domingo, 30 de março de 2008
Quando uma situação a deixava particularmente nervosa, aflita, ansiosa, Maria da Glória, que era avessa a remédios, apelava para umas coisas que, vistas de longe, quer dizer, por gente que não a conhecia, poderiam parecer maluquices.
A primeira providência era separar um pouco de seu próprio cabelo e ficar alisando aquela mecha, continuamente, até que ficasse bem lisa, macia. Com o dedo indicador, então, tratava-se a seguir de rodopiá-la, no sentido dos ponteiros do relógio. Depois, era só prendê-la entre o dedo médio e o anular, enquanto a unha do indicador percorria a mecha pra baixo e pra cima. Essa técnica era, sobretudo, prática, já que podia ser praticada em qualquer lugar.
Havia uma outra, muito eficaz, no entanto de logística mais complicada. Dependia da boa vontade do seu gato Euzébio. Estando ele deitado no chão, ela só tinha que passar os pés descalços na barriga do bichano, pra lá e pra cá, devagar. Impressionante, a calma que isso lhe dava. Diga-se de passagem que o gato também gostava. Só não dava para ficar muito tempo, porque aí o gato é que ficava nervoso e passava a mordiscar seus pés, quando não enfiava as unhas com força no seu calcanhar.
Cantar também era uma boa solução para momentos estressantes. Na maioria das vezes, não dava para cantar em voz alta, mas em voz baixa era muito repousante. Maria da Glória tinha predileção por duas músicas em particular. Aquela do Caetano, que começa assim: “Gosto muito de você, leãozinho, de te ver entrar no mar, tua pele tua luz tua jubá” (tinha que ter esta entonação, senão não rimava e ela tornava a ficar nervosa). E uma música que ela não lembrava quem era o autor: “Andaluzia, pega o pandeiro e vem pro carnaval. Andaluzia, essa tristeza te faz muito mal...” Na verdade, a segunda parte da música é que era milagrosa, mas tinha que cantar a primeira antes, para fazer efeito. “Arranca tua fantasia, alegra o teu olhar profundo, que a vida dura só um dia Luzia, e não se leva nada deste mundo”.
Uma balinha de hortelã, daquelas bem fortes, também podia funcionar. Ela tinha uma hipótese: “enquanto a bala não terminava, nada lhe aconteceria”. Era como se a bala marcasse um tempo. Um tempo diferente do tempo lá de fora, no qual a situação ruim estava acontecendo.
Escrever “aragem”, muitas vezes seguidas, exagerando bem no arco do “g”, era um segredinho seu muito antigo. Descobriu o quanto isso era tranqüilizador quando escreveu a palavra no caderninho que ficava junto ao telefone, sem querer, falando com o namorado. Nesse dia, os dois brigaram feio, mas ela não se desesperou. E depois descobriu por que.
Tudo ia muito bem com a sua vidinha, assim desse jeito, equilibrada, até que Maria da Glória se apaixonou. Foi quando conheceu Luis Antônio. Uma semana depois, estava totalmente destrambelhada. Não comia, não dormia, tremia toda quando o telefone tocava.
Tentou todas as maravilhosas técnicas que desenvolvera durante anos, mas nada adiantou. Esqueceu a letra das músicas, o gato não cooperava, engoliu a bala e engasgou, deu um nó no cabelo que só saiu cortando com a tesoura. Tentou escrever aragem, mas tremia tanto que parecia que tinha escrito “bobagem” e depois só conseguia escrever isso.
Desesperada, invadiu o banheiro da mãe, escancarou o armário de remédios e meteu um “lexotan” pela goela abaixo. Mais tarde iria lembrar desse dia como o primeiro de sua vida adulta.
Miriam Danowski
30.03.2008
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008


Matéria publicada no jornal
O Perú Molhado edição 840
Axel Brummer e Peter Glockner, nascidos na Alemanha Oriental, entusiasmados com a queda do muro de Berlim, pegaram suas bicicletas e saíram mundo afora, a começar pela China. Depois, tiveram a idéia de construir um junco chinês (o que foi feito na Indonésia), igual ao barco que Marco Polo usou nas suas viagens.
Fizeram a travessia do Atlântico, saindo de Veneza, até a Alemanha. E também reproduziram a rota de Marco Polo.
Apaixonados pelo Brasil, eles chegaram a morar por cinco anos na Amazônia, e casaram ambos com mulheres daquela região. Nessa época, os dois, que não deixam escapar uma aventura, subiram o rio Amazonas de caiaque.
Desta vez, decidiram refazer a rota do Pedro Álvares Cabral. O barco aportou em Salvador e saiu, no dia 16, rumo à Búzios, onde chegou dia 23 de janeiro.
Essa viagem foi feita sem patrocínio, ao contrário da rota de Marco Polo, que teve apoio do governo alemão. De Búzios vão até ao Rio.
Só não sabem ainda o que vão fazer com o barco depois disso, já que têm planos de se estabelecer no Paraguai, onde já compraram terras e vão construir suas casas. Inclusive, aceitam sugestões.
No trecho Salvador-Búzios, aderiu à tripulação o advogado André Martins e sua filha Maíra. Ao todo são 15 pessoas, sendo três brasileiros e o restante de nacionalidades variadas.
Mas Axel e Peter, ao percorrer o roteiro de Cabral, querem mais do que vencer um desafio. Acreditam plenamente na hipótese, defendida por alguns autores ingleses, de que, antes dos portugueses, foram os chineses que chegaram às costas brasileiras. Será?
domingo, 13 de janeiro de 2008
Miriam Danowski. Búzios, outubro 2.000
Borja Blazquez: A subversão gastronômica
Diante da irreverência do jovem chef, nada se perde, tudo se transforma. O que era líquido vira sólido, o sólido vira espuma, o gelado vira quente, o doce e o salgado se confundem, já que a riqueza de texturas surpreende o paladar, e não só ele, mas também o olfato e a visão, levados a experimentar sempre novas sensações
Na cozinha performática, não é apenas o chef que está no palco, não é só o chef que comanda o espetáculo. O cliente é parte integrante do processo, não um agente passivo, não apenas um consumidor.
