos, as idiossincrasias, os desejos e os medos de todos nós. Mais ação que isso?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-2140008727530195763?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/2140008727530195763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=2140008727530195763' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2140008727530195763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2140008727530195763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-para-o-jornal-o-per-molhado-bzios_1448.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-8649333298962526626</id><published>2008-01-05T13:16:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T13:17:20.123-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto para o Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios, 2003&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A arte nada ingênua de Ivy Maria&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por Miriam Danowski&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, há 30 anos, Ivy desembarcou de um navio no porto de Santos, vinda da Áustria com seu marido Nikolaus, ficou deslumbrada com a multidão de gente, cada um ocupado com uma atividade diferente, cada um vestido de um jeito. Naquele momento sentiu, definitivamente, o pulso tropical. E, mais do que qualquer outra sensação, a cor. A profusão de cores, da qual nunca se afastaria em suas pinturas.&lt;br /&gt;Ivy Maria Jancso é de descendência húngara. Aliás, a sensibilidade para as artes parece rondar a família – ela é prima do reputadíssimo cineasta Miklos Jancso.&lt;br /&gt;Mas ela, que morara na França e diversos países da Europa, além da Áustria, acabaria, em São Paulo, habitando, não a capital, mas um lugar perdido, num sítio, comprado de um japonês, em Suzano, que hoje faz parte da Grande São Paulo, mas que, naquele tempo era completamente isolado. É que, depois de problemas no parto de um de seus quatro filhos – “Os médicos só queriam fazer cesariana!” -, desistiu do arremedo de civilização da cidade grande e confiou mais na saudável vida do campo, na boa comida, nos bons ares.&lt;br /&gt;De início, os vizinhos estranharam aquela gente de roupas finas, de hábitos sofisticados, mas que, depois se aproximaram, passando a tratá-los como amigos. Ela conta que plantou ali muitas batatas e que, os camponeses da região, com o tempo, os imitaram, fazendo que essa cultura se espalhasse e virasse tradição.&lt;br /&gt;Naquela época, Ivy, que, na Áustria, ensinava História da Arte e trabalhava com desenho de moda, não pintou muito, já que estava completamente envolvida com a criação de seus filhos. “Eram anos do governo Geisel – diz ela - e lembro que ficávamos impressionados com o séqüito de empregados de que podíamos dispor”. Na Europa, além de cara, esse tipo de mão de obra, doméstica, era raríssima – como ainda é.&lt;br /&gt;Hoje, habitando uma casa muito tranqüila, no Village dos Ossos, com uma vista repousante sobre o mar de Búzios, ela revive um pouco aquele tempo. E cantarola uma velha modinha carioca, que fala de lugares perdidos: “Moro onde não mora ninguém, onde não vive ninguém. É lá onde moro, onde eu me sinto bem”.&lt;br /&gt;Entre o sítio paulista e a calma de sua vida atual, Ivy viveu, porém, um período de vida social intensa, até porque os negócios de seu ex-marido, que era presidente de uma multi-nacional, pediam isso.&lt;br /&gt;E esse movimento, as pessoas, as cores, impressões que a marcaram, desde que botou, pela primeira vez, os pés no Brasil, estão capturadas na suas telas. À primeira vista, um observador desatento poderia considerar sua pintura primitiva, ingênua. Mas há ali bem mais do que isso – uma inteligência, um humor delicado, uma inquietação. Ora nos remete a Matisse, ora às pinceladas dos fauvistas mas, sobretudo à uma linguagem muito pessoal, autêntica.&lt;br /&gt;Em Búzios, Ivy se sente à vontade – “É o meu lugar”. Mas confessa que não escapou da força que a paisagem aqui exerce sobre os artistas. - “Eu não era tão figurativa, não sou realmente uma primitiva, mas alguma coisa acontece aqui que me faz querer pintar assim”.&lt;br /&gt;Ela não parece ser, no entanto, com seu jeito meio sério, um pouco à la Jeanne Moreau, pessoa que tenha medo de experimentar a vertigem, bem conhecida dos artistas, a cada começo, a cada novo trabalho. E escapa, com sabedoria, desse canto da sereia, que seduz grande parte dos artistas de Búzios. Não é por menos que descobrimos, surfando, numa dessas pinturas, o próprio São Francisco, em sua batina e suas sandálias. E, numa outra, um vaso, onde não há flores, mas peixes.&lt;br /&gt;A recorrente ilha Feia, mulheres vestidas como européias em cenários tropicais. Por toda a casa, paredes repletas de suas telas e de telhas, sobre as quais ela também pinta. E há, também, um livro, autobiográfico, que ela está escrevendo, devagar, memórias de viajante.&lt;br /&gt;A poucos dias de uma exposição de seus trabalhos no Espaço Cultural dos Correios, no Rio, onde ela vai mostrar, de 10 de março a 10 de abril, cerca de 40 pinturas, Ivy pensa alto: “Pintar é tão solitário...”, enquanto tenta fugir da máquina fotográfica, com que tentamos fazer uma foto dela para esta matéria.&lt;br /&gt;É solitário pintar, é solitário viver, mas não há escolha – bem sabe Ivy – para quem precisa pintar para respirar. Mesmo porque, como diz seu filho Stephan: “Ela não pinta para os outros, pinta para ela mesma”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-8649333298962526626?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/8649333298962526626/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=8649333298962526626' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8649333298962526626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8649333298962526626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-para-o-jornal-o-per-molhado-bzios_05.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-8723835730084680170</id><published>2008-01-05T13:10:00.000-08:00</published><updated>2008-01-05T13:14:22.289-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Texto para o Jornal O Perú Molhado&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ff9966;"&gt;&lt;em&gt;Búzios, 2002&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Assumpção: Búzios como ela era&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Entrevista a Marcelo Lartigue&lt;br /&gt;Texto final Miriam Danowski&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos 84 anos, cheio de casos para contar, Assumpção é testemunha viva da história de Búzios a partir da segunda metade do século XX, já que, como funcionário da Cia Odeon e secretário particular, primeiro de Octávio Reis e depois de seu filho Luis Reis, cuidou diretamente dos negócios da empresa na península. Hoje, mais ativo do que nunca, esse conterrâneo de Garrincha – ele nasceu em Pau Grande, Magé, Estado do Rio - continua na lida, agora, à frente da administração do Condomínio Atlântico, na Ferradura. Com o grande craque da bola, Assumpção tem em comum a habilidade de driblar as dificuldades, em parte graças ao fino humor, sempre de prontidão para flagrar situações curiosas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Gomes Assumpção chegou em Búzios no ano de 1951, quando Luis Reis estava construindo a casa da Azeda, em terras que havia comprado de Cassiano Rodrigues de Carvalho, cinco anos antes, quando aqui chegou pelas mãos do avô Honnold. Ele lembra bem: “O Cassiano era o pai do Israel, do Isaías. Os filhos dele estão por aí ainda hoje. Depois, levamos 11 anos para conseguir o aforamento da Marinha, uma epopéia. O encarregado de obra havia sido o Nério, que esteve ali até recentemente, quando o Aloísio comprou a propriedade”.&lt;br /&gt;O projeto foi do próprio Luis que, segundo Assumpção, era muito “atilado”. Primeiro ele construiu a casa na Azeda, que era uma praia quase deserta, mas depois começou a ficar muito “badalada” e ele quis construir outra, na Ponta da Matadeira, lá por volta de 1977. O terreno chegou a ser preparado, mas o sonho de Luis não pode ser realizado. “É um platô lindo, acho que a área mais valiosa que tem em Búzios. Parece o convés de um navio”. Naquela época, não existia ainda a comunicação da Azeda com a Praia dos Ossos. Assumpção conta que só havia o primeiro caminho feito pelo então caseiro, o Genaro, sozinho.&lt;br /&gt;O amor de Luis Reis pela casa, pela Azeda, era tanto, que ele quis levar aquela paisagem para o Rio de Janeiro, onde morava: “Ele havia comprado um apartamento em construção na Avenida Atlântica, por volta de 1968. Era uma cobertura, três andares, com piscina e tudo, que está agora com os Benchimol. Aí o Luis chamou o Bruno Karl Picolin, um arquiteto alemão, o idealizador do condomínio da Ferradura. E pediu para que ele reproduzisse a vista da Azeda no segundo andar. Lá o mar ficava mais embaixo, mas ficou igualzinho mesmo, que atividade do profissional!".&lt;br /&gt;Antes de assumir seu cargo na Cia Odeon, Assumpção trabalhou na Cia de Estrada de Ferro de São Jerônimo, fundada por Eugênio Honnold, avô de Luis, uma sociedade anônima, com muitos acionistas. Ficou sabendo do emprego através de um anúncio no Correio da Manhã, que dizia: “Precisa-se de correspondente”. Então, o jovem Assumpção – tinha 30 anos redondos -, cujo futuro previsível seria o de fazer carreira na América Fabril, que empregava quase toda a população de Pau Grande, não podia pensar em oportunidade melhor, a começar pelo salário sedutor – hoje seriam uns 2.500 reais.&lt;br /&gt;Além do mais, ele, apesar de se considerar um “ilustre analfabeto” – não dispensa o “ilustre” – era chegado às letras. Desde o tempo de colégio, estava sempre escrevendo e desenhando caricaturas com bico de pena, em um jornalzinho chamado “Folha de Couve”. O único exemplar era disputadíssimo, quando saíam as edições, semanalmente. Depois, abriu seu próprio jornal, com um cunhado do prefeito de Magé, “O Progressista”. E ainda uma revista em Petrópolis. Por isso, achou que aquele cargo “lhe cairia como uma luva”. Mandou o currículo e foi escolhido.&lt;br /&gt;A empresa, que fazia exploração e transportava minérios, inclusive aqueles que eram estratégicos em tempos de guerra, ocupava no Rio todo o 11º andar do edifício Odeon, na Cinelândia. Mas a sede era em Porto Alegre, onde eram donos da Companhia de Eletricidade e Luz e dos bondes, além da Companhia de Navegação dedicada ao transporte de carvão. Tinha, segundo Assumpção, um capital de 100 milhões: “Não me lembro se de cruzeiros ou de cruzados. Mas o pai do Luis, o Octávio Reis, casado com a filha do Eugênio Honnold, também dono do Banco Português do Brasil, era o cabeça. Quando eu entrei naquela sala, fiquei impressionado como era luxuosa. A vista para o mar, os pássaros aquáticos - a Baía de Guanabara ia até ali na ocasião”.&lt;br /&gt;E lembra bem o seu espanto com o que lhe disse o “Seu Octávio”: “Olha, você vai trabalhar aqui. E aqui, tudo se faz muito devagar. Nada de correr”. Lembra, também, que, no Natal, respondia a mais de 300 mensagens e de ter ficado sensibilizado pela gentileza do patrão que colocava sempre o nome da mulher, Niná, antes do dele, nessas correspondências. Resume: “O Octavio Reis era muito generoso. Sabia cativar, dava valor à qualidade do serviço”.&lt;br /&gt;Com o velho Honnold, Assumpção conviveu pouco, já que meses depois ele faleceu. Sua mulher, Jeannne, ficou como diretora da Odeon por muito tempo. Depois ela morreu e ficou em seu lugar a mãe do Edgard Rocha Miranda, a Luíza Honnold da Rocha Miranda. Ela, junto com o Luis Reis compunham a administração da Cia, com a assessoria de Mario Sampaio Ferraz, que ainda está na diretoria, ao lado do Octavio Rocha Miranda. Ao contrário da Cia Estrada de Ferro de São Jerônimo, a Odeon era da família. Assim, quando morreu seu pai, Luis Reis, que era diretor-presidente dessa última, chamou Assumpção para trabalhar com ele.&lt;br /&gt;Na Odeon, fazia as atas, doações para a Igreja - todos os negócios da Cia em Búzios passaram pela sua mão: “Quando começaram a me mandar para Cabo Frio e viram que eu tinha jogo de cintura para lidar com o prefeito, me deram todo o apoio. E eu consegui o inimaginável em administração pública, porque eu tinha uma chave de ouro na mão. Quando eu chegava de viagem de Cabo Frio, muitas vezes vinha com uma despesa de almoço que não tinha mais tamanho. Mas sabe por que? Porque convidava o secretário do prefeito para almoçar. Aí aparecia lá o delegado, e mais gente. Eu pensava que eles iam estranhar, mas adoravam aquilo: ‘Muito bem Assunção, assim que nós queremos’. Eu tinha tudo, inclusive motorista, à minha disposição, dirigindo um Chevrolet 51”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um caso de amor e de negócios - Mas a história de Búzios, segundo Assumpção, está intimamente ligada à grande paixão de Luis Reis por uma francesa, Dona Giselle Zuco: “O Luis não trabalhava, era rico. E se interessou por ela, que era bonita mesmo. O namoro começou na França. Uma vez ela veio ao Rio, e ele cismou de casar. Então, ele resolveu pedir a mão dela. Mas aí a mãe do Luis e o avô queriam fazer tudo em grande estilo. O Honnold era dono de banco, de fábricas de tecido, de minas de carvão, edifícios no Rio de Janeiro como o Odeon (na Cinelândia), o Brasiluso (na Teófilo Otoni), aquele outro em Copacabana. O pai da moça também era banqueiro na França. Então, foram todos para lá e o avô, patriarca da família, se adiantou para pedir a mão dela em nome do Luis. A resposta do pai da moça foi só essa: ‘Minha filha só casa com um homem que trabalha!’ E foi um mal estar danado. Ela mesmo, Dona Gisela, enquanto me contava isso, ria, ria...e lembrava do susto que tinha tomado”. Então, voltaram todos para o Brasil.&lt;br /&gt;E o velho Honnold teve uma idéia. Sempre que ia para a Inglaterra, onde tinha muitos amigos, levava pencas e mais pencas de banana-maçã. Na Europa, aquilo era raridade. Resolveu, então, fazer em Búzios uma plantação dessas bananas e exportá-las para a Europa. Mandou vir da Guatemala um técnico, um químico da United Fruits. Ele fez o reconhecimento do lugar, examinou tudo e encontrou no outro lado das Emerências – José Gonçalves - e em Saco Fora as condições ideais de solo. As terras já eram mesmo da Odeon e tudo estava tudo certo quanto à plantação. Aí faltava a exportação. E ele simplesmente montou uma empresa de navegação costeira. Explica: “Tinha três navios, um rebocador, e construiu aqui aquele cais. Eu tenho a planta do cais, de metro a metro”.&lt;br /&gt;Tomadas essas providências, foram à Junta Comercial e registraram: diretor-presidente - Luis Honnold Reis. De volta à França, deu tudo certo, e o velho Zucco liberou a mão de filha para o casório. Isso foi em 1932.