Ficando calma
Quando uma situação a deixava particularmente nervosa, aflita, ansiosa, Maria da Glória, que era avessa a remédios, apelava para umas coisas que, vistas de longe, quer dizer, por gente que não a conhecia, poderiam parecer maluquices.
A primeira providência era separar um pouco de seu próprio cabelo e ficar alisando aquela mecha, continuamente, até que ficasse bem lisa, macia. Com o dedo indicador, então, tratava-se a seguir de rodopiá-la, no sentido dos ponteiros do relógio. Depois, era só prendê-la entre o dedo médio e o anular, enquanto a unha do indicador percorria a mecha pra baixo e pra cima. Essa técnica era, sobretudo, prática, já que podia ser praticada em qualquer lugar.
Havia uma outra, muito eficaz, no entanto de logística mais complicada. Dependia da boa vontade do seu gato Euzébio. Estando ele deitado no chão, ela só tinha que passar os pés descalços na barriga do bichano, pra lá e pra cá, devagar. Impressionante, a calma que isso lhe dava. Diga-se de passagem que o gato também gostava. Só não dava para ficar muito tempo, porque aí o gato é que ficava nervoso e passava a mordiscar seus pés, quando não enfiava as unhas com força no seu calcanhar.
Cantar também era uma boa solução para momentos estressantes. Na maioria das vezes, não dava para cantar em voz alta, mas em voz baixa era muito repousante. Maria da Glória tinha predileção por duas músicas em particular. Aquela do Caetano, que começa assim: “Gosto muito de você, leãozinho, de te ver entrar no mar, tua pele tua luz tua jubá” (tinha que ter esta entonação, senão não rimava e ela tornava a ficar nervosa). E uma música que ela não lembrava quem era o autor: “Andaluzia, pega o pandeiro e vem pro carnaval. Andaluzia, essa tristeza te faz muito mal...” Na verdade, a segunda parte da música é que era milagrosa, mas tinha que cantar a primeira antes, para fazer efeito. “Arranca tua fantasia, alegra o teu olhar profundo, que a vida dura só um dia Luzia, e não se leva nada deste mundo”.
Uma balinha de hortelã, daquelas bem fortes, também podia funcionar. Ela tinha uma hipótese: “enquanto a bala não terminava, nada lhe aconteceria”. Era como se a bala marcasse um tempo. Um tempo diferente do tempo lá de fora, no qual a situação ruim estava acontecendo.
Escrever “aragem”, muitas vezes seguidas, exagerando bem no arco do “g”, era um segredinho seu muito antigo. Descobriu o quanto isso era tranqüilizador quando escreveu a palavra no caderninho que ficava junto ao telefone, sem querer, falando com o namorado. Nesse dia, os dois brigaram feio, mas ela não se desesperou. E depois descobriu por que.
Tudo ia muito bem com a sua vidinha, assim desse jeito, equilibrada, até que Maria da Glória se apaixonou. Foi quando conheceu Luis Antônio. Uma semana depois, estava totalmente destrambelhada. Não comia, não dormia, tremia toda quando o telefone tocava.
Tentou todas as maravilhosas técnicas que desenvolvera durante anos, mas nada adiantou. Esqueceu a letra das músicas, o gato não cooperava, engoliu a bala e engasgou, deu um nó no cabelo que só saiu cortando com a tesoura. Tentou escrever aragem, mas tremia tanto que parecia que tinha escrito “bobagem” e depois só conseguia escrever isso.
Desesperada, invadiu o banheiro da mãe, escancarou o armário de remédios e meteu um “lexotan” pela goela abaixo. Mais tarde iria lembrar desse dia como o primeiro de sua vida adulta.
Miriam Danowski
30.03.2008
domingo, 30 de março de 2008
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