Sua figura de garoto – ele tem apenas 25 anos – não combina com a profundidade dos conceitos que enuncia, mas só enquanto não se sabe de onde ele vem e onde se formou, pois aí se deduz que boa parte de toda aquela sabedoria vem por uma via atávica, uma herança que faz daquela região da Espanha, um dos lugares mais culturalmente interessantes do mundo. Borja nasceu no País Basco, onde, aos 17 anos já cozinhava. Mas, sua verdadeira iniciação na gastronomia, em sua vertente mais revolucionária, se deu com os irmãos Adrià – Ferran e Albert -, em Gerona, Catalunha, durante os dois anos em que trabalhou no restaurante El Gulli. Essa cidade fica quase ao lado da cidade de Salvador Dali, Cadaqués.
Borja Blazquez ficou em Búzios por uma semana, convidado por Sonia, do Cigalon, em nome do Búzios Gourmet, para desfrutar da natureza generosa e para gravar uma edição do programa de culinária que faz para um canal de tv à cabo da Argentina – onde está morando atualmente -, o “Gourmet.com”.
“Depois de ter viajado por toda a Espanha, cozinhando nos melhores restaurantes d ela – ele conta – saí pelo mundo para absorver as novas tendências, conhecer novos produtos, aprender novas receitas. No Brasil, cheguei a ter um restaurante em Florianópolis, numa praia. Na Argentina, hoje, dou aulas, presto assessoria à restaurantes e estou fazendo esse programa, que se chama Maremagnum, que é transmitido por quase toda a América latina. Acredito que chegue ao Brasil, até o fim do ano”.
No programa, Borja cozinha pescados, mariscos, frutos do mar, pelos litorais mais bonitos do mundo inteiro. Ao ar livre, mesmo. Em Búzios, ele cozinhou em diversas praias, como a do Canto, Ferradurinha e até na Lagoinha, e se impressionou com a “boa energia que corre aqui”.
Desconstruindo receitas – Ele dá uma idéia das conseqüências práticas dessa cozinha tão subversiva: “Por exemplo, com manjericão, o que fazemos habitualmente? Podemos comer a folha, fazer uma infusão, um pesto, um creme. Na nova cozinha criativa, a partir da infusão, processamos o manjericão, escorremos e fazemos uma gelatina. Num sifão, usado para fazer cremes, jogamos essa gelatina e, com uma carga de ar, obtemos espuma, algo parecido com uma musse. Só que a musse normal levaria uns 30% de creme, 20% de gemas, 20% de claras, sobrando pouco para o manjericão. Com essas novas técnicas, conseguimos uma textura igual, sem adicionar nenhum outro sabor além do manjericão. Para fazer espumas, precisamos de muito pouca cocção, ou nenhuma. Ou seja, os alimentos não perdem vitaminas, clorofila, nem suas cores.”
Fala também do trabalho que fazem com os “granizados”: “Pegamos gelo picadinho e granizamos com sabores de limão, de cítricos em geral.
Ou usamos sucos, como o de tomate, salgado e apimentado, que congelamos e depois picamos bem. Fazemos também sorvete com alcachofras e flores, como as rosas.
Mas nada exprime mais eloqüentemente o que essa cozinha conceitualmente pretende do que suas técnicas de “desconstrução”.
Eles pegam uma receita tradicional e simplesmente a colocam de pernas para o ar, transformando os ingredientes, modificando sua textura, sua forma e sua temperatura.
Borja dá um exemplo: “Imaginem uma receita de risoto de almejas (lambretas) e lagostins. Os ingredientes são o arroz, as almejas, os lagostins, alho e salsinha. Em vez do arroz, faríamos um leite de arroz. Do lagostin, após uma vertiginosa passagem pela frigideira, e um amasso no pilão, captaríamos a essência, que está na cabeça, o coral. O caldo seria gelatinado e colocado num sifão para virar uma espuma de água do mar, com gosto de almeja. O alho, o fritaríamos em rodelinhas, bem dourado e a salsinha, também frita, para ficar crocante”.
O objetivo, que Lee não cansa de repetir, é destacar os atributos mais característicos de cada ingrediente, harmonizá-los, tudo com a maior delicadeza, com a maior sensibilidade.
Não é a toa que lê recomenda aos chefs atenção, prestar atenção à natureza, suas formas, e dela tirar idéias e ensinamentos para o preparo dos pratos.
Faz parte integrante dessas novas tendências da cozinha o estudo da Química Culinária. Ele explica: “A pergunta não é só como se faz, mas por que se faz assim e não de outra maneira. A diferença entre a carne vermelha e o pescado é, antes de mais nada, de natureza química. A carne vermelha contém muito mais colágeno, que é o tecido que envolve as fibras. Por isso, ela amolece, se suaviza quando a cozinhamos e, também, por isso ela resiste mais tempo. Já com o peixe, o contrário. Ele endurece ao cozinharmos, porque suas proteínas coagulam entre 60 e 70 graus. O pouco colágeno torna a carne do peixe mais perecível, mas é também essa a razão pela qual ele é tão bem digerido por nosso organismo”.