&lt;br /&gt;A empresa de navegação estimulou a produção de carvão, farinha de mandioca, de hortigranjeiros, de tudo. De Búzios, o carregamento ia pro Rio e de lá se faziam as conexões. Mas teve um final curioso. Um dia, a navegação costeira nacional entrou em greve. E, como não podia deixar de ser, a do Honnold aqui também. Uma semana, duas semanas, e a greve continuava. Aí, o Jorge Paulo Silva, pai de Aristonil, que trabalhava para ele, apanhou a lista de mantimentos do navio, que era suprido pelo armador, e procurou o patrão: “Seu Eugênio, estava esperando pelo senhor. Tem que comprar cinco sacos de feijão, tantos de farinha”... – “Para quê?” – perguntou ele. – “É lá pros navios”. – “Mas pra quê? Eles estão lá sem trabalhar”... – “Mas tem que dar Seu Eugênio, isso é da lei. Esteja trabalhando ou não, tem que abastecer”. – “Ah é? Então, estão todos desempregados”! E acabou com a empresa.&lt;br /&gt;O fim do empreendimento das bananas também foi sui-generis, segundo Assumpção: “Naquela altura, o Luis estava como diretor da Cia Estrada de Ferro Minas de São Jerônimo. No sul, as minas da empresa, produziam metade de todo carvão do Brasil. O ingleses não entendiam muito da coisa e, um dia, começaram a protestar que estavam sendo logrados, que um cacho tinha 48 bananas, outra tinha 60 (aquilo era contado por cacho, antigamente). Aí foi suspensa a exportação”.&lt;br /&gt;Luis Reis, que morava no Rio, vinha para Búzios toda quinta-feira e ficava o fim de semana. Dona Giselle, no entanto, só veio a Búzios duas vezes. Assumpção ainda lembra com saudade das ocasiões em que a família toda almoçava debaixo da sapotiaba, que tinha ali. Na verdade, ela continuou morando na França, vindo ao Rio de Janeiro por curtos períodos. E o Luis, depois que o pai dela morreu, ia sempre encontrá-la, ficando seis meses lá, outros três no Brasil. Mas levavam bons períodos sem se ver. No Brasil, uma outra francesa encantou Luis. Foi Tatiana Lescova, filha de um general russo, refugiado na França, em 1917, durante a revolução. Bailarina, depois diretora da parte de ballet do Teatro Municipal do Rio, ela adotou a nacionalidade brasileira. Para ela, Luis mandou construir uma casa, em um terreno escolhido por Assumpção perto de sua casa na Azeda. Mas uma sabia da outra e até se admiravam, ficaram mesmo muito amigas, já que Tatiana vivia bons períodos em Paris num apartamento que lhe havia dado o Luis, na casa que ele tinha perto da sede da ONU. Dona Giselle era até agradecida à Tatiana por cuidar do marido, quando ele estava sozinho no Brasil e ela não podia vir, principalmente numa certa ocasião, em ele ficou muito doente. Tanto é que deixou para ela, metade de sua fortuna, quando morreu em 2001, com 95 anos.&lt;br /&gt;Assumpção, no entanto, se admirava com isso: “Sempre fiquei impressionado como o amor deles nunca sofreu arranhões. Cada um com sua vida, mas eles se amavam mesmo! E a própria Giselle me contou passagens da agitada vida amorosa do Luis, que ela achava muito natural. Eu dizia que se ela fosse brasileira, ia partir mesmo para cima da outra com um pedaço de pau, e ela ria, achava muita graça. Além da Tatiana, entretanto, havia a Maria Tereza, mulher bem mais jovem, para quem ele deu um apartamento de cobertura no prédio que havia mandado construir na Rua Henrique Dumont, em Ipanema, onde eu fui síndico, que era um palácio de tão grande. E mais outras, como Cândida Vargas. O Luis não era fácil, como dizia a Dona Giselle”...&lt;br /&gt;Maria Tereza, porém, não inspirava a mesma simpatia à Dona Giselle que Tatiana. Esse estranhamento foi confirmado em 1986, quando ela foi visitar Luis no quarto que ocupava em um hotel da Suíça - que, aliás, era de sua propriedade, onde ele lutava contra um câncer generalizado, aos 77 anos. Na portaria, quando ela, Dona Giselle, se apresentou como esposa do enfermo, disseram que não podia ser, porque a esposa dele já estava lá. É que a Maria Tereza já havia se registrado como tal, lhe causando grande constrangimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Honnold, um incompreendido - Foi Eugenne Honnold, engenheiro alemão, naturalizado americano, que, conforme conta Assumpção, abriu as portas de Búzios, em 1916: “Ele, que tinha uma companhia de navegação, queria fazer um porto de minério e resolveu fazer aqui em Búzios, embora não tivesse conseguido. Queria fazer o estaleiro, vinculado a um porto, na Praia do Forno, que era o lugar ideal. Quando chegou, viu que precisava de muita terra e começou a comprar, comprar. Começou comprando lá do rio São João, a fazenda Campos Novos, que tinha sido dos jesuítas. E veio até a península, comprando praticamente tudo. Quem não vendeu, ficou quase ilhado”.&lt;br /&gt;Segundo Assumpção, Honnold não foi compreendido pelas autoridades brasileiras: “Recebiam ele como um homem rico. Mas não o levaram a sério. O estado do Espírito Santo é que acabou conseguindo. Porque ninguém entendia que um dia a Rio-Bahia ia passar por aqui. Questão de mentalidade. Enquanto eles viam com antolhos, o Eugenne Honnold via longe. Então, desgostoso, ele largou as terras aí”.&lt;br /&gt;Assumpção, que sempre “gostou de mato e de caçar – antes isso não era vergonha”, ficou por três anos mapeando as propriedades da Odeon. E lhe deram um encargo “pesadíssimo”: “Eu tinha que indenizar as roças de todo mundo. As pessoas iam continuar no mesmo lugar, mas era preciso fazer isso através do cartório, porque as terras eram da Companhia. Através de um termo de indenização, os lavradores reconheciam que as terras eram da Odeon”. Conta que fizeram uma reunião, por volta do ano de 1972, na casa do Jorge Paulo Silva (pai de 18 filhos), na Rua da Brava, a qual vieram 60 agricultores. A maioria dos trabalhadores de roça era de mulheres, os homens não passavam de meia dúzia: “Elas trabalhavam bem mais que os homens. Não só nas roças, plantando aipim, fazendo farinha, mas também pescando e lavando as roupas nos poços d’água”.&lt;br /&gt;Ele lembra que o clima daquela reunião estava bem tenso. A ponto de o motorista Ivan ter achado que iam ser linchados, quando viu aquela multidão de lavradores se aproximando. Assumpção foi, depois, olhar cada roça e conferir quantas bananeiras, quantos pés de mandioca, de feijão, para chegar ao preço da indenização: “Fizemos a escrituras, pagamos no cartório da Marli. Tudo direitinho. E quando já haviam assinado, disse que podiam ficar com as colheitas, que a Cia não se interessava por aquilo”.&lt;br /&gt;Desse modo, a Ferradura foi comprada do Giácomo Tardelli; o Forno, da Dona Amélia (mãe da Georgina, avó do Zeca pescador); os Ossos, do Seu Pide; a Azeda, do Cassiano, parte da Ferradura, do Amadeu Francesconi, e assim por diante. Só o pai do Zeca pescador manteve sua parte na praia do Forno - não quis vender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Centro de Búzios, um grande aterro - Em 1967, a ocupação desordenada das praias, conta Assumpção, levou a Cia Odeon - que era também dona de toda a região da Ogiva, em Cabo Frio - a tomar uma providência: “Eram galpões, seca de peixe, casinhas toscas. Eles gostavam muito dos pescadores, achavam eles desarmados, confiáveis, gente sem maldade nenhuma. E se preocupavam que não tivessem onde ficar, quando aquilo se valorizasse um dia. Resolveram, então, separar um pedaço de terra, definir 108 lotes de 200 m2, para colocar o pessoal, tudo legalizado. Hoje, eu faria diferente, acho que ficou muito apertado, as ruas muito estreitas, e ainda havia o problema de que aquilo era um mangue, cheio de pererecas, de pássaros aquáticos, que eles aterraram com o barro tirado daquele morro na entrada da Ferradura e, também, do Morro do Humaitá. Era uma região tão alagada que, de bote, se podia atravessar da Ferradura até o Bar do Maia. E eu também não teria feito aquele campo de futebol”.&lt;br /&gt;- “Cada lote custava 15 mil cruzeiros (ou cruzados ...) e foram pagos em 60 prestações, sem nenhuma entrada – diz Assumpção -, mas alguns não acabaram de pagar e a Cia relevou”. Conta, também, que recebeu diversas ofertas de pessoas do Rio que queriam dar até 90 mil a vista pelos terrenos, mas que não aceitou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrando os notáveis - Desse tempo, ao lado de Luis Reis, Assumpção guarda saudades. São histórias que, inclusive, ele está escrevendo, com muita calma (se Seu Octavio Reis estivesse vivo, lhe recomendaria isso), cuidadosamente ilustradas com seus próprios desenhos em bico de pena. Nessas memórias, conta, também, as oportunidades que teve de conviver com figuras que de outro modo não teria conhecido, como Juscelino Kubitschek. “Ele, quando vinha, ficava na casa do Oswaldo Maia Penido, hoje o Solar do Peixe Vivo. E vinha muito para a Azeda, também. O motorista do Seu Luis ia apanhá-lo e quando chegava aqui, ele ficava feliz. Ele tinha um corte, uma cicatriz de uma operação que fez, que ia desde o peito até o umbigo. Quando ele tirava a roupa para tomar banho é que a gente via. Eles tomavam banho e depois almoçavam. Saía todo sorridente. Depois, quando houve a revolução de 64, o Juscelino foi pisoteado, maltratado, vilipendiado, ameaçado, mas sempre se manteve altivo. Um dia, uns 15 anos depois, esse motorista estava no prédio da Avenida Atlântica, esperando o Luis descer para levá-lo ao escritório. Aí parou lá uma perua, diversas pessoas saltaram, entre elas, o Juscelino, indo para o prédio vizinho. E, quando o Juscelino viu o motorista, fez uma festa, saiu da multidão, foi lá e apertou a mão dele. No escritório, o motorista veio me contar, ainda impressionado”.&lt;br /&gt;Quando a Brigitte Bardot esteve em Búzios, Assumpção também a conheceu: “Mas não liguei muito, nem o Luis Reis, que eu saiba. O povo ficava de olho, mas ela não dava muita bola, não. Depois ganhou um terreno onde hoje é o Hotel Colonna, mas nunca assumiu. E como, pelas leis brasileiras da época, depois de dois anos da doação, se a pessoa não desse uma destinação, perdia, ela perdeu. A Brigitte trouxe com ela um mecânico de automóveis, que era seu doce de côco, o Bob Zaguri. No Rio de Janeiro, era fotógrafo, era paparazzi, tudo em cima, e aqui encontrou paz. Eles iam para João Fernandinho, onde estava esse terreno e ela ficava ali, sempre sem roupa, muito à vontade. Veio curtir o amor dela, mas de Búzios, nunca quis saber”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-8723835730084680170?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/8723835730084680170/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=8723835730084680170' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8723835730084680170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8723835730084680170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/texto-para-o-jornal-o-per-molhado-bzios.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-1672220119637823581</id><published>2008-01-01T15:06:00.000-08:00</published><updated>2008-01-01T15:26:11.716-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;Coluna de gastronomia&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;Revista Mais Cabo Frio 2003&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;Em parceria com Eduardo Harguindeguy&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Barão de Curupira:&lt;br /&gt;Quem é, de onde vem, para onde vai&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de ser um gourmet, nosso colunista era simplesmente um gourmant (leia-se guloso). De prato em prato, compulsivamente, ele só queria encher a barriga, abarrotar-se. Se uns afogam suas mágoas no copo, ele as enterrava na comida. A preferência ia para as mais pesadas, mais substanciosas. Chegou, assim, a um tamnaho prodigioso, justo ele, que se gabava de ser tão elegante nos bons tempos.&lt;br /&gt;Um ultimatum médico o fez mudar de vida, mas não o afastou de seu objeto do desejo. Descobriu, então, a sutileza dos sabores, os labirintos do paladar, a delicadeza das texturas, a sedução dos aromas.&lt;br /&gt;Virou Barão, passaporte para circular nos ambientes mais refinados. E virou Curupira, porque é incorporado, de tempos em tempos, por aquela entidade folclórica, brasileiríssima, precursor dos ecologistas – caça permitida, só se for para comer – e dos antropofágicos – devoração cultural, do tabu ao totem.&lt;br /&gt;Essas bruscas mudanças de personalidade o tornam, no entanto, um sujeito esquisito. Avesso à publicidade, às fotos, às multidões, ele circula mais à vontade pelo anonimato, pelas confidências ao pé do ouvido.&lt;br /&gt;A imagem que aqui ilustra seus comentários gastronômicos é um retrato-falado, feito por uma amiga sua, discretíssima, que economizou nos detalhes e só descreveu o suficiente para que o dito-cujo não fosse jamais reconhecido por aí.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-1672220119637823581?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/1672220119637823581/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=1672220119637823581' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/1672220119637823581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/1672220119637823581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/coluna-de-gastronomia-revista-mais-cabo.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-4466782713431175230</id><published>2008-01-01T15:05:00.000-08:00</published><updated>2008-01-01T15:06:41.971-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;Coluna de gastronomia&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;Revista Mais Búzios 2002/2003&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Duas ou três coisas que eu sei dela&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me refiro, meus caros leitores, à minha estimada Orianne de Guermantes, com seus olhos de pervinca. Mesmo porque não iria eu confessar aqui o pouco que pude descobrir a seu respeito, apesar desses longos anos de convivência. A duquesa guarda seus segredos a sete chaves, mas é aí justamente que reside o encantamento que tempera nossa amizade, apurada pelas incursões gastronômicas que temos feito juntos por aí afora.&lt;br /&gt;As duas ou três coisas que eu sei e que queria compartilhar com vocês remetem a essa curiosa invenção dos tempos modernos, que é a comida a peso, ou a quilo, como a maioria prefere chamar. Aquela que é submetida à balança depois que o próprio cliente se serve em um buffet.&lt;br /&gt;Não tenho, é bem verdade, muita intimidade com essa maneira um tanto despojada de alimentar-se. Vocês bem sabem que eu sou um conservador e observo as novidades com a desconfiança dos olhares oblíquos que Machado de Assis atribuiu a Capitu.&lt;br /&gt;Tenho que reconhecer que o relógio hoje anda mais depressa. Ainda mais nos dias de semana, em que lembramos que “tempo é dinheiro”, e o não-trabalho é associado ao ócio. Perder valiosos intervalos de tempo esperando pelo preparo da comida, só para os privilegiados, dirão os mais conscientes. Este é o primeiro atributo da comida a peso: a rapidez.&lt;br /&gt;A seguir, vem a informalidade. É como ir à cozinha da casa e destampar as panelas. Sentir o cheirinho do feijão, roubar uma batata frita. A comida a peso desperta essa memória da alimentação caseira.&lt;br /&gt;Tem também um pouco do ritual do banquete, que proporciona a experiência da refeição compartilhada, em que tudo pode ser comemorado: negócios, acordos, casamentos, vitórias, a chegada do verão.&lt;br /&gt;Há ainda o princípio da justiça. Ou, pelo menos, a sensação dela. Paga-se pelo que se come. O cidadão tem a impressão de que está economizando, na medida em que controla a quantidade. Na comida à la carte, há que conhecer o tamanho da generosidade do dono do restaurante, para avaliar se o prato é “bem servido”. Ou apelar para a sinceridade do garçom: – “Essa moqueca dá pra dois?”&lt;br /&gt;Um outro aspecto, em tempos de vacas magras – já sonhadas por José, no Egito – é que ao cidadão lhe agrada que não haja desperdício. Assim, ele acredita estar fazendo um bom negócio. Se sobra comida, é no buffet, e não no seu prato.&lt;br /&gt;Do ponto de vista dos donos desses restaurantes, há a vantagem da redução do número de garçons, já que o freguês se serve sozinho, possibilitando preços mais atraentes. Também se economiza tempo no preparo, já que o cozinheiro sabe previamente o que fazer e não tem que atender às esquisitices de alguns clientes: “Por favor, eu quero espaguette al funghi, só que sem azeite e sem manteiga. Ah! E dá pra trocar o funghi por alcaparra? E o espaguette por fusilli?”&lt;br /&gt;No entanto, meus amigos, como, na comida dita “a quilo”, cada indivíduo compõe seu próprio cardápio, o risco é incalculável. O excesso de democracia permite ao sujeito misturar impunemente feijão com macarrão, bacalhau com lombinho de porco, sushi com xuxu ao molho branco… Ai que saudade da velha ditadura do chef!&lt;br /&gt;Nessa modalidade de serviço, a harmonia entre os componentes do prato acontece ou não acontece, conforme a fome e a cultura culinária do consumidor. Às vezes, uma interfere na outra. Mas, não me permito negar o potencial didático, que conduz boa parte dos frequentadores da comida a peso ao aprendizado dessas combinações de cheiros, texturas e sabores. Isso, se o sujeito não sucumbir ao tamanho do prato, que convida ao exagero, à gula, à extravagância.&lt;br /&gt;Essas idéias atravessaram minha mente nas últimas semanas, enquanto experimentava algumas das principais casas de comida a peso de Búzios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Boom, com sua arquitetura esmerada e a decoração inventiva, um verdadeiro palácio erigido em homenagem ao paladar. Um cardápio bastante variado, um grill da maior competência. Consolidou-se como um ponto de encontro, tanto de moradores como de visitantes – lugar para ver e ser visto. Uma espécie de Rua das Pedras num só prédio – o mesmo vai-e-vem, as mesmas “bocas malditas” comentando a política cidadã, ou a última fofoca de quem traiu quem e com quem. O lugar certo para tomar o pulso da cidade. Todo esse movimento acompanhado de perto pelos exigentes e eficientes José Márcio e Lalinha.&lt;br /&gt;O Samsara, idealizado pelo Paulino, onde o astral é quase mais importante que a comida, na melhor linha vegetariana. Saladas, soja, feijão azuki, uma deliciosa lasanha de abobrinha, sopinhas nutritivas, gersal, chás das mais exóticas procedências. Todos os ingredientes para seu corpo ficar bem confortável, enquanto seu espírito voa por aí. Na tela da TV, videos sobre o Tibet, Nepal, India, Japão. Um delicioso terraço para curtir o sol de inverno. No andar de baixo, os que querem continuar “no clima” encontram incensos, cds para meditar, livros esotéricos, roupas indianas, objetos tibetanos, sininhos, pedras, pirâmides, todos os apetrechos rituais da “new age”.&lt;br /&gt;O Buzin, trazendo para Búzios a tradição que já tinha em Niterói, oferece comida bem diversificada, grande buffet de saladas, grelha farta, uma unidade de preparo de massas de excelente qualidade, com vários molhos para combinar. Destaque deve ser feito para a mesa de queijos e para a adega climatizada. Amplo, arejado, é o maior restaurante da cidade, tendo ainda um simpático terraço, onde é possível comer ao ar livre.&lt;br /&gt;E, finalmente, o mais antigo restaurante a peso da península, o Bananaland, que optou por investir no apuro culinário, na atualização constante do cardápio. Essa dedicação e amor pela gastronomia se reflete em cada prato preparado pelo mestre Beto. Pode-se considerar esta a mais elaborada comida a peso da cidade. As saladas surpreendem pela frescura e pela infinidade de opções – folhas de todos os tipos, associações exóticas de frutas com verduras. O fantástico quiche, o bacalhau a Zé Pipo, ou coisas simples como um purê de batata baroa podem se transformar numa grande experiência sensorial. E, se você der sorte, poderá desfrutar de um especialíssimo rondelli de espinafre, uma torta de palmito e camarão, um carpaccio de pera, rigattone recheado com lingüiça. O chef Beto é mesmo um especialista e se diverte em testar novas combinações. Mesmo quando a aparência é singela, ela oculta todo um ritual de elaboração. O atendimento do salão fica por conta de Rosangela, sua esposa, que recepciona os amigos e clientes com carinhosa simpatia. O ambiente é simples, mas de bom gosto, sobretudo acolhedor. E é inadmissível ir embora sem provar da inesquecível banana frita com sorvete – lembre-se que você está na “terra das bananas”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Barão de Curupira&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-4466782713431175230?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/4466782713431175230/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=4466782713431175230' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4466782713431175230'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4466782713431175230'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/coluna-de-gastronomia-revista-mais_7911.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-441863010098377367</id><published>2008-01-01T14:55:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T14:58:30.125-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;Coluna de gastronomia&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;Revista Mais Búzios, de 2002 a 2003&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;Em parceria com Eduardo Harguindeguy&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nome é destino&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim foi como Christophe Lidy decidiu chamar seu restaurante, então, na Praça Santos Dumont, de Cigalon, inspirado no personagem do romance de Marcel Pagnol, um mal-humorado cozinheiro, ciumento de suas panelas, que seguia com rigor cartesiano as receitas dos pratos. À semelhança de seu conterrâneo, um outro Marcel – o Duchamp – que abandonou as artes plásticas, para dedicar-se ao xadez, levando ao extremo sua opção pela “arte seca” – sem qualquer sentimento estético, emoção ou juízo, o nosso Pagnol, depois de 15 anos nos principais restaurantes parisienses, largou tudo e foi cozinhar só para ele e a irmã.&lt;br /&gt;Assim, de alguma maneira, Christophe sinalizou o destino da sua criatura, e mesmo quando partiu para o rio de Janeiro, sequestrado pelo Gracia &amp;amp; Rodriguez, para alegrar os paladares e as almas cariocas, deixou em Búzios uma digna herdeira dessa obsessividade pela cozinha correta, meticulosa. Fato raro tal continuidade, e só explicada graças à responsabilidade e ao rigor técnico de Sonia Persiani.&lt;br /&gt;Alguns momentos de prosa com ela fazem parte necessária do cardápio do Cigalon – encantadora e informadíssima, Soninha fala de gastronomia e enologia como se fossem um idioma, dominado na totalidade de sua morfologia e sintaxe. A designação exata, a precisão do significado, os termos corretos. É seu argumento de que a tradição é como uma âncora segura, que ajuda a separar o moderno do novidadoso. Para Sonia, um prato clássico é como uma sinfonia – uma forma fechada, pura e completa em si mesma. Pode-se inovar, criar e experimentar, mas o prato clássico vai permanecer sempre como um paradigma, um marco de referência, baliza que permite julgar o quanto se distancia do modelo.&lt;br /&gt;Assim se desenvolve a cozinha do Cigalon, tomando como base a culinária francesa e a italiana, essas duas tradições que compõem suscinto (mas generoso) cardápio, onde a desnecessária variedade cede lugar ao equilíbrio e à harmonia. Uma culinária que respeita a origem de cada ingrediente, rendendo homenagem às tradições e ao ritmo das estações e condições climáticas de cada procedência, promovendo a educação do gosto e o ato de comer como exercício ao mesmo tempo cultural e hedônico&lt;br /&gt;Foi neste cenário, num daqueles dias em que você acorda com vontade de não arriscar, quando a única disposição que lhe vem é fruir dos clássicos, que este que vos fala e minha amiga Odette de Crecy, jantamos no Cigalon.&lt;br /&gt;De entrada, nos deliciamos com galhetas de batata ao Roquefort, patê de fígado e ovos de codorna, além de uma refrescante sopa fria de aspargos e salmão marinado ao aneto, crocante de parmesão. Foi uma excelente abertura para o concerto que viria depois.&lt;br /&gt;Esperando pelos pratos principais, minha encantadora amiga não pode deixar de reparar na agradável ambientação. O Cigalon, aninhado no antigo atelier da pintora Abigail Vashti Schlemm, num belíssimo recanto na Rua das Pedras, oferece um deslumbrante terraço de frente para a bucólica Praia do Canto, com seus coloridos barquinhos de pesca, às vezes ofuscados pelos surrealmente iluminados transatlânticos, que ancoram à distância. Com um ar provençal, a decoração reúne antigos móveis e objetos pertencentes à família da pintora que, aliados à seus quadros de inspiração fauvista, se harmonizam perfeitamente com sobriedade do cardápio.&lt;br /&gt;Logo depois, chegou o prato esperado: um filet de cherne ao Cigalon, deitado numa camada de batatas finas, abacaxi, aipo e aroeira, com um toque telúrico dado por essa pequena frutinha vermelha picante e fragante, que parece resumir a essência do espírito buziano. Enquanto isso, minha cara Odette de Crecy degustava um carré de cordeiro ao molho de amêndoas, com abobrinhas gratinadas e acelgas salteadas ao bacon.&lt;br /&gt;Como acompanhamento, compareceu à nossa mesa o personalíssimo vinho branco chardonnay Sant Antimo, da Toscana, fresco, levemente frutado, impregnando nosso hálito de um equilíbrio renascentista.&lt;br /&gt;Usufruir dessas iguarias, sentados no esplêndido terraço e rodeados de tudo o que de melhor se encontra em Búzios – combinação de belas paisagens, sensibilidade artística, culinária requintada e o competente atendimento – fizeram desse jantar uma experiência deliciosa.&lt;br /&gt;Deixamos nas mãos da Soninha a eleição da sobremesa, e não pode haver decisão melhor, uma compota de maçã com praliné de avelãs, queijo mascarpone e sorvete de canela. À minha amiga, coube o saborosíssimo sorvete de mel com merengue chamuscado. Do qual provei generosa porção.&lt;br /&gt;Partimos do Cigalon, com a alma contente e leve, como quem sai da casa de velhos e requintados amigos, além de excelentes anfitriões, que de tudo fazem para nos cercar de todas as atenções e comodidades.&lt;br /&gt;Já saindo, o rebuliço da Rua das Pedras nos tomou meio de surpresa, fazendo contraste com a atmosfera de calma e quietude que acabávamos de deixar. Mas logo alcançamos a Praça Santos Dumont e andamos pelas ruazinhas mais pacatas e silenciosas, onde se pode sentir ainda o espírito do anjo que domina a noite buziana, e que os romanos chamavam de “genius locci”. Embalados pelas asas deste amável Serafim, nos internamos na noite, à procura do repouso necessário para novas aventuras que, nesta mágica e inebriante península, ainda nos aguardavam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Barão de Curupira&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-441863010098377367?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/441863010098377367/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=441863010098377367' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/441863010098377367'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/441863010098377367'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/nome-destino-assim-foi-como-christophe.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-7095429897341664973</id><published>2008-01-01T13:17:00.000-08:00</published><updated>2008-01-01T13:19:30.754-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;Coluna de gastronomia, &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;Revista Mais Búzios 2002 a 2003, &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;em parceria com Eduardo Harguindeguy&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Por paladares&lt;br /&gt;nunca dantes navegados&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caro leitor, há dias em que nosso espírito amanhece com um quê de explorador, sentimos na alma a ânsia de aventuras, de descobrir o inesperado por mares nunca dantes navegados, quiçá um pouco do fogo dos lusitanos antigos, desbravadores de mares e continentes à procura de temperos e especiarias, que deliciavam os requintados paladares europeus.&lt;br /&gt;Num desses dias, andando pela Orla Bardot, fiquei extasiado diante das silhuetas dos belos veleiros aportados no nosso acolhedor ancoradouro, do brilho do sol nos mastros, do barulho das enxárcias batidas pelo vento, do grito das gaivotas. Súbito, eu era dois: meio Lord Jim, meio capitão Kirk. Um desejo de exotismo, de mudança, uma necessidade de, por momentos, me colocar nas antípodas e mergulhar num mundo diferente e invulgar.&lt;br /&gt;Dado que a melhor maneira de vencer uma tentação é, desde que Oscar Wilde o descobriu, entregar-se a ela, decidi que deveria o quanto antes resolver esta questão, antes que se transformasse em obsessão.&lt;br /&gt;Travava este duelo interior, quando me deparei com minha amiga Orianne de Guermantes, a bela duquesa de olhos cor de pervinca, que se compadeceu deste seu fiel súdito e admirador e ordenou: “Meu querido Barão, nenhum de seus ilustres ancestrais foi jamais um pusilânime, tampouco um poltrão. A que vem agora esta languidez? Aqui mesmo em Búzios, existem lugares adequados para acalmar certos desejos, sem necessidade de viagens incômodas e malas perdidas em aeroportos anônimos e vulgares. Siga-me, ou levá-lo a um lugar em que você poderá submergir-se no incomum”.&lt;br /&gt;Aceitando o convite da minha formosa amiga, deixei-me guiar por essa Beatrice resoluta que, sem demora, me dirigiu, margeando o passeio à beira do mar, para o restaurante Sawasdee. Exóticas iguarias tailandesas acenavam para nós.