Para pesquisar essas coisas é que os irmãos Adrià se recolhem ao seu laboratório, em Barcelona, todos os anos, de 15 de setembro a 1 de maio. Durante esse período, o disputado restaurante Le Bulle fica fechado. Só por curiosidade, o menu degustação lá servido se constitui de 27 pratos diferentes e custa o equivalente a 180 reais.
sábado, 5 de janeiro de 2008
Búzios, agosto 2002
Canevacci:
“Búzios, metrópole comunicacional”
Entrevista a Miriam Danowski
A cidade está se preparando para fazer seu Plano Diretor e uma pergunta continua sem resposta. Que cidade nós queremos? Mesmo porque nem sabemos quem somos nós. Uma bucólica vila de pescadores? Um balneário democrático, acessível a todos? Um lugar chique, de turismo internacional?
Nessa Praia de Babel (d’aprés Marcelo Lartigue), vamos indo. De crise em crise, de temporada em temporada. Adorando quando os turistas chegam, mas logo torcendo para que vão embora e a cidade fique toda pra nós.
O projeto da Torre de Babel era ambicioso. Conectar a terra com o céu e conversar com os deuses diretamente, olho no olho. E deu no que deu. Crime e castigo – uma tremenda confusão, cada povo condenado a falar uma língua diferente, ninguém se entendendo.
Nós buzianos aprendemos a lição e fomos mãos humildes. Horizontalizamos o projeto e transformamos a torre em praia. Não falamos direto com os deuses, mas em compensação nos entendemos (quase sempre). Cada um por aqui fala uma língua, mas isso é o de menos. Numa dessas capas do Peru, se disse uma vez, por ocasião de uma copa do mundo, que Búzios não tinha dúvida de que ia ganhar. Claro, são tantas as nossas nacionalidades, que uma delas ganharia.
Seríamos tudo isso ao mesmo tempo? Bucólicos, chiques, democráticos? Cosmopolitas, pescadores, deuses?
O antropólogo Massimo Canevacci, da Universidade de Roma, fala aqui sobre esse desafio do homem contemporâneo de habitar identidades múltiplas, inventar constantemente o presente, integrando o local com o global, sem tentar afastar os conflitos. Esta entrevista foi dada em sua vinda à Búzios, na última semana, para participar do Seminário de Antropologia Cultural e Comunicação Visual, organizado por Carmen Tatsch, pesquisadora da escola de Comunicação da UFRJ, que desenvolve, sobre a Rasa, a pesquisa “Resgate do Folclore como recurso à promoção de bem estar sócio-interacional”.
- Não é assim também com o dualismo esquerda-direita?
- Isso é um pouco complicado. Mas os partidos de esquerda não compreenderam ainda muito bem esse processo de mudança, por isso, às vezes, a direita ganha mais facilmente, pois embora não domine a teoria, sabe na prática. Berlusconi, o primeiro ministro da Itália, é um exemplo. Ganhou as eleições com relativa facilidade por ser homem das comunicações, donos de tvs e jornais. A comunicação é política. E a direita sabe fazer essa relação entre a política e a comunicação. Hoje, você tem que saber intervir na luta dos signos, dos símbolos de comunicação – o jeito de vestir-se, de fazer música, de utilizar o corpo. E, no corpo, nada é natural. Tudo é construído, através de formas culturais. A esquerda e, de modo geral, as ciências sociais, tem dificuldade de entender. Que o corpo não é natural, mas uma construção. Cada indivíduo é muito particular e na sua vida quer produzir e não herdar. Isso significa que a identidade pode ser múltipla. Inclusive eu, num mesmo dia, posso atravessar identidades diferentes. Agora estou aqui, com esta roupa, falo com você. Antes, eu era outra pessoa. Esta noite, não sei onde vou, que roupa vou vestir, que música vou ouvir.
- Isso não causa uma certa vertigem?
- Está certo. É uma grande vertigem, mas também um grande desafio. Pode ser percebido como fratura, fragmentação, onde você pode perder. Há uma tradição de ler os fragmentos como uma coisa ruim. A minha perspectiva é muito diferente. Eu gosto da fragmentação do meu eu, dos meus eus. O plural do eu não é nós, é eus. É uma pluralização da minha individualidade. Que eu quero chamar “multividuo”. Uma multiplicidade de subjetividades, que eu posso, como um cyber-pirata, por exemplo, conseguir através da Internet. Lá você pode adquirir a identidade que quiser.
- É como a liberdade que a gente tem hoje de não ficar assistindo um único filme ou um único canal na TV? Com o controle remoto, editamos a nossa programação, construímos nosso próprio canal.
- Sim, cada pessoa constrói sua própria viagem, que é totalmente individual. Não é uma experiência comum. Nesse sentido, também, a dimensão coletiva, comunitária, é uma coisa horrorosa. Todo mundo aqui fala da comunidade de Búzios, mas a comunidade significa que não tem uma diferença entre os indivíduos. A comunidade deve resolver tudo, sem conflito, sem diferenças, sem controle. Em primeiro lugar, comunidade é controle. Um controle terrível. É difícil sair do controle da comunidade. A palavra comunidade parece que tem um poder mágico, de resolver os conflitos – religiões, partidos, individualidades, jeitos de viver. Mas não existe isso. E se existisse seria uma coisa horrorosa. A diferença é fundamental. O passado da modernidade foi saber escolher o que era comum. Agora, é poder escolher a diferença entre as pessoas. Este é um momento fascinante. A diferença tem a mesma importância que uma vez teve a identidade. A gente está transitando de um sistema lógico, político, filosófico, antropológico, fundado sobre a identidade, para um sistema muito mais complexo, onde a diferença é que funciona. E isso significa que num mesmo sujeito também estão as diferenças.
- Diante do “multividuo”, como fica a questão da representação, mesmo a política? Já que cada um é muitos, como se fazer representar?