&lt;br /&gt;Fomos recebidos pelo Marcos que, em seu impecável traje branco, oficiava como capitão da cozinha e que, num lampejo, compreendeu a nossa necessidade.&lt;br /&gt;Guiados pelo seu pulso firme, entregamo-nos então a seus sábios conselhos numa viagem redentora através dos aromas, sabores, texturas e cores da cozinha Thai.&lt;br /&gt;Algum senão sobre a pimenta? – perguntou nosso chef, delicadamente. Minha amiga vacilou e murmurou alguma coisa, que não ouvi, mas adivinhei, conhecedor de seu espírito simultaneamente firme e volátil: ela temia perder a consciência, no frenesi de tal intensificador de sabores. Já eu, ávido de intensidades e de inconsciências, desejoso inclusive de testemunhar as dela, respondi que estava pronto até para os excessos. Deve o leitor saber que o gengibre, o alho, o curry e as pimentas ardidas são usados, na cozinha tailandesa, para incendiar mesmo os mais delicados paladares. E lá foi o Marcos em direção à cozinha, enquanto nós bebericávamos um aperitivo de lichia com sakê, refrescante e introdutório da viagem que nos aguardava.&lt;br /&gt;O inusitado nos surpreendeu já no primeiro prato: camarões levemente fritos, vestidos com lichias e acompanhados de um relish de cenoura, pepino e folhas de hortelã finamente fileteadas. O ácido, o picante, o doce e o salgado. Para além do óbvio, a harmonia desses sabores trazidos do antigo reino do Sião, não resulta – ao que começamos a perceber – das semelhanças, mas dos contrastes.&lt;br /&gt;Quando o gentil garçom nos trouxe a iguaria seguinte, nossa imaginação já nos havia transportado para Bangkok, onde, entretidos, observávamos, no movimentado mercado flutuante de Damnoebn Saduak, no de Cahttuchak, ou no de Chiang Mai, a infinidade estonteante de temperos , ervas, frutas frescas e toda sorte de ingredientes.&lt;br /&gt;Mas a volta ao Sawasdee – “bem-vindo” em tailandês – foi muito bem recompensada e passamos a degustar uma berinjela grelhada, de pele crocante, polpa macia, regada ao molho de missô e gergelim. E eu me dei conta da importância das texturas – a resistência que o crocante, nessa culinária exótica, impõe à nossa voracidade. Uma resistência que, de tão sutil, se vira em convite. Não sei bem por que, este pensamento me fez lançar um olhar furtivo em direção à minha amiga duquesa que, mordiscando seu último pedacinho de berinjela, no entanto, já estava longe, levada pelo devaneio daqueles sabores d’além mares.&lt;br /&gt;Enquanto minha companhia ia distante, consultei a carta de vinhos da casa, e a encontrei bastante diversificada, com muitas opções, inclusive alguns regionalismos, como vinhos de Rioja (Espanha) e Sardenha (Amarone Vila Erbice).&lt;br /&gt;O aroma do camarão ao leite de côco, curry verde e açafrão fez finalmente regressar dos sonhos a bela de Guermantes, e pudemos experimentar juntos mais uma delícia. Desta vez, os camarões descansavam majestosos sobre um ninho de macarrãozinho de trigo sarraceno, frito no wok, que, de onde estávamos, podíamos observar ser manuseado com maestria pelo chef Marcos.&lt;br /&gt;Ainda o destino nos reservava outra maravilha: um filé de congro ao caramelo de curry, num prato delicadamente decorado com finas tiras de aipo e cenoura e lasquinhas de limão cafir. Exultei quando Marcos confirmou minha primeira suspeita quanto à identidade daquele pescado: a consistência e a carne branca, no máximo, me fariam confundí-lo com um cherne.&lt;br /&gt;É um exercício que faço sempre – tentar adivinhar os ingredientes. Chego a provar certas combinações de olhos fechados, para não me ludibriar pela evidência do olhar, o mais ocidental dos sentidos. Porém, ali, de frente para o mar da Armação, na ambientação agradabilíssima do Sawasdee, nem foi preciso. Mesmo de olhos abertos, segui minha acompanhante nos seus devaneios e, súbito, estávamos em contato com o verdadeiro espírito da Tailândia, com o aroma das flores e dos incensos, o requinte ornamental dos templos budistas, as procissões de barcos, as cores fantásticas dos tecidos.&lt;br /&gt;Para saciar finalmente qualquer anseio de exotismo só faltava a satisfação final: salada de frutas com sorvete de creme sobrenadando num molho quente de laranja discretamente temperado. Novamente, os contrastes dessa linguagem gastronômica tão sutil, em que qté o quente e o frio dialogam.&lt;br /&gt;Difícil foi partir de tão acolhedor ambiente, mas lá fomos nós, sabedores de que novas aventuras nos aguardavam, em algum outro recanto desta Babel de mil sabores que é Armação dos Búzios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barão de Curupira&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-7095429897341664973?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/7095429897341664973/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=7095429897341664973' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7095429897341664973'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7095429897341664973'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/coluna-de-gastronomia-revista-mais_01.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-6092692825072599059</id><published>2008-01-01T11:40:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T11:50:53.308-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;Coluna de gastronomia, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;Revista Mais Búzios 2002 a 2003, &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;em parceria com Eduardo Harguindeguy&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Em Búzios, também se come a paisagem&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os iniciados, a natureza generosa de Búzios não é desfrutada apenas pelos olhos. Entra-se nela de corpo inteiro, e se é penetrado por ela, radicalmente. E cinco sentidos não são, certamente, suficientes para esse contato tão estreito, tão deliciosamente primitivo.&lt;br /&gt;Não é por acaso que se ouve falar de gente que vem aqui “recarregar as baterias”, “lavar a alma”, “arejar a cabeça”, “zerar o taxímetro”. Vir a Búzios é uma daquelas experiências integrais, em que o corpo e o espírito se alimentam, simultaneamente, reciprocamente. E a culinária buziana, resultado da alquimia operada a partir dos ingredientes trazidos pelas dezenas de culturas que compõem essa nacionalidade cosmopolita, é tão generosa quanto a natureza deste lugar. Pode-se até falar – pegando carona não autorizada no vocabulário do ecologicamente correto – em biodiversidade gastronômica.&lt;br /&gt;Uma outra viagem começa para o visitante. Cozinha francesa, italiana, Argentina, tailandesa, japonesa, tcheca, alemã, espanhola. Muitas vezes, transmutações de várias cozinhas, denunciando o percurso que o chef fez, antes de chegar a Búzios e ser adotado por esta cidade tão hospitaleira.&lt;br /&gt;Conduzido por essa culinária cosmopolita, o paladar vai migrando, também, através dos muitos Brasis, cada estado, cada região – Bahia, Espírito Snato, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo – com uma identidade inteiramente diferente da outra.&lt;br /&gt;A geografia conspira e cerca Búzios, pelo menos a península, de mar por todos os lados, tornando o peixe, os mariscos, os crustáceos, presenças marcantes na maioria das receitas.&lt;br /&gt;Nesse sentido, diz-se que aqui comemos a paisagem, já que se pode degustar tais iguarias, dos inúmeros restaurantes de frente para essas praias paradisíacas, ou em outros, cuja ambientação remete a memória ao cenário ali antes desfrutado.&lt;br /&gt;Os que só querem aplacar a fome, decerto não hão de ter vindo às praias certas. Não encontrarão aqui o utilitarismo das metrópoles, apesar de termos alguns protagonistas da comida urgente – a quilo -, porém de grife. A preferência fica mesmo com a slow-food, não por ideologia, mas por vocação.&lt;br /&gt;Há ainda o imperdível interlúdio com a comida nativa, nos pequenos restaurantes locais, onde os donos, buzianos de berço, pessoalmente pilotam o fogão, e imprimem ao cardápio a simplicidade no preparo dos pratos, nos quais a economia de adereços garante a autenticidade do resultado. Finalmente, o peixe não quer ser nada além de um peixe, a carne é apenas uma carne. Mas tudo com a mesma forte personalidade que, ainda hoje, faz com que esses originais habitantes da antiga aldeia de pescadores fiquem saudavelmente indiferentes aos ricos e famosos, que circulam anônimos e tranqüilos pela Rua das Pedras, sem serem reconhecidos ou assediados.&lt;br /&gt;Alimentar-se em Búzios é mais que uma adorável sensação. É uma emoção, que a memória não apaga, já que inclui, além da comida e da bebida, a experiência da boa companhia à nessa (difícil não se reencontrar por aqui um velho amigo ou não se fazer um novo), o aconchego da ambientação cuidadosamente concebida, a harmonia da arquitetura das antigas construções locais ou a delicadeza dos novos espaços projetados, a qualidade do serviço.&lt;br /&gt;À boa mesa, em Búzios, comparecem a luz, o vento, a lua, as estrelas. A cultura e a história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barão de Curupira&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-6092692825072599059?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/6092692825072599059/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=6092692825072599059' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/6092692825072599059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/6092692825072599059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/em-bzios-tambm-se-come-paisagem-para-os.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-8910291460343844991</id><published>2008-01-01T11:05:00.000-08:00</published><updated>2008-01-01T11:56:01.338-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="color:#ffcc99;"&gt;&lt;em&gt;Coluna de gastronomia,&lt;br /&gt;Revista Mais Búzios 2002 a 2003,&lt;br /&gt;em parceria com Eduardo Harguindeguy&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Com vocês, nosso Barão&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Ao discutirmos, na redação, a quem encomendar nossa coluna de gastronomia, a todos nos passou a mesma idéia pela cabeça. A quem mais, senão, Mário Danton Escobar Hernandez, o querido Barão de Curupira?&lt;br /&gt;Ele chegou a Búzios de maneira casual, como tantos outros, atraído pela fama das belas paisagens desta península, e descobriu que era fama bem merecida, que o lugar era mesmo deslumbrante, não só pela natureza, mas pelo delicado diálogo entre esta e a singular arquitetura da cidade.&lt;br /&gt;Maior surpresa, no entanto, iria assaltá-lo quando, conduzido por sua queda irresistível pela boa mesa, por comidas demoradas, manufaturadas com requinte visual, olfativo e gustativo, saboreadas com toda calma e prazer, sentou-se às mesas buzianas.&lt;br /&gt;Como o nosso Barão traz a alcunha do valente Curupira no nome, ele é como seu antecessor mitológico: defensor, até a última trincheira, das obras da natureza, protetor dos animais. Por conseguinte, só consente a caça e o abate daqueles que venham a ser transformados em iguarias, dignas do paladar dos deuses e que façam justiça ao sacrifício realizado. Se não, fica furioso, seus cabelos parece que se incendeiam, solta uma espécie de asssobio estridente, deixando o responsável por aquela morte inútil apavorado e propenso a se perder na mata, na rua das Pedras, para onde quer que corra.&lt;br /&gt;Porque, sabe bem nosso Barão, que comer não é simplesmente uma necessidade natural, e que cada prato pede sempre uma dupla degustação. Uma, através dos sentidos, outra, através da cultura. Cada mistura de ingredientes, cada associação de aromas, sabores, texturas, cores, nos remete a conhecimentos remotos, passados de boca em boca (literalmente), através dos séculos.&lt;br /&gt;Como seu ancestral folclórico, o Barão tem os pés virados para trás, coisa que não chega a comprometer a elegância de nosso personagem, e tem a vantagem de despistar os aduladores. Decididamente, não se pode influenciar a opinião do refinado Barão de curupira. Quando se pensa que ele vem, já foi. Quando se imagina que passou, eis que chega!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-8910291460343844991?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/8910291460343844991/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=8910291460343844991' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8910291460343844991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8910291460343844991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/com-vocs-nosso-baro-ao-discutirmos-na.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-5645308741307522761</id><published>2008-01-01T09:25:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T09:25:44.566-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O ascensorista&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem costumava correr de um lado para o outro, mais de 30 vezes, numa partida, toda a extensão de um campo de futebol, como atacante, a nova vida de ascensorista era um tanto ou quanto parada. Seu Souza havia entrado para o time do Várzea Futebol Clube, quando ainda nem completara os 18 anos. Mas já, desde os 15, treinara na equipe de juniores do clube.&lt;br /&gt;A carreira de profissional durara pouco, interrompida por um grave rompimento no menisco esquerdo, seguida de uma operação mal sucedida e o afastamento compulsório para a recuperação que nunca acontecera.&lt;br /&gt;A economia familiar, que era bastante confortável, estremeceu, e teve que procurar novo ponto de equilíbrio, diante do precoce pendurar de chuteiras. Dona Creusa, a patroa, dedicada desde o casamento ao cuidado dos filhos e da casa, começou a costurar pra fora. Creosir, a filha, saiu em campo como manicure. Até o Souzinha, que não era muito fanático por trabalho, driblou a preguiça e se empregou como contínuo numa firma de xerox.&lt;br /&gt;Mesmo com todo esse esforço de equipe, passaram dificuldade durante os seis meses em que Seu Souza ficou desempregado. Apertavam o cinto de tudo quanto era jeito, mas a coisa estava preta.&lt;br /&gt;Foi nessa ocasião que o velho Inocêncio, seu vizinho na vila que habitavam no Irajá, bateu as botas, deixando vago o cargo de ascensorista no edifício do Cartório, a poucos quarteirões dali, perto do túnel da Gambôa, no centro antigo da cidade.&lt;br /&gt;Seu Souza atribuiu isso à Providência Divina, que colocou o Inocêncio no banco de reservas, dando-lhe a oportunidade de voltar à ativa.&lt;br /&gt;Martinho, o português da banca de jornais da esquina, seu companheiro de copo e carteado nos domingos, fez o meio-de-campo e apresentou Seu Souza para o chefe do departamento de pessoal: “Esse aprende rápido e é muito respeitador. Criatura gentil tá ali.”  Dada à urgência de conseguir alguém para o posto e graças às bajulações do amigo, que era um sedutor de primeira, Seu Souza foi contratado. Na primeira semana, usou o uniforme do morto, duas numerações acima da sua, que lhe dava uma aparência mulambenta. Depois, a própria Dona Creusa tratou de costurar-lhe uma farda, de gabardine pardo e espalhafatosos botões dourados, inclusive nos bolsos, além do adereço das sianinhas marrons pregadas na dobra dos punhos. De um lado, a vocação pra Amélia. De outro, a pretensão de garantir uma grana pra trocar o aparelho de TV. Era quase insuportável acompanhar as novelas com aquelas faixas pretas atravessando, horizontais, a tela, de cima a baixo. O conserto do Delci durara só uma semana – parece que o problema era mesmo do tubo de imagem. Foi dentro desse espírito e, é claro, preocupada com a integridade física do marido, que Dona Creusa fez também a chiquérrima almofada de cetim azul para o banquinho de Seu Souza. Tinha lido, não se lembrava mais onde, sobre o mal das hemorróidas, que atacava sobretudo os motoristas de taxi e os ascensoristas, os profissionais que ficam mais tempo sentados.&lt;br /&gt;Não foi fácil para o Seu Souza se adaptar àqueles seus 2m2. Sorte dele, ser tão bom de imaginar. Pudera, não faltara treino: tardes e tardes bebericando com o Martinho, enquanto observava o movimento das moças indo para a missa na Igreja que ficava ali, alguns prédios adiante. Tentavam imaginar, com riqueza de detalhes, como ficariam aquelas moçoilas sem roupa. Passavam horas naquela função, fazendo uma espécie de retrato-falado de cada uma. A brincadeira só era interrompida, quando a televisão do bar começava a transmitir a programação esportiva. Aí a coisa ficava séria.&lt;br /&gt;Foi assim que inventou um jeito de passar o tempo entre as intermináveis subidas e descidas do elevador. Imaginou que o décimo andar do prédio era um imenso campo de futebol. E os elevadores, eram os gols. Ou seja, ele e Seu Paiva – o outro ascensorista - eram os zagueiros. Faltava agora escalar o resto dos jogadores. E ele fazia isso, a cada dia, entre os passageiros que conduzia. Analisava cada um detidamente, as características físicas, o comportamento. É claro que era mais fácil executar essa tarefa entre os funcionários que trabalhavam no prédio. Esses, ele via quase todos os dias e passava a conhecer melhor. Os eventuais usuários da repartição, às vezes eram escolhidos, mas aí o risco era maior, o que no entanto podia dar mais emoção ao jogo.&lt;br /&gt;Quando cansava disso, brincava de Deus e se sentia realmente todo-poderoso ao levar as criaturas pra cima e pra baixo, decidindo quem ia pro céu (o refeitório na cobertura) e quem ia pro inferno (os três subsolos de estacionamento). Na verdade, ele não decidia nada. Mas tentava adivinhar em que andar iam saltar e, mesmo que errasse, fazia de conta que a escolha tinha sido sua.&lt;br /&gt;O espelho ajudava muito – fazia aqueles dois metros quadrados parecerem o dobro. Pena que multiplicava também os passageiros, senão sobrava mais espaço. Por outro lado, um gol com o dobro de tamanho, representava mais perigo – era mais difícil de defender.&lt;br /&gt;E assim, Seu Souza ia levando a vidinha monótona de ascensorista, sem nunca se entediar.&lt;br /&gt;Bem que o Pai João, do centro que Dona Creusa freqüentava, tinha dito pra ela que ele era um espírito bem desenvolvido. Ele não acreditava em nada, era um agnóstico de primeira. Mas, quem sabe, era uma boa explicação para aquela sua extrema sensibilidade ao “astral” das pessoas. Ali mesmo, no elevador, quando entrava o Sr.Tibúrcio, via uma nuvenzinha negra entrando atrás e pairando sobre a cabeça dele. Não que o homem fosse mal-educado, até o cumprimentava, embora secamente, mas parecia infeliz, meio “travado”, como se tivesse que representar um papel a contra-gosto.&lt;br /&gt;O fato é que, desenvolvido ou não, Seu Souza levava seu trabalho a sério. Meteu na cabeça que tinha que fazer todo o possível para que seus passageiros desfrutassem das viagens, mesmo que durassem segundos. Com esse propósito, bateu um dia na porta do almoxarifado e reclamou da música de fundo, que tocava direto, não só no elevador dele, mas em todos os compartimentos do prédio. É muito chata – argumentou – temos que ter um serviço diferenciado. Por que não tocam um Chico Buarque, um Pixinguinha, um Paulinho da Viola? Tanto fez, tantas vezes voltou lá, que o rapaz cedeu e aceitou tocar os três CDs que o ascensorista tinha gravado. Contente, Seu Souza se deu conta de que o esforço tinha valido a pena quando o próprio Sr.Tibúrcio elogiou no seu jeito monossilábico: “Hum... Boa essa música”.&lt;br /&gt;Elegante, dentro da farda de gabardine, Seu Souza só perdia a pose, quando entrava no elevador Dona Júlia, a mulher do cafezinho, que ficava na copa do sétimo andar. Aí, o seu “astral” é que ficava destrambelhado. Anunciava errado o número do andar, trocava o botão de segurar a porta com o de fechá-la, cometia todo o tipo de trapalhada. Não sabia por que, mas aquela dona deixava ele tonto. Nunca tentara nenhuma aproximação, nunca lhe passara pela cabeça trair Dona Creusa, mas gostava dessa sensação de perigo. O mesmo medo que sentia na hora de defender um pênalti – lembrava ele saudoso a vida no gramado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, dezembro 2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-5645308741307522761?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/5645308741307522761/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=5645308741307522761' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/5645308741307522761'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/5645308741307522761'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/o-ascensorista-para-quem-costumava.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-7887667791477351733</id><published>2008-01-01T08:31:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T08:31:33.738-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Um milímetro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto tempo, meu amor.&lt;br /&gt;Que bom te ver por aqui.&lt;br /&gt;Foi você que chegou?&lt;br /&gt;Ou fui eu que sumi?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquele beijo que eu lembro,&lt;br /&gt;Realmente aconteceu?&lt;br /&gt;Pois é, faltava um milímetro&lt;br /&gt;Quando o tempo suspendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o desejo do mundo&lt;br /&gt;Esteve ali num momento&lt;br /&gt;No quase-beijo, meu bem&lt;br /&gt;Bem antes do pensamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois não sei o que houve,&lt;br /&gt;Preciso te perguntar&lt;br /&gt;Nos amamos loucamente&lt;br /&gt;Ou fomos só caminhar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantas peles, meu amor&lt;br /&gt;Vesti daí por diante&lt;br /&gt;Pendurei todas no armário&lt;br /&gt;Uma a uma, meus amantes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com você eu estava nua,&lt;br /&gt;De um jeito, despreparada,&lt;br /&gt;Quem dera retroceder&lt;br /&gt;Um milímetro, quase-nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, outubro 2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-7887667791477351733?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/7887667791477351733/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=7887667791477351733' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7887667791477351733'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7887667791477351733'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/um-milmetro-tanto-tempo-meu-amor.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' 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type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=4978962776580584016' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4978962776580584016'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4978962776580584016'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/sair-da-prpria-pele-e-se-estranhar.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' 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Já foste o paraíso.&lt;br /&gt;Eras bela, eras jovem, eras única.&lt;br /&gt;Hoje, és continente. Conténs o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, 2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-2662956673908228443?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/2662956673908228443/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=2662956673908228443' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2662956673908228443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/2662956673908228443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/bzios.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-7634021447330328451</id><published>2008-01-01T08:28:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T08:28:55.212-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Mesmice&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei pequena,&lt;br /&gt;cabia em mim.&lt;br /&gt;Ensimesmada,&lt;br /&gt;acordei assim.&lt;br /&gt;Olhei em volta,&lt;br /&gt;uma mesmice,&lt;br /&gt;Só vi eu mesma,&lt;br /&gt;que chatice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, março 2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-7634021447330328451?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/7634021447330328451/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=7634021447330328451' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7634021447330328451'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7634021447330328451'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/mesmice-acordei-pequena-cabia-em-mim.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-8688933097303804696</id><published>2008-01-01T08:27:00.002-08:00</published><updated>2008-01-01T08:28:08.701-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>É um absurdo você dormir,&lt;br /&gt;Fechar os olhos, me fazer sumir.&lt;br /&gt;É um absurdo você partir,&lt;br /&gt;Sair porta fora. Simplesmente, ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, setembro 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-8688933097303804696?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/8688933097303804696/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=8688933097303804696' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8688933097303804696'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/8688933097303804696'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/um-absurdo-voc-dormir-fechar-os-olhos.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-7112903481148428449</id><published>2008-01-01T08:27:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T08:27:27.468-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Escrevendo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como é difícil escrever. E como é fácil...&lt;br /&gt;Posso escrever qualquer coisa.&lt;br /&gt;Basta que eu comece.&lt;br /&gt;As palavras se alinham e fazem sentido,&lt;br /&gt;Ou destoam, repetem, exorbitam.&lt;br /&gt;Essas linhas já estavam escritas quando as escrevi.&lt;br /&gt;Minhas mãos, ágeis no teclado.&lt;br /&gt;Meus pensamentos, nem tanto.&lt;br /&gt;Reagem. Reagem contra minha decisão de escrever.&lt;br /&gt;Para que? Para quem? É meu destino escrever?&lt;br /&gt;Está escrito que vou escrever?&lt;br /&gt;Está escrito que estou escrevendo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, agosto 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-7112903481148428449?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/7112903481148428449/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=7112903481148428449' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7112903481148428449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7112903481148428449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/escrevendo-como-difcil-escrever.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-4288807250462389221</id><published>2008-01-01T08:26:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T08:26:31.021-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ao me chamarem pelo nome,&lt;br /&gt;Quisera só eu responder.&lt;br /&gt;Ao invés, somos tantas&lt;br /&gt;Qual personagem escolher?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, agosto 2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-4288807250462389221?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/4288807250462389221/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=4288807250462389221' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4288807250462389221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4288807250462389221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/ao-me-chamarem-pelo-nome-quisera-s-eu.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-4944950913524250019</id><published>2008-01-01T08:25:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T08:25:41.212-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Estranho você se mover,&lt;br /&gt;Sem que eu lhe peça.&lt;br /&gt;Estranho você conhecer,&lt;br /&gt;Pessoas que eu não conheça.&lt;br /&gt;Estranho você não ser eu,&lt;br /&gt;Estranho você ser um estranho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, setembro 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-4944950913524250019?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/4944950913524250019/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=4944950913524250019' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4944950913524250019'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4944950913524250019'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/estranho-voc-se-mover-sem-que-eu-lhe.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-5407394639185086587</id><published>2008-01-01T08:24:00.000-08:00</published><updated>2008-01-01T08:25:10.041-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Que tranqüilo saber que chove,&lt;br /&gt;E poder ficar bem quieta.&lt;br /&gt;Se chove, algo está sendo feito,&lt;br /&gt;E nenhuma aflição me resta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, setembro 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-5407394639185086587?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/5407394639185086587/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=5407394639185086587' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/5407394639185086587'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/5407394639185086587'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/que-tranqilo-saber-que-chove-e-poder.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' 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Adriana vinha da Região dos Lagos para o Rio, numa segunda feira chuvosa. Na verdade, a princípio, não viu quem era aquele sujeito que embarcou em algum ponto do trajeto.