- Na minha opinião, está acabando um sistema político baseado nos partidos. A forma “partido” nasceu, alcançou a maturidade, envelheceu e está morrendo. Que novas formas, “pós-políticas”, podem ser inventadas? O conceito é meio ambíguo, não sei o que dizer... Gosto também de falar das formas apolíticas. Porque a matriz da política é a Polis, a cidade, a modernidade. Se o contexto é a metrópole comunicacional, também a política, como uma forma lingüística, como um conceito, não é mais adequada. Tanto na Europa, como nos Estados Unidos - no Brasil, também, está nascendo – aquilo que se chama “tatz” (temporary autonomous zone = zona temporariamente libertada). O melhor exemplo para isso é a rave, uma festa ilegal, que você faz em uma velha fábrica abandonada, onde você pode convocar, de uma maneira informal, dezenas de pessoas. Por uma noite, ou duas, a velha fábrica, que era o lugar da produção, volta a ser um espaço de liberdade, com música inovadora, etc. Momentos temporários de liberdade são fundamentais para se viver numa multiplicidade. Porque, se você pára, você fica numa condição de estabilidade e, em grande parte, reproduz o poder.
- Voltando a Búzios, com suas inúmeras nacionalidades...
- Você estava me dizendo que um levantamento estatístico apontou que quase 50 etnias diferentes estavam presentes em Búzios. A tentativa de restabelecer uma Búzios de pescadores – como era bonita a Búzios da minha infância, dava muito peixe, as casas ficavam dia e noite com a porta aberta, toda essa brincadeira. Isso não pode mais existir. Agora, Búzios é um espaço, mais que um lugar. Lugar é muito identificativo, espaço é bem mais fluído, multiplicativo, no qual a tensão, o desafio, entre o que é bem localizado e o que é bem globalizado se produz. E o desafio não pode se resolver de uma só maneira, restabelecendo apenas o “local” ou ficando somente no “global”. É o que a gente gosta de chamar “glocal”, uma tensão constante entre o local e o global. E cada pessoa pode tentar inventar a sua resposta. A resposta não pode ser uma identidade de Búzios. Nunca vai ser isso. (Risos...) Búzios será sempre mais um espaço de liberdade e de experimentação, se transcorrer nesse tipo de fluxo e lidar constantemente com sua pluralidade de identidades.
- Como podemos aqui em Búzios pensar sobre a cidade, já que vamos fazer nosso Plano Diretor, dar os rumos para onde a cidade deve crescer ou se desenvolver. Como isso vai se expressar no espaço?
- É a mesma coisa. O que falei se refere também ao Urbanismo e à Arquitetura. Búzios não pode ser o que foi uma vez, nem como é Las Vegas. Búzios tem que inventar sua própria forma. Fiquei muito impressionado com aqueles trabalhos expostos no seminário, feitos com giz, muito original. Assim é com o Urbanismo e a Arquitetura. Você tem que inventar formas inovadoras. Você não pode, por exemplo, parar o consumo. A cidade era a da produção, agora é do consumo, que é tão importante quanto a comunicação. Mas o que significa consumo? Uma cidade como Búzios, que tipo de consumo tem que oferecer? Não somente ao habitante, mas também ao estrangeiro. Isso pede novas formas na Arquitetura. O arquiteto mais interessante da contemporaneidade é o que sabe produzir formas que não são mais paradas, mas múltiplas. Que se movem. No Japão, na Holanda, há muitos arquitetos bem experimentais, cujos edifícios não param. O exemplo pode ser banal, mas veja o Mexicoloco...
- Ah, o Guapoloco...
- O que o Guapoloco fez? Utilizou um tipo de Arquitetura desconstrutiva, modificando a perspectiva (fazendo-a oblíqua), que foi utilizada por muitos arquitetos experimentais dos anos 80 e 90. Você pode entender que aquela multiperspectiva, embora seja uma tentativa um pouco simplista e banalizadora, segue uma tendência da arquitetura contemporânea, muito interessante. Muitos arquitetos contemporâneos não querem fazer lojas, casa, espaços, na forma da perspectiva tradicional, preferem a multiperspectiva e acabou. Libenskind, Ghery, Ito, diversos arquitetos estão produzindo novas formas. Acho que Búzios podia ser um espaço onde esse tipo de arquitetura inovadora pode produzir um urbanismo diferente. Que está no presente, mas que produz futuro. E não se congela no passado dos pescadores.
- Nós arquitetos estamos muito incomodados com os muros, que estão mudando a cara da cidade.
- As casas no lado esquerdo da Praia do Canto, que chegam até o mar, parecem fortalezas. Você passeia pela praia e tem esse muro, que é um horror. Você fecha a relação entre a cidade e o mar com esse tipo de privatização. Incrível, a estrutura arquitetônica é horrorosa. Não sei como o município de Búzios permite uma coisa assim, deviam ser destruídos.
- Também acontece com os condomínios – bairros dentro de muros. Explica-se pelos problemas de segurança, mas é horrível.
- Sim, urbanisticamente, é uma coisa horrorosa.
- Discutimos muito por aqui, também, a preservação do estilo de Búzios. Que está se perdendo.
- Você não pode reproduzir a casa do pescador dos anos 50. É uma coisa simplesmente ridícula, não funciona. Os arquitetos têm que fazer novas formas arquitetônicas, que respondam às normas da administração da cidade, mas que permitam as pessoas escolher. Essa relação entre a forma de arquitetura experimental e a forma da arquitetura ligada ao contexto é fundamental.
Búzios maio 2007
O tanque da Harley
Os desafios que o professor de literatura gostava de propor aos seus alunos já tinham ficado famosos na história do liceu. Não se contentava em sugerir um tema ou um título. Preferia propor uma frase, que os alunos tinham que dar um jeito de encaixar nas dissertações. No quadro negro, escrevera a frase da dissertação do mês: “… E escondeu o punhado de cânfora no tanque de sua Harley”.
Matias virou-se para José e comentou: “Oba, sei tudo sobre motos, essa vai ser mole para mim”.
Gaspar, debochado como sempre, foi logo dando um jeito de driblar a tarefa: “Se a empregada do cara se chamasse Harley, ele podia esconder a tal da cânfora no tanque de lavar roupa dela...”
Encantava ao professor Gustavo, mais que o resultado final, os caminhos tão pessoais que cada um escolhia para resolver a empreitada. Para medir a reação da turma diante dessa sua nova proposta, olhou detidamente para cada aluno. E, com maior atenção, para o Tadeu, sentado como sempre na primeira fila, ajeitando de tempos em tempos o cabelo liso que teimava em cair-lhe sobre os olhos. Era mesmo bonito o rapaz, reconheceu o professor. Ainda mais assim, com a expressão intrigada de quem tentava decifrar uma charada.
O velho Gustavo se deu conta, mais uma vez, de que era a ele que seus desafios literários eram endereçados. Tadeu não era muito de falar, mas tinha uma percepção aguda. As poucas observações que fazia eram tiros certeiros.
Alheio à admiração do professor, o rapaz estava de fato entretido com a frase escrita com giz no quadro negro. Viu que precisava saber o que era realmente a cânfora e para que servia. Indagado, o professor explicou que a cânfora não é solúvel em água, mas que, com facilidade, se dilui na gasolina ou na benzina. Disse também que instituições de pesquisa têm denunciado a grande toxicidade da substância e que o governo tem tomado medidas para controlar seu uso na fabricação de esmaltes de unha e outros ítens da cosmética, no contato com crianças e pessoas doentes, principalmente.
Em seguida, Tadeu reparou que a frase falava de um punhado, que não deixa de ser uma medida de quantidade, só que muito imprecisa. “Um pouco parecida com pitada, que aparece na maioria das receitas culinárias, principalmente quando citam o sal como ingrediente” – pensou.
“Da mesma maneira, punhado deixa um bocado de arbitrariedade para o protagonista da receita”. Quando pensou isso, notou a palavra bocado, que é ainda mais imprecisa – tanto, que nenhuma receita costuma usá-la. Uma coisa sabia. Um punhado não é muito. E podia se referir a uma substância em pó, umas folhas, uns ramos....
No entanto, se a cânfora fora escondida no tanque da moto, esse “escondida” significava que o sujeito pensava em recuperá-la depois. E, sendo assim, provavelmente não a teria colocado ali na forma de pó. Só se não sabia que a cânfora iria se diluir. Ou será que teria um jeito de coar a gasolina e recuperar a substância original? Ou deixar a gasolina se evaporar, simplesmente?
Para esclarecer esse tipo de dúvida, teria que procurar alguém do curso de química. Mas antes, Tadeu preferiu investigar melhor o assunto. Na verdade, tinha um certo orgulho de sua organização mental, de testá-la nesses desafios. Olhou pro lado e viu a preocupação estampada na cara de vários colegas. Ele, no entanto, sabia que o importante era ficar tranqüilo e abordar todos os ângulos do problema, antes de tirar qualquer conclusão.
De repente, percebeu que havia uma coisa antes de todas. Uma espécie de invasão de domicílio. O professor dar um título, um tema, era aceitável, porque era claramente um exercício de poder. Mas querer que uma frase de sua autoria fizesse parte da redação alheia, era bem diferente, uma imposição disfarçada. Antes mesmo de encaixar a frase no texto, Tadeu começou a senti-la como um corpo estranho, um intruso. Depois, numa reversão súbita de sentimento, teve vontade de construir todo o conto ao redor desse estranho. Quando pensou “ao redor”, imaginou, é claro, um círculo, e a frase perto do centro, nem no início, nem no fim. Mas isso era muita submissão, uma aceitação incondicional da autoridade do mestre. Imaginou, em seguida, outra solução: largar a frase distraídamente em algum lugar do texto. Um lugar onde ela passasse quase desapercebida, onde não pudesse exercer qualquer tipo de contaminação.
Lançou um olhar para o professor, que lhe retribuiu sorrindo com cumplicidade, sem saber que o rapaz não estava se sentindo nem um pouco cúmplice. Ao contrário, o sentimento de Tadeu era mais de raiva. Só que uma raiva diferente, que lhe dava um certo prazer, e o aproximava do professor Gustavo, como uma vítima se aproxima de seu algoz.
O rapaz, vivendo a estranheza daquela emoção nunca antes experimentada, não fazia idéia da verdadeira razão desses jogos mentais postulados pelo mestre.
Gustavo era um homem esquisito, inquieto. Achava que nada de mal lhe acontecia. Nunca batera com o carro, nunca ficara seriamente doente, nunca fora demitido. Preso, por participar dos movimentos estudantis na faculdade, escapara ileso, sem ser torturado. Não porque tivesse delatado os companheiros, mas porque ninguém tivera nada para lhe perguntar. Sentia como se tivesse o “corpo fechado”. Isso era bom, mas era também motivo de angústia. Era como se a sensação de estar invisível, que ele tantas vezes tivera na adolescência, tivesse contagiado tudo. Como se ele não fosse muito real. Como se planasse, sem peso. Por vezes, desejou ter uma âncora. Ou uma coisa muito pesada, para amarrar no pé e voltar para o mundo.
Cada vez que sentava para ler um livro, acontecia coisa parecida: uma frase era o suficiente para alimentar meia hora de devaneios. Seu mundo interior não dependia quase nada do que vivia. Assim, quando começou a ensinar literatura, viu que aquela era uma ótima maneira de se apoderar da vida alheia. Isso sim, mobilizava-lhe a curiosidade e lhe atiçava o ânimo.