&lt;br /&gt;Não olhou imediatamente, para evitar o contato visual com alguém que poderia ser uma companhia desagradável para uma viagem.&lt;br /&gt;Somente muitos quilômetros depois, quando tentou tirar a capa de chuva e sentiu que o cordão dela estava preso no banco do lado, foi que olhou e deparou com o padre.&lt;br /&gt;- Olá , desculpe, eu não tinha visto que era o senhor…&lt;br /&gt;- Bom dia, tudo bem? – respondeu ele, aproveitando para pedir emprestado o jornal, que ela acabara de ler e enfiado no porta-coisas da poltrona da frente. – É para distrair – explicou. Isso aqui está ficando bom, hein?! – apontou, se referindo à obra de duplicação da Estrada, na altura de São Pedro D’Aldeia.&lt;br /&gt;- Será que vai ficar pronto para o verão?&lt;br /&gt;- Acho que não – respondeu Adriana – está muito em cima.&lt;br /&gt;Enquanto ele lia o jornal, ela tentava se lembrar se havia na edição daquele dia alguma matéria imprópria para padres. Não me lembrou de nenhuma.&lt;br /&gt;Pegou na mochila um livro. Mas, ler as páginas da esquerda, a constrangia: “Será que ele vai pensar que o estou observando?”&lt;br /&gt;Na altura de Rio Bonito, tirou os óculos e olhou a paisagem do vale todo verde, entre as montanhas verdes, lindo. Um bando de pássaros brancos atravessou, da esquerda para a direita, e ela os seguiu com o olhar. Mais explicitamente do que o necessário, talvez para o padre notar: “Ele terá percebido como sou sensível, como sou espiritualizada?”&lt;br /&gt;Impossível não ouvir uma vozinha, vinda de algum remoto canto dela mesma: “Quando é que você vai parar com isso de agir como se sempre estivesse sendo observada?”&lt;br /&gt;Seu vizinho de poltrona pegou uma agenda e anotou alguma coisa. Guardou-a em seguida, para mais adiante, tornar a pegá-la e fazer outras anotações.&lt;br /&gt;Ocorreu a ela que ele podia estar fazendo isso porque a viu escrevendo e quis se exibir, como ela tinha feito com os pássaros. E sentiu um calafrio quando passou por sua cabeça que ele podia estar impressionado de vê-la escrevendo assim compulsivamente.&lt;br /&gt;Olhou em volta. A maioria dos outros passageiros apenas apreciava a paisagem ou conversava.&lt;br /&gt;De repente, Adriana achou que ele lançava um olhar comprido sobre seu papel, dobrado em quatro, onde ela escrevia com letras míudas. Por via das dúvidas, fêz das letras seguintes uns garranchos. Incompreensíveis.&lt;br /&gt;- “Agora, não tem mais perigo!” – pensou, encostando tranqüilizada na poltrona.&lt;br /&gt;Mal o ônibus parara no estacionamento do Oásis Graal, para um intervalo de 15 minutos na viagem, o padre disparou porta afora, impaciente. Ela não fazia idéia do que o apressava, mas faria sentido a alusão bíblica daquele nome para ele? Estaria pensando no cálice sagrado, enquanto bebia a coca-cola no balcão ao lado do qual ela podia vê-lo encostado?&lt;br /&gt;Acomodada na poltrona, lembrou do que dizia seu ex-marido a respeito da má sorte que trariam as freiras nas viagens aéreas: “Se entrar num avião e me deparar com uma freira, volto para atrás na mesma hora. Elas dão azar...”&lt;br /&gt;- “Será que a lógica se aplica também aos padres?” – pensou&lt;br /&gt;De repente, antecipou o medo que sempre sentia ao atravessar a ponte Rio-Niterói. Toda a vez, imaginava que o ônibus ia despencar naquele abismo...” Tranqüilizou-a, porém, surpreendentemente a presença do padre ali ao seu lado: “Pelo menos, teria ele para me dar a extrema unção. Isso é confortante! Apesar de eu nem ser católica. Mas numa situação dessas, quem pensaria nisso?”&lt;br /&gt;Um dúvida e um sobressalto: “Já que ele é tão conservador, vai ver que vai se negar, dizendo que encomendar a alma de uma judia contraria a missão de uma padre católico. Sei lá!”&lt;br /&gt;Mais adiante, o ônibus passou em frente àquele cemitério-parque que se estende ao lado da rodovia, com as montanhas ao fundo, realmente uma bonita paisagem. Uma placa convidava os vivos a pensar no futuro inevitável, com um linguajar de anúncio imobiliário: “Mais que um cemitério, uma pintura...”&lt;br /&gt;Enquanto isso, alguma coisa preocupava o padre, Adriana podia notar. Tentava ligar para alguém, do celular. Depois de algumas tentativas, finalmente conseguiu: “Poxa, você desligou o celular? Estou chegando, leva o livro.”&lt;br /&gt;Aproximavam-se da ponte. O mar negro e oleoso do fundo da Baía, as garças branquíssimas contrastantes. De repente, o padre se levantou, fez um aceno de despedida e desceu no último ponto de ônibus.&lt;br /&gt;-“Filho-da-mãe! – pensou ela indignada. – “Ele não podia fazer isso comigo! Vou ter que atravessar a ponte, novamente, sozinha?!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;novembro 2005&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-7407787276051310203?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/7407787276051310203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=7407787276051310203' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7407787276051310203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7407787276051310203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/o-padre-o-padre-sentou-se-ao-seu-lado.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-4880214761444269065</id><published>2008-01-01T07:08:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T07:08:44.956-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O massacre das focas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não queria seguir seus pensamentos, e ficou a olhar para eles:&lt;br /&gt;“Eu devia ter pago a conta de luz na sexta feira – agora não vou mais poder pagar pela Internet – vou ter que ir ao banco – e segunda feira é o último dia do mês – certamente vou enfrentar uma fila – principalmente na hora do almoço, que é meu único tempo livre para resolver essas burocracias – e aí corro o risco de chegar tarde na reunião da Associação Comercial – logo no dia da posse da nova diretoria – ainda mais que eu sou agora o segundo tesoureiro, vai pegar mal – além de que eu queria chegar uns quinze minutos antes para levar um papo com a Clotilde – bonitona a Clotilde.... – a maior sorte ter encontrado ela na loja de CDs naquela noite – o pretexto para a abordagem foi idiota, mas perfeito – você conhece este último CD do Chico? – e aí, papo vai, papo vem – que tal tomarmos um sorvete aqui do lado? – e ela parece que foi com a minha cara – e eu nem estava com a minha melhor pinta – tinha acabado de arrancar um dente e a boca ainda estava um pouco torta por conta da anestesia – e até que o Dr. Jacson não cobrou um preço tão alto – um canal e uma coroa por 1.200 reais, em quatro vezes – não é caro, mas eu é que estou ganhando pouco – isso vai fazer falta – eu estava querendo ir pra Bolívia mês que vem – será que a Clotilde vai querer ir comigo? – ou é melhor convidar o Zéca – é, talvez esse tipo de viagem seja mais pra ir com um amigo – e pensando bem, nem minha namorada ainda ela é...”&lt;br /&gt;Percebeu que era um fluxo inesgotável. Uma coisa puxa a outra, e os pensamentos se encadeavam, se sucediam sem parar, infinitamente.&lt;br /&gt;_ “Mais inacreditável é que parecem ter vida própria. Eu não os comando!” – reconheceu exausto.&lt;br /&gt;Indiferentes à sua inquietação, os pensamentos continuavam a atropelar-se: “Eu não os comando - até parece que eles é que me pensam – isso é uma loucura – acho que ninguém mais se preocupa com isso – as pessoas pensam e só – quem manda eu ser tão esquisito? – desde pequeno que fico brincando com as idéias – até parece que tem mais um cara dentro de mim – me enchendo o saco, me aporrinhando – o que eu digo, ele duvida – me questiona, me deixa indeciso – eu quero ir e ele pergunta se quero mesmo – tem certeza? – tem hora que eu vacilo, ele me deixa de cabeça quente! – será que eu sou mais de um? – bem que o cara do centro espírita me avisou – meu filho, você precisa freqüentar mais, se desenvolver, assim você atrai esses espíritos ruins e eles ficam te atormentando”.&lt;br /&gt;O filme já ia começar. O documentário sobre o massacre das focas no Canadá puxou sua atenção e apaziguou a torrente de pensamentos.&lt;br /&gt;- “O governo canadense aprovou recentemente um aumento no número total permitido para a caça de focas no país: até 350 mil animais podem ser abatidos este ano. As focas de ‘pele branca’ (com até duas semanas de idade) continuam protegidas como resultado de ações do Greenpeace e de outras organizações nas décadas de 70 e 80, quando alguns dos piores abusos contra os direitos dos animais foram banidos. No entanto, as focas adultas são abatidas legalmente sob a legislação do Canadá”...Ele cruzou duas pernas. As outras duas, estendeu sobre a poltrona da frente, aproveitando que o cinema estava meio vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;outubro 2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-4880214761444269065?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/4880214761444269065/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=4880214761444269065' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4880214761444269065'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4880214761444269065'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/o-massacre-das-focas-ele-no-queria.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-7907710110513191809</id><published>2008-01-01T07:07:00.001-08:00</published><updated>2008-01-01T07:07:50.311-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Tratando mal o gato&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não estava nem aí pras contas, e sobrava para Eva administrar a papelaria e também a casa e as crianças. O Silvio só queria saber de receber a “mesada” no fim do mês. Que ela descontasse o que cabia a ele pagar das despesas, e desse pra ele o dinheiro limpinho, pra que gastasse no bar, no cigarro, nos livros.&lt;br /&gt;Quando Eva começava a se sentir explorada, ele fazia uma meia dúzia de elogios a respeito de sua habilidades de gerência, a capacidade que tinha de economizar, ao carinho com que cuidava dele, e Eva acreditava, mesmo sabendo que, embora aquilo fosse verdade, dito naquela hora, servia apenas para aplacar seu mau humor, deixando tudo como estava.&lt;br /&gt;Antes de casarem, Eva também lia muito. Agora, não tinha tempo. Ou talvez tivesse perdido a vontade.&lt;br /&gt;Só se deu conta, porém, de que as coisas não podiam continuar desse jeito, quando se surpreendeu tratando mal o gato.&lt;br /&gt;- “Que gato chato!” – murmurava irritada, cada vez que o bichano pedia comida. Bem verdade que, estando ou não com fome, o gato miava toda vez que ela chegava da rua, querendo entrar em casa. Mas, tempos atrás, ela, compreensiva, argumentara com Silvio que aquela era uma maneira dele expressar sua afeição pelos donos. E até sugerira que colocassem só um pouquinho de ração no prato, já que ele miava mesmo com o prato cheio.&lt;br /&gt;Para onde fora aquele seu carinho pelo gato? Nem o chamava mais pelo nome – Coringa -, alegando para si mesma que gatos não precisam ter nome, já que, arrogantes, não atendem quando chamados.&lt;br /&gt;E assim Eva implicava o dia inteiro com o gato. Chegava a ser bruta quando sacudia a cadeira da sala de jantar – lugar preferido dele -, na hora em que iam dormir. O felino saía, bem devagar, como para ganhar tempo e ver se ela desistia de botá-lo para fora. Às vezes, tentava voltar para a sala e ela era obrigada a gritar: “Fora, fora!”.&lt;br /&gt;Antes, não era assim. Lembrou de como costumava passar no gato seu pé descalço. Ele, virando de barriga para cima, todo dengoso, ronronando. E de como o Coringa, mal a via deitar no sofá para ver televisão, se aboletava em cima dela, depois de dar umas voltas engraçadas em torno do próprio rabo.&lt;br /&gt;Quando percebeu sua descortesia com o gato, lembrou também que já estava há seis meses sem visitar seus pais. E de como inventava mil desculpas para justificar que tinha que sair, quando eles falavam em fazer um visitinha. – “Aquelas mesmas conversas – antecipava, entediada – os problemas de saúde, a falta de grana, as reprimendas de que as crianças não ligavam para saber dos avós”.&lt;br /&gt;Lembrou depois dos amigos que fora abandonando pelo caminho. No início, pensou que recusava os convites para ficar mais tempo sozinha com o Silvio. Agora, desconfiava que era para evitar que vissem como ele era chato e com que descaso a tratava. Ela já via isso. Mas, se os amigos vissem, ela teria que ver mais ainda.&lt;br /&gt;Já que não conseguia dormir, resolveu limpar com a escova o sofá da sala, cheio de pelos do gato. Foi então que Eva olhou as paredes e viu que precisavam ser pintadas. Nos cantos da sala, o branco da tinta já estava escuro, e nos rodapés, onde a cera verde da ardósia esbarrava, a aparência era de sujo.&lt;br /&gt;Quando deu um passo atrás para colocar de volta as almofadas, ouviu um miado esganiçado. Tinha pisado no gato, deitado, para variar, bem no meio do caminho.&lt;br /&gt;- “Que lugar pra ficar! Shshshshshsh, vai acordar todo mundo!” – sussurrou, pensando que não tinha a menor vontade de pegá-lo no colo e pedir desculpas, como teria feito em outros tempos. &lt;br /&gt;Tomou um copo de leite morno e se atirou lânguida, no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-7907710110513191809?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/7907710110513191809/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=7907710110513191809' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7907710110513191809'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/7907710110513191809'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/tratando-mal-o-gato-ele-no-estava-nem.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-1802800257416090106</id><published>2008-01-01T07:05:00.000-08:00</published><updated>2008-01-01T07:06:15.719-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Paixonite aguda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira vez que seu coração de menina-moça bateu por um homem, não foi exatamente por um homem. Era um artista de cinema. A foto de Richard Chamberlain fazia parte da sua coleção de artistas. Ao lado de Anthony Perkins, James Garner, Gregory Peck, Rock Hudson, John Saxon, George Chakiris, Troy Donahue, Tab Hunter, Tony Curtis e Elvis Presley. Fotos com os cantos cortados, num álbum que não cansava de folhear pra frente e pra trás, a cada dia. A vida de todos acompanhava, de ler na revista Cinelândia. Não via nenhum deles nos filmes – naquela idade, preferia ver desenho animado. Só o dito cujo, que trabalhava num seriado da TV – Dr.Kildare -, que ela não perdia por nada no mundo.  Num outro canal, passava outro filme de médico, que algumas amigas suas preferiam – o Ben Casey -, mas ela achava o Vince Edwards peludo demais.