A idéia das frases-intrusas surgira durante sua diversão favorita dos fins de semana – a pintura. Mas ele não conseguia criar alguma coisa do nada. Sentiria vertigem se tivesse que pintar numa tela em branco. Preferia consertar o que alguém tivesse feito antes.
Num armarinho, comprava um pedaço pequeno de tecido, de preferência um retalho da banca de saldos. Colava aquilo numa folha de papel, com muita margem. E ficava horas ali, completando a padronagem, ampliando o tecido até suas novas margens. As vezes, completava só as linhas. Outras, estendia as cores. E, como lhe afligia a falta de limites, ia fazendo as cores se desvanecerem, para o final não ser muito abrupto.
Quando esticava as linhas, dava um jeito delas se emaranharem, de modo a esconder as pontas. Senão, outro aflito podia inventar de continuá-las. Quando o sol começava a se pôr, ele se apressava em terminar a pintura e definia claramente as margens, para que nenhuma dúvida pairasse de que aquele era o final.
O sol também se punha quando, no final da aula, Tadeu se aproximou de sua mesa para entregar a redação. Gustavo estremeceu ao sentir a aproximação do aluno. Respirou fundo, decidiu que não era a hora de remexer sua vida, foi até o quadro negro e escreveu a frase do próximo conto: “O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio”.
(*) O texto não foi mandado porque perdi o prazo
Búzios 2007
Marcio Fortes,
o ministro que atende o telefone
Entrevista a Marcelo Lartigue
Texto final Miriam Danowski
Em visita a Secretaria de Planejamento o atual Ministro das Cidades, Marcio Fortes, aproveitou suas férias de carnaval para oferecer para Búzios as verbas que o governo federal está destinando para diversos aspectos do desenvolvimento urbano – esgoto, drenagem, regularização fundiária, habitação. Para receber o investimento, a Prefeitura tem que apresentar, em tempo recorde, o que ele chama de projetos-básicos. Já está na mão do Ministro uma lista das obras prioritárias para a cidade, entregue pelo Secretário Octavinho. Na entrevista exclusiva ao Jornal o Perú Molhado, Marcio Fortes, que é um freqüentador habitual de Búzios, conta que passou o carnaval correndo na praia de Geribá, recuperando a forma depois da dieta que o fez perder 10 quilos. Promete correr também, pessoalmente, atrás dos recursos para nosso município e dá o número do seu celular para quem quiser falar com ele. E avisa que não adianta ficar tímido e desligar, que ele liga de volta.
Marcio Fortes é diplomata de carreira – cursou o Instituto Rio Branco e, depois de ter ficado no Itamarati no início da carreira, foi para Nova Iorque. Além disso é Doutor em Direito Público. Trabalhou em diversos ministérios, considerando que isso podia ser interessante para sua formação. Foi Secretário Executivo (vice-ministro) do Ministério de Minas e Energia, do Ministério da Agricultura, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Assumiu o Ministério em 2005. Apesar de estar em Brasília há quase oito anos, ele mora no Rio – é carioca.
O Ministério das Cidades foi criado pelo presidente Lula em 2003, a partir de reivindicações dos movimentos sociais. Em 88, a pressão desses movimentos resultou na inclusão na Constituição Federal do capítulo sobre Políticas de Desenvolvimento Urbano. Depois de quase 11 anos tramitando no Congresso, o Estatuto da Cidade saiu em 2001 e o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social, em 2005. Outro marco regulatório importante é a Lei de Saneamento, que foi aprovada no final do ano passado e sancionada no início deste ano.
Diz o ministro que conduziu pessoalmente a negociação: “Depois de mais de 15 anos discutindo essa legislação, conseguimos que passasse por unanimidade no Senado e por aclamação na Câmara. Foi uma grande vitória, e a lei só não entrou em vigor esta semana, porque são necessários 45 dias de prazo. Nos próximos dias, estaremos ouvindo as entidades que representam os estados, municípios, empresários, trabalhadores, prefeitos, associação de prefeitos, associação de municípios, para saber o que, no entender deles, tem que ser regulamentado, até para evitar dificuldades e atrasos na implementação da lei e aplicação dos recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)”.
Apesar de recente, o Ministério das Cidades tem sido alvo de muita cobiça. Na reforma ministerial anunciada pelo Presidente, fala-se que a pasta está incluída na dança das cadeiras, mas isso também já foi desmentido. Marcio Fortes tenta explicar o interesse de tantos políticos no seu Ministério: “O Ministério das Cidades toca diretamente o coração de cada morador. Você já imaginou gente que nunca teve chave de uma porta receber a chave de uma casa? É uma alegria: você acender uma luz, abrir uma torneira e sair água. Outros ministérios têm sua atuação sobre a população em geral, você não identifica cada um. No caso do meu, você dá um recurso para habitação, e vê a casa sendo entregue, tem contato com os que foram beneficiados com água, esgoto. E também é um ministério que se articula muito com os prefeitos, governadores, companhias municipais e estaduais de habitação e saneamento, deputados e senadores (na apresentação das emendas). E também temos uma relação direta com o povo, inclusive através das Conferências das Cidades, que fazem parte da estrutura do Ministério, juntamente com o Conselho da Cidade que, por sinal, acontece este ano. A primeira foi em 2005. São reuniões municipais, estaduais e depois nacionais, onde há a participação de toda a sociedade civil – empresário, trabalhador, representante de movimentos sociais, estudantes. Localmente, se indica os delegados, que vão aos conselhos, até chegar a Brasília. Participam em média três mil representantes. Essa visibilidade toda é que atrai os políticos”.