&lt;br /&gt;Depois, veio a paixão pelo Roberto. Roberto Carlos, o cantor. Ai, quantas tardes passou com a orelha colada na caixa de som, os olhos marejados...&lt;br /&gt;“Como vai você?&lt;br /&gt;Que já modificou a minha vida, Razão da minha paz já esquecidaNem sei se gosto mais de mim ou de você”.&lt;br /&gt;Nessa ocasião, experimentou o primeiro ciúme – um aperto no coração quando soube que “o rei” estava tendo um caso com a Wanderléa. Mas aí reparou que o nome dela tinha uma parte do seu – Léa. Aquela coincidência tinha uma razão. Ela não sabia qual era, mas de repente ficou mais conformada.&lt;br /&gt;Jair, seu primo, era um belo rapaz, e a atraía. Encontravam-se uma vez por ano, no aniversário da avó, no Realengo. Só que os dois não falavam. Um oi na entrada, um tchau na saída – no máximo. Léa conversava mesmo era com o irmão dele, o Milton, que era mais novo. E mais feio. Com este, não ficava tímida. Falavam de mil coisas e ela imaginava que Jair observava os dois, curioso. Só que não tinha coragem de conferir.&lt;br /&gt;Num certo verão, foi com a família para um hotel-fazenda na Posse, perto de Friburgo. O dono era um senhor de meia-idade, que ali morava com a mulher e a filha Ariane. Léa caiu de amores pelo Seu Júlio e passava longas tardes na varanda da casa principal se perguntando por que ela não tinha nascido antes. Se tivesse a idade da mulher dele, certamente ele iria olhar pra ela de outro jeito, pensava. E aquela era uma barreira intransponível.&lt;br /&gt;Mas, a paixonite aguda ainda estava por vir. O Arnaldo freqüentava o mesmo colégio que ela. Felizmente, quando Léa e as amigas dividiram o território, nenhuma outra menina o escolheu. O Sérgio era da Denise, o Marcelo era da Soninha, o Marcos era da Sofia. Eles não sabiam de nada, nem nunca saberiam.&lt;br /&gt;Uma vez, passou pela turma um caderno de recordações, como todas costumavam fazer. Cada um escreveu lá uma coisa – uma poesia, uma frase, um desenho. A primeira vez que leu o que o Arnaldo tinha escrito, ela achou que era uma confissão de amor:&lt;br /&gt;“Deixo aqui essa recordação dos bons tempos de colégio, dos dias alegres e dos amigos, em cujo número sempre desejo estar.&lt;br /&gt;Com respeito e admiração&lt;br /&gt;Arnaldo”&lt;br /&gt;Cada vez que relia, porém, mais se decepcionava. Se ele queria ser sempre seu amigo, é que não tinha nenhuma intenção de ser seu namorado. E que história era aquela de respeito e admiração? Puxa, não era esse sentimento que queria inspirar nele!&lt;br /&gt;Um dia, passou com uma amiga em frente ao prédio onde o Arnaldo morava, no Catete. Aproveitando a distração do porteiro, pegou uma folha do jardim. “Querido diário – escreveu à noitinha – esta é uma planta do jardim dEle! Olha que linda!”&lt;br /&gt;No aniversário do Arnaldo, ela levou o disco novo do Pepino di Capri pra emprestar e esqueceu lá. Quando ele devolveu, o disco tinha entranhado o cheiro da madeira da vitrola. Hum, como era bom aquele cheiro! – pensava ela, a cada fungada.&lt;br /&gt;Dava trabalho aquela paixão. Somar os números das placas dos carros, pra ver se eram iguais à soma dos algarismos equivalentes ao nome e sobrenome dele. Assistir na TV as partidas de futebol dos domingos – ela, que sempre odiara – só pra saber se ele, que era torcedor fanático do Flamengo, ia estar de bom ou de mau humor nas aulas da manhã de segunda feira. Ler, além do seu próprio horóscopo, o dele. Assim, poderia tirar melhor partido das situações.&lt;br /&gt;Quando descobriu que o Arnaldo freqüentava as terças e quintas o curso de inglês a dois quarteirões de sua casa, Léa se alvoroçou. Como as aulas terminavam pontualmente às 5 da tarde, ela saía sob qualquer pretexto às 4 e quarenta e cinco, atravessava o sinal, dava a volta no quarteirão (cada dia numa direção, pra disfarçar) e, controlando o relógio, passava “por acaso” na frente do prédio do curso. Era tanta estratégia para esses encontros casuais, que não sobrava muita energia (e nenhuma coragem) para falar com ele. Um “oi, tudo bem” e voltava pra casa. Aí lembrava de tudo que podia ter falado – não entendia porque, simplesmente, não conseguia pensar, quando estava na frente dele. No diário, anotava, então, para falar depois, o que nunca acontecia.&lt;br /&gt;Se a convivência no colégio era cheia de emoções, o encontro com ele, no baile que quase sempre acontecia aos sábados, no clube, era insuportável. É que ali havia um risco bem concreto. Ele poderia tirá-la pra dançar. Entre o medo e o desejo, Léa, inquieta, sentia-se mal, ficava enjoada. Às vezes, tinha que correr para o banheiro e vomitar.&lt;br /&gt;Mas o Arnaldo nunca dançou com ela. Então, Léa se acalmou. E se convenceu de que ele não queria era dar na pinta. Teve certeza disso, quando surpreendeu os olhares enviezados que ele lançava na sua direção. Tadinho, como é tímido! – pensou, compreensiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-1802800257416090106?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/1802800257416090106/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=1802800257416090106' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/1802800257416090106'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/1802800257416090106'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/paixonite-aguda-primeira-vez-que-seu.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-6127110457689540191</id><published>2008-01-01T07:02:00.000-08:00</published><updated>2008-01-01T07:04:40.054-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Exótica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não devia ter mais de 11 anos, quando teve, pela primeira vez, a grande dúvida. Era ou não era bonita?&lt;br /&gt;Primeiro, tentou descobrir por si própria. Diante do espelho comprido do armário de vestir, Madalena se olhou atentamente. Bem magra, os ossinhos do quadril à vista, marcando o pano fino do vestido tubinho, a clavícula junto ao pescoço revelando profundas “saboneteiras”. Lembrou do que lhe repetia a avó, cada vez que se encontravam: “Você tem que se alimentar melhor, minha filha, tem que ter uns quilos extras para perder se ficar doente”.&lt;br /&gt;Era verdade que ela não tinha quilos extras. Também pudera, não parava de crescer. Na turma da escola, era das mais altas. Só umas três ou quatro garotas ficavam atrás dela na fila para entrar na sala de aula. Tentava parecer menor, arqueando os ombros para a frente, o que não mudava muita coisa, além de reforçar o jeito desengonçado.&lt;br /&gt;Mais um motivo para a avó lhe pegar no pé: “Senta direito Madá, ajeita esses ombros!” Realmente, a velha senhora sabia do que estava falando. Sua aparência era sóbria e, mesmo não chegando aos cinqüenta anos ainda, parecia muito mais. O vestido, de uma estampa escura, contribuía para isso. Na cabeça esbranquiçada prematuramente pelo tifo, um coque cuidadoso não deixava um fio fora do lugar. Mas, a postura era impecável!&lt;br /&gt;Foi a mãe de Madalena, porém, que lhe contou, como se conta um segredo: “Vovó só senta nessas cadeiras duras, de espaldar alto, e só dorme de barriga pra cima – o que também evita as rugas – veja como a pele dela é lisinha”.&lt;br /&gt;Ainda na frente do espelho, Madá olhou para seus pés – enormes. Os sapatos de couro preto, amarrados com um cordão no peito do pé, faziam crer que ainda eram maiores. E faziam um barulhão quando andava, por causa da chapinha colocada na parte da frente da sola, para que durasse mais.&lt;br /&gt;Não conseguira convencer a mãe a comprar o modelo de duas cores que a Raquel usava. Essa sim era sortuda: nem baixa nem alta, narizinho arrebitado, cabelo liso, pernas bem torneadas, boca carnuda, grandes dentes. E, ainda por cima, rica. A melhor amiga morava com os pais numa cobertura em Botafogo e tinha até chofer.&lt;br /&gt;As roupas da Raquel eram compradas em loja, as dela, sua mãe mesmo costurava. Não sabia por que, mas não era a mesma coisa – tinha certeza que todos reparavam.&lt;br /&gt;Já estava ficando escuro, quando resolveu continuar se olhando em outro espelho. O banheiro de azulejos amarelos e pretos tinha, acima da pia, uma lâmpada comum. Madalena foi buscar a luminária fluorescente, recém comprada. Viu de bem perto seu rosto refletido. Admirou a cor dos olhos – o azul ficara com um tom violeta, iluminado desse jeito. Eram bonitos, reconheceu.&lt;br /&gt;Os cabelos encaracolados, porém, não obedeciam ao comando da escova. Pareciam ter vontade própria. Resolveu fazer uma “touca”, umedecendo-os e escovando para um e outro lado. Meia hora depois, por fim estavam lisos, como ela queria. Era só não pegar chuva. Isso tinha acontecido no sábado anterior, no caminho para uma festa de aniversário. E fora um desastre. Aí, além de enrolados, ficaram elétricos e nada os convencia a assentar na cabeça. Olhou-se de novo. Lamentou que os cabelos não lhe chegassem nem aos ombros.  Abriu, então, a caixa de fitas de pano e prendeu uma ao lado da outra com grampos, na cabeça. Balançou o pescoço e as tiras coloridas, que indo até o meio das costas lhe faziam cócegas, e achou que estava parecida com a Raquel.&lt;br /&gt;Quando o pai chegou lá pelas sete e meia da noite, Madalena se deu conta de que não tinha chegado a nenhuma conclusão. E decidiu tirar a dúvida: “Papai, você me acha bonita?”&lt;br /&gt;- Exótica, minha filha. Você é bem exótica – respondeu o pai, beijando-a na bochecha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;novembro de 2006&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-6127110457689540191?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/6127110457689540191/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=6127110457689540191' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/6127110457689540191'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/6127110457689540191'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2008/01/extica-ela-no-devia-ter-mais-de-11-anos.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-4540342071560493964</id><published>2007-12-31T15:31:00.000-08:00</published><updated>2007-12-31T15:32:47.446-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Vertigem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele chegara cedo demais à Rodoviária naquela manhã de quinta feira. Sentado numa das cadeiras do setor de espera, aguardava o ônibus, que só sairia às 9:15h para Búzios. Quase uma hora pela frente. Ficou esperando que o assaltasse o mal-estar que sempre lhe causava estar ali. Mas não veio nada, só uma sonolência e um afastamento. Augusto se olhava de longe, sentado no meio da pequena multidão, ali aglomerada.&lt;br /&gt;De onde vinha essa calma que lhe permitia estar lá e observar, ao invés de angustiar-se e fugir?&lt;br /&gt;A garota que passou à sua frente não tinha mais de 20 anos, esguia, sobre uns saltos altíssimos e finos. Comprou a passagem num dos guichês e dirigiu-se às filas de cadeiras. Por que não caía? Como se equilibrava? – se perguntou, enquanto a acompanhava com os olhos, aflito, até que finalmente a viu sentar. Indiferente à sua aflição, a garota nem se encostou no espaldar da cadeira, como ele teria feito, para ter certeza de que não iria desabar. Na pontinha do assento, ela exibia, vaidosa, as pernas longas e bem torneadas que, cruzadas, balançava pra lá e pra cá.&lt;br /&gt;Vindo do outro lado do salão, desafiando todas as leis da gravidade, apareceu em seguida um homem de uma só perna, manejando com tanta destreza as muletas que o amparavam, que parecia ter nascido com elas. Augusto reparou que a área de atrito das muletas com o chão era mínima.&lt;br /&gt;Olhou para a direita: dois homens vestidos com uns macacões amarelos faziam àquela hora a manutenção das lâmpadas. Ajeitaram a escada perto de uma fluorescente queimada. Enquanto um segurava, para firmar a escada, o outro subia. Quando chegou ao topo, o rapaz olhou pra baixo e Augusto imaginou que estaria olhando para o reflexo da escada sobre o piso brilhante. Resistiria ao convite de mergulhar naquela outra dimensão? Ou subiria, passo a passo, a escada refletida, na compulsão de trocar mais uma lâmpada, já que na sala simétrica também havia uma queimada?&lt;br /&gt;Por alguma razão recordou as aulas de Física do colégio. Tanto tempo depois e agora, finalmente, estaria entendendo o que era centro de gravidade? Residiria na Física a explicação daquela força que o puxava para o centro da terra, como se o chão encerado não fosse mais que uma película fina sobre o abismo infinito?&lt;br /&gt;O homem gordo, de barriga protuberante, tinha o centro de gravidade em algum ponto estratégico ao longo da espinha dorsal. A senhora de óculos, vestido de florzinha, apoiada no guichê da empresa rodoviária, dividia com o balcão a responsabilidade de manter-se em pé. A adolescente nostálgica, de olhos perdidos, tinha os cotovelos apoiados no puxador da mala, onde descansava parte de seu peso.&lt;br /&gt;Tudo de repente ficou mais claro: “quando o corpo de alguém se associa a um objeto ou a outro corpo, o centro de gravidade não é mais só da pessoa – sai por aí, vagando, até encontrar o lugar certo, entre os dois”.&lt;br /&gt;Junto ao balcão da lanchonete, sobre bancos de madeira muito altos, diversos rapazes estavam sentados. Augusto não têve dificuldade em imaginar um viajante apressado e distraído, empurrando um carrinho cheio de malas, abalroando o primeiro da fila e os viu cair uns sobre os outros, como um castelo de cartas.&lt;br /&gt;Quando desceu as rampas para o grande pátio do qual saíam os ônibus, continuou a observar. Chamou-lhe atenção a senhora sentada no banco do lado oposto à plataforma dos ônibus. Parecia esperar a hora certa e a quantidade de coragem necessária para sair dali e correr até o ônibus. Para isso, tinha que atravessar o pátio inteiro. Não ficou sabendo se ela atravessaria, já que o ônibus dele saiu antes.&lt;br /&gt;Passando em frente ao cais do porto, tranqüilizou-o a fileira interminável de containers – tão sólidos, sobre o chão. Mas, não conseguiu, por mais que tentasse, acreditar que a ponte sobre a qual o ônibus passava, a caminho da Região dos Lagos, fosse estável e não fosse se quebrar em mil pedaços, a qualquer momento, com a vibração dos caminhões.&lt;br /&gt;O barquinho de pescador, minúscula noz, amarrada a uma das pilastras da ponte, não parecia que fosse cair. Só se o mar, o grande mar azul escuro da baía, caísse em cima dele.&lt;br /&gt;Foi um dia estranho esse dia, em que Augusto observou sua vertigem.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, 2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-4540342071560493964?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/4540342071560493964/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=4540342071560493964' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4540342071560493964'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/4540342071560493964'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2007/12/vertigem-ele-chegara-cedo-demais.