- O Presidente Lula é quem define – explica ele - em função da indicação dos partidos, mas quer que as pessoas tenham currículo, qualificação técnica. O que é importante para que não haja desvio de função, para que não se fique nem só na visão política e nem só na técnica. Um ministro tem que ter as duas visões.
Presidente do Conselho de Administração de 20 empresas estatais vinculadas aos ministérios em que trabalhou, Marcio Fortes acredita que bateu um recorde: “Siderúrgica Nacional (quando era privada), Eletrobrás, Conab, BNDEs, Codevasp e muitas outras. Muitas vezes, eu tinha que fazer reuniões depois da meia noite para caber na agenda. Posso dizer, tendo sido diretor executivo e ministro interino em tantas ocasiões, no Ministério das Minas e Energia, no Ministério da Agricultura, no de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que não é só ministro que trabalha.
- Já que isso aqui é uma entrevista pro Perú Molhado, vou fazer uma pergunta provocativa. Como vai sua construtora?
Não é minha, é do meu homônimo Márcio Fortes, do PSDB, engenheiro. (Risos) Ele é amigo meu, inclusive já trabalhamos junto no Conselho de Administração da Cia de Docas do Rio. Eu era secretário de Obras do município do Rio e estava lá representando a Prefeitura. Essa confusão de nomes vem desde 1970. Eu estava num congresso de bancos, pelo Ministério da Indústria e Comércio. No intervalo, nos corredores, quando o alto-falante chamou por Marcio Fortes, eu me apresentei: “Sou eu”! Uma moça que estava lá me questionou: “Não é não. Eu conheço bem meu irmão e o senhor não é ele”. (Risos) Ainda hoje, muitas vezes, ele recebe convites meus e eu os dele, os jornais trocam nossas fotos... Mas nós nos entendemos bem.
- O prefeito recomendou: “O ministro prometeu recursos para Búzios e temos que elogiar ele”...
- (Risos) Eu sempre venho para Búzios, todo ano, e fico na casa de amigos. No ano passado mesmo, fiquei aqui do lado na casa do Eduardo, e estive com o prefeito Toninho Branco. Mas como agora estamos com os recursos ampliados, provenientes do PAC, recursos dos PPIs (Projetos Prioritários de Investimento) e também com reforço na área de financiamento, procurei o Prefeito, o Octavio, para ver quais os projetos que existem aqui, para a gente colocar na pauta. O presidente Lula diz sempre que os recursos existem, existe vontade política, mas que faltam projetos. Ele tem razão. Por isso, nós vamos até ajudar na elaboração desses projetos. E, no caso das companhias estaduais ou municipais, vamos ajudar a melhorar a gestão, através de convênios para a disponibilização de consultores. Não digo que vamos ensinar nada, não temos essa pretensão, mas vamos colaborar com as empresas para que a gestão melhore e também a qualidade dos serviços. Com o espírito cooperativo, não através de imposição de regras.
- O Otavinho deve ter ficado maluco, ele está sempre atrás de recursos... O que o senhor achou da Secretaria?
- Eu vi que a Secretaria está bem organizada, e que há muitos projetos. Fiquei muito contente com isso. São muitas as idéias, existem levantamentos, vários projetos básicos. Para a destinação de recursos é preciso que se tenha esses projetos básicos, no formato exigido pela Lei 8666, para as licitações, que depois pode ser aprofundado em um projeto executivo. Otavinho me trouxe vários ítens e disse que cinco ou seis já têm projeto básico. Os outros (dois ou três) serão enviados rapidamente para Brasília – eu vou ficar aguardando.
Também vou colocar a equipe técnica do Ministério em contato com a equipe técnica da Prefeitura, para ver o que está correto e o que pode ser aperfeiçoado nesses projetos. O importante é que, de nossa parte, temos toda a boa vontade. Eu não sei dizer não. Mas vejam que não adianta eu ter vontade política, nem existirem os recursos. O projeto tem que ser elaborado, discutido com o agente financeiro – no caso a Caixa Econômica -, pois se trata da sustentabilidade do investimento. No caso da água, as perdas têm que ser evitadas e, no caso do esgoto, é preciso escolher soluções que evitem pressões sobre o meio ambiente. Tem muita coisa entre a assinatura e o início das obras, muita papelada, mas isso é normal. São exigidas licença ambiental e regularização das terras que serão objeto de intervenção – seja habitação ou saneamento. Na hora de apresentação, é preciso apresentar uma referência de entrada no órgão ambiental e, também, de que se trata de áreas regularizadas, que não sejam áreas de origem duvidosa e se saiba se são públicas - municipais, estaduais ou federais. A Caixa Econômica é muito dura nessa questão, justamente para evitar que os recursos caiam numa área que é privada. Imagine a confusão que daria.
O presidente Lula fala o tempo todo que faltam projetos no Brasil inteiro. É verdade. Tanto é que a gente agora está usando os recursos do PAC, também, para ajudar na elaboração dos projetos. O que é compreensível, porque os projetos não são baratos. Por exemplo, no ano passado, no Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, colocamos um bilhão de reais de dotação. A maior parte seria para atacar as áreas de palafitas. Tínhamos um levantamento que dava conta de 110 mil famílias vivendo em palafitas. Só que pouco mais da metade dos municípios apresentou projeto. Apliquei então 550 milhões e o resto do recurso foi deslocado para as favelas. Acho que essa cultura vai se disseminar aos poucos agora, a partir da disponibilização dos recursos. Os municípios não precisam deixar de habilitar por falta de projetos, agora eles podem pleitear, além da obra, auxílio para a elaboração desses projetos. Eu faço um acordo de cooperação técnica (PMSS – Planos de Modernização do Setor de Saneamento, no caso dos projetos de Saneamento), ou dentro das cartas-consulta, que deverão ser apresentadas no segundo semestre. Ainda não entramos na nova formatação da ação do ministério, em que vamos colocar recursos para esse fim. No momento, nós é que estamos tomando a iniciativa de escolher as áreas prioritárias para a ação do governo federal. Mas num segundo momento, vamos colocar editais com regras para a apresentação das cartas-consulta pedindo recursos para habitação, saneamento, desenvolvimento institucional e também para a elaboração dos projetos.