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-733397332083571462</id><published>2007-12-31T15:29:00.000-08:00</published><updated>2007-12-31T15:30:42.449-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Os três planos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mariana tinha uns 15 anos, quando no ginásio do colégio Alcântara, descobriu que a vida, o mundo, as pessoas, tudo que existe na face da Terra, é regido pelas regras da Geometria Descritiva.&lt;br /&gt;A professora era convincente. E tinha autoridade. Não houve quem, na turma, deixasse de ficar impressionado logo na primeira aula, quando ela, pegando um pedaço de giz em cada mão, escreveu com desenvoltura, uma frase pra lá e outra pra cá, como se estivessem de frente para um espelho.&lt;br /&gt;E se alguém ousasse conversar com o colega do lado no meio de uma explicação, ela nem pestanejava: tacava no sujeito e no cúmplice o tal giz, com toda força e, dependendo onde pegasse, podia fazer um bom estrago.&lt;br /&gt;No cenário formado pelos três planos, o triedro, as crianças foram apresentadas aos pontos, às retas e, finalmente, aos sólidos. E conforme a posição, projetavam sombras nas paredes.&lt;br /&gt;Começou com um ponto. Com dois, dava pra formar uma reta. Com três, definia-se um plano. Uma reta de frente para um plano, podia virar um ponto, se o ângulo fosse exatamente de 90 graus. Se um pedaço de reta estivesse paralelo a um dos planos, ele ia aparecer de tamanho idêntico na projeção. Se formasse um outro ângulo, podia crescer ou diminuir.&lt;br /&gt;Quando todos tinham entendido bem isso, Dona Sarita, resolveu complicar. E fez com que imaginassem as retas atravessando os planos. Depois mostrou como os planos podiam se interceptar e formar retas. Depois, como os sólidos, que tinham volume, ficavam, se fossem cortados pelos planos. Já os sólidos, entrando um por dentro do outro, podiam gerar figuras planas – um losango, um quadrado, um retângulo, um triângulo. Lá pelas últimas aulas do curso, dava para ouvir uma mosca voar, tamanha era a concentração da turma.&lt;br /&gt;Desafiou então: imaginem agora isso tudo em movimento. Uma reta girando em torno de um ponto pertencente a ela mesmo, forma o que? E um triângulo girando em torno de uma reta formada por dois planos que se atravessam?&lt;br /&gt;A esta altura, Mariana concluiu que estava aí a matriz de todas as coisas - a vida real e as aparências. Do mais simples ponto, parado, ao giro mais alucinado de um sólido completamente irregular em torno de uma reta posta em deriva.&lt;br /&gt;Imaginou então que, se em vez de um triedro, onde estavam projetadas as larguras, alturas e profundidades – as coordenadas espaciais -, houvesse mais um plano, este poderia representar o tempo. Por que ninguém teria pensado nisso antes? Ou será que ela era uma espécie de gênio, mais brilhante que qualquer um ali?&lt;br /&gt;Naquela noite, teve um sonho. Ela, a mãe e o pai estavam sentados à mesa de jantar. As paredes atrás deles eram de espelho. No prato dela, só no dela, pedaços de giz esperavam para ser engolidos. No espelho, porém, eles se refletiam como nacos da aipim. Ela tentava falar pra sua mãe que não podia comer aquilo, mas a voz não saía. No espelho a frente dela, para sua maior aflição, não era a mãe que via, mas Dona Sarita, fazendo caras e bocas insinuantes, com o rosto bem colado ao do seu pai.&lt;br /&gt;Era domingo e acordou meio desconcertada, duvidou da eficácia daquela teoria, achou que a professora podia não ser muito confiável. Mas, no final do dia, já tinha se esquecido do sonho e estava tranqüila. Nos meses que se seguiram, constatou que a vida ficara mais fácil. Se brigava com uma amiga, imaginava que era porque estavam em planos diferentes. Tinham ficado amigas porque era pontos que pertenciam a uma reta, que resultara da interseção desses planos. Só que a partir de um certo momento, embora guardassem a mesma direção, seguiam sentidos diferentes. Mas que momento era esse? Algum poliedro giratório viera de não sei onde e esbarrara num dos planos? Sempre restava uma incógnita, mas como parecia que era ela quem decidia, ficava menos nervosa.&lt;br /&gt;Quando duvidava do amor do namorado, colocava a dúvida dentro de uma esfera suspensa no ar, no interior do triedro, e olhava com atenção o reflexo dela nos três planos. Então, se assegurava que não havia uma só explicação para o afastamento dele nas últimas semanas. Certamente, podia estar enamorado de outra, mas também podia estar afetado pelas brigas entre seus pais, que estavam por se separar. Ou, simplesmente, podia estar deprimido com as notas baixas na prova de Química. E, se porventura, a esfera estivesse nas posições de coordenada negativa, então, as justificativas se multiplicariam, ampliando as possibilidades.&lt;br /&gt;Muito tempo depois, com nostalgia, Mariana iria se lembrar dessa época, em que podia escolher seu próprio destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, 2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-733397332083571462?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/733397332083571462/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=733397332083571462' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/733397332083571462'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/733397332083571462'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2007/12/os-trs-planos-mariana-tinha-uns-15-anos.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-6369443698718384065</id><published>2007-12-31T15:23:00.000-08:00</published><updated>2007-12-31T15:26:13.834-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Sofia, a crédula&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas mulheres que caminhavam na direção contrária a sua conversavam animadamente e não tinham nenhuma pressa. Sofia diminuiu o passo e resolveu esperar que passassem, para começar seu pequeno ritual. O dia estava esplêndido. E como ainda era cedo, se podia sentir um friozinho no ar, deixado pela leve névoa recém dispersada. Ela andava na beira do mar, os pés chapinhando na espuma das ondas sonolentas. Era ali, nessa faixa de encontro entre o mar, o ar, a areia e os raios do sol, que “recarregava suas baterias”, diariamente, havia já dois anos, seguindo os conselhos da Dona Dalva, a médium com quem se consultara no centro espírita do Engenho de Dentro.&lt;br /&gt;Agora, as mulheres, sem interromper a conversação, tinham passado, e não havia mais ninguém por perto.&lt;br /&gt;- Espíritos superiores – disse ela, se concentrando – me permitam deixar nesta praia, que este mar leve, o medo, a insônia, as doenças, a solidão, a falta de dinheiro, os problemas no trabalho, tudo o que atrapalha meu desenvolvimento espiritual e que eu sirva de veículo para o desenvolvimento espiritual dos outros seres.&lt;br /&gt;Enquanto falava (em silêncio) ia imaginando aquelas coisas todas caindo no mar e sendo levadas embora.&lt;br /&gt;- Será que esqueci alguma? – indagou para si mesma.&lt;br /&gt;- Ah , falta o Amén.- lembrou.&lt;br /&gt;Sofia continuou caminhando na beira do mar, até estar quase em frente a servidão, por onde tinha chegado na praia. Aí, escolheu um pedaço mais seco da areia e sentou. Respirou fundo e reiniciou a conversação com os “espíritos superiores”:&lt;br /&gt;- Permitam agora que entre em mim esse azul escuro, que é do mar. Esse azul claro, tão leve, que é do céu. Essa espuma tão branca. As nuvens macias. A transparência e a profundidade das águas. A rapidez do vento. O ritmo das ondas. O equilíbrio das gaivotas.&lt;br /&gt;Tinha dias em que pedia coisas mais concretas, como “um bom namorado, achar uma casa nova para morar, a desejada promoção no trabalho, inspiração para a monografia de final do curso noturno de História”. Mas hoje, não sabia por que, preferia se preencher da paisagem. Ou como se fosse feita de espelho e refletisse aquilo tudo. Olhou de novo o mar e viu como aquela impressionante quantidade de água ia, exatamente, até o horizonte. Como se fosse um grande copo, onde não cabia nem uma gota a mais. Mesmo as ondas quando subiam, não alteravam nada, porque, no mesmo momento, outras desciam, mantendo a proporção.&lt;br /&gt;Vestiu a blusa por cima do maiô e se levantou. Teve a sensação de que esquecera alguma coisa: “Ah, o amén!”&lt;br /&gt;Só quando se aproximou das escadarias que levavam à servidão, foi que se deu conta de que não tinha pedido para entrar em sintonia com o universo e todos seres vivos.&lt;br /&gt;- Paciência, amanhã eu peço!” – murmurou, compreensiva.&lt;br /&gt;No quarto-e-sala que alugava nos fundos de uma casa de altos e baixos, a algumas quadras da praia, não sobrava muito espaço. Entre a mesa de jantar e o console, mal dava para passar. A porta do banheiro dava direto para a sala, aquilo lhe incomodava. Os armários não tinham porta, mas isso ela resolve pendurando uma cortina de tecido estampado. No entanto, era prático, e tinha condução na porta.&lt;br /&gt;Pelo que sabia, a edificação tinha sido construída inicialmente para o caseiro. No entanto, a vida ficara difícil para Dona Neusa, a inquilina, que morava na casa da frente. Com a morte do marido, ela se viu obrigada a alugar a meia-água. Foi mesmo uma grande sorte, Sofia estar passando bem em frente quando a velha senhora colocou a placa de aluga-se.&lt;br /&gt;E o sonho daquela noite lhe veio, imediatamente, à lembrança.&lt;br /&gt;Lá estava ela, espantada com o lixo que o mar estava trazendo para a praia. Tocos de madeira, garrafas, pedaços de roupa. Olhando bem, pensou que podiam ser restos de um naufrágio. Teve certeza disso, quando viu mais adiante, estendido de barriga para baixo sobre a areia, o corpo de um homem, já meio em decomposição. Do pescoço do indivíduo, pendia um enorme caracol, preso num cordão de pano que, num ímpeto, ela arrancou, e levou embora.&lt;br /&gt;Sofia interpretou aquilo como uma mensagem: que o náufrago era o marido de Dona Neusa e o talismã em forma de caracol, a casa que precisava. O cenário da praia, que lhe era bem familiar, explicava a intermediação dos “espíritos superiores”, cientes da aflição de sua procura por um aluguel conveniente, já há dois meses.&lt;br /&gt;Se tivesse anotado o sonho, como fazia quase sempre, no caderno espiral colocado na cabeceira da cama, teria ficado mais atenta. E até podia mostrar pra alguém, como prova de que tinha sonhos premonitórios. Mas só lembrou depois, no momento em que viu a placa. E um sonho contado depois do fato acontecer na vida real, não é mais premonitório – perde a graça – lamentou com seus botões.&lt;br /&gt;Naquela quinta feira, depois do carnaval, Sofia tomou o ônibus para o centro da cidade, pouco antes das oito e meia da manhã. A pousada, em que trabalhava de recepcionista, ficava no centro histórico, uns 15 minutos dali.&lt;br /&gt;Sentou numa poltrona, ao lado de um rapazote de jaqueta jeans. Há muito tempo, não tinha aquela sensação, que era freqüente na época em que cursava o ginásio no Colégio Ipiranga. Nessas ocasiões, tinha certeza de que era invisível. Quando a mulher gorda, carregada de sacolas, entrou pela porta da frente, ela teve um sobressalto.&lt;br /&gt;- E se ela sentar em cima de mim? – esticou o pescoço para tentar se ver no espelho retrovisor do motorista, e nada. Não alcançara o ângulo certo? Ou estava realmente invisível?&lt;br /&gt;Quando a mulher passou por ela e desabou com as sacolas no banco seguinte, Sophia respirou fundo: “Ufa!”.&lt;br /&gt;Inventara esse joguinho pela primeira vez para poder ouvir, sem ser vista, as conversas entre seu então namorado, o Alfredo, e a Sonia, pretensa rival. Depois, tinha perdido o controle. Assim, sem mais nem menos, acontecia de ficar invisível, independente da sua vontade.&lt;br /&gt;Na verdade, este era apenas um dos diversos poderes que ela tinha. Ou, pelo menos, gostava de pensar que tinha.&lt;br /&gt;Um poder que achava muito excitante era o de transmitir pensamentos. Quando se apaixonou pelo Gonçalo, no ano anterior, isso lhe foi muito útil. Era assim: quando estava conversando com ele, depois das aulas do cursinho de vestibular, entremeava o que dizia realmente, com o que queria dizer. É claro que o que queria dizer era dito em pensamento. Exemplo: “Sim, já estudei toda a história da revolução francesa, a tomada da Bastilha, a constituição de 1791, a república jacobina ... Ah, como você é lindo Gonçalo! Queria estar nos teus braços, rodopiando num desses bailes da monarquia francesa... Falta estudar a queda de Robespierre, o reinado de Napoleão”...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miriam Danowski&lt;br /&gt;Búzios, 2007&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-6369443698718384065?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/6369443698718384065/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=6369443698718384065' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/6369443698718384065'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/6369443698718384065'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2007/12/sofia-crdula-as-duas-mulheres-que.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8910813430592641971.post-5182694496364757029</id><published>2007-12-31T13:00:00.000-08:00</published><updated>2007-12-31T13:16:56.143-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-family:arial;"&gt;Quando eu vi você,&lt;br /&gt;Tive uma idéia brilhante,&lt;br /&gt;Como se eu olhasse de dentro de um diamante,&lt;br /&gt;E meu olho ganhasse mil faces num só instante,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Basta um instante,&lt;br /&gt;E você tem amor bastante.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:arial;font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Paulo Leminski&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8910813430592641971-5182694496364757029?l=miriamdanowski.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/feeds/5182694496364757029/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8910813430592641971&amp;postID=5182694496364757029' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/5182694496364757029'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8910813430592641971/posts/default/5182694496364757029'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://miriamdanowski.blogspot.com/2007/12/quando-eu-vi-voc-tive-uma-idia.html' title=''/><author><name>Miriam Danowski</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02658302858890354409</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='29' height='32' src='http://bp1.blogger.com/_Q1U-yJo8tR8/SIE9z_GfnFI/AAAAAAAAAEY/I76a9Z6m89c/S220/p%C3%A7a+detalhe.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