- É verdade que Búzios perdeu um recurso federal?
- Quando eu estava no Ministério da Agricultura destinei duas verbas para Búzios – um trator e uma fábrica de gelo, para apoiar a atividade dos pescadores. Este último, infelizmente acabou não sendo aproveitado porque houve uma discussão sobre o local onde ficaria a fábrica – se no Centro ou em Manguinhos. E se perdeu a oportunidade. Hoje, eu vejo aquele píer muito bonito na Colônia de Pesca de Manguinhos, ao lado do centro gastronômico. Acredito que devo ter destinado esse recurso em 2001, uns 80 mil reais, se não me engano. Qualquer que fosse a solução, teria sido melhor do que perder.
- Na lista que o Otavinho apresentou, o sr. acrescentaria alguma coisa?
- Acho que Búzios está tendo tem problemas em relação a infraestrutura viária. Da última vez que vim, a Via Azul ainda estava em obras. Achei que o projeto ficou bom, mas entendi que está incompleto, inclusive dependendo de uma definição do Inepac, de modo que se possa fazer o retorno através de um binário, dentro do parque. Coloquei o Prefeito Toninho em contato com o Pezão, vice-governador do Rio de Janeiro, que já foi prefeito e que conhece bem essa problemática municipal, para que receba orientação sobre os trâmites para obtenção da licença ambiental, sem que haja agressão ao meio ambiente.
Búzios tem um problema delicado: em dias normais tem população pequena, mas em dias de pico chega a 150 mil habitantes. Então, temos que cuidar dessa questão do saneamento e da água. As cidades com população flutuante muito elevada têm esse problema. A gente pensa que está tudo organizado, muito bonitinho para aquela dimensão de cidade, mas na verdade não está, o que se vê quando a qualidade de vida dos moradores é afetada e a cidade deixa de atrair os turistas.
- Parece que pelo contrato, o esgoto de Búzios poderia sair só daqui a 20 anos...
Sim, mas através do Ministério, acho que podemos influenciar. Quando eu estava no Ministério da Indústria e Comércio, estive com eles em Portugal. Era uma época de transição de governo – Santana estava saindo. E com isso fizemos sugestões para que a direção da empresa tivesse sua representação revigorada, com força para fazer novos investimentos e resolver as contestações e os pleitos, com relação à qualidade dos serviços.
Eu estava conversando com o secretário de Planejamento e com o Prefeito sobre essa questão de contaminação das águas pluviais por esgoto. Disseram que a situação já está sendo corrigida em vários bairros. Na parte central da cidade, me parece que a situação é mais delicada, porque existem diversas lagoas e o esgoto acaba saindo nelas. Então, é preciso separar as águas pluviais do esgoto e trabalhar a drenagem.
Temos que identificar as áreas que não estão sob influência da concessão do esgoto. A idéia é fazer saneamento integrado, que envolve drenagem de águas pluviais e esgoto, além de coleta e destinação de lixo. Mas, primeiro, temos que ver até onde vai a concessão, para que não haja superposição de ações, e ações indevidas, nem se crie problemas com a Prolagos.
- Em Búzios não temos favelas, mas temos bairros com população pobre, morando em lotes irregulares, em edificações irregulares, ruas mal traçadas, sem calçada, sem áreas verdes, ocupação de topo de morro e outras áreas de proteção ambiental, áreas de risco e até áreas públicas, com problemas de erosão, esgoto, alagamento, lixo. Além disso, há o problema das invasões. Na semana passada, estivemos em Punta Del Este, que é uma península, cuja periferia lembrava Búzios de antigamente. E, hoje, custa mais caro comprar um terreno lá - onde estão as melhores casas, os melhores restaurantes - do que na nossa praia da Azeda.
- O Ministério liberou nos últimos anos cerca de 50 milhões de reais para a elaboração dos Planos Diretores Participativos, para programar e reordenar o crescimento das cidades, através da presença de consultores, agentes multiplicadores, convênios com CNPQ, Prodetur. Temos outro programa que é o da Regularização Fundiária, propriamente, apoiada por nosso grupos de trabalho ou através de contratação de empresas. Quando o terreno é público, é claro que fica mais fácil negociar a doação. A ocupação de áreas de risco já é objeto de outro programa. São os casos de ocupação de beira de lagoa, encostas, em que as moradias estão sujeitas a acidentes, quando chove muito. A gente considera projetos de remoção dessas famílias para outras áreas. Pelos nossos levantamentos, os problemas de habitação não tão grandes assim em Búzios e temos possibilidade de resolvê-los através da transferência voluntária de recursos sem ônus ou através de financiamento para o município ou para o tomador, a custo praticamente zero, porque usamos os recursos do FGTS. O estado ou o município entram com terra, infraestrutura mínima e o tomador não entra com praticamente nada. Essa é a Resolução 460. Ou utilizamos os recursos do próprio orçamento geral da União. Os projetos, já falei com o Otavinho, podem ser apresentados rapidamente, nas duas frentes, para enfrentar essa situação de invasões, a que você se referiu, e que não é um problema só de Búzios, mas uma questão do Brasil inteiro. Nossa maior preocupação, a nível nacional, é com as regiões metropolitanas e cidades com mais de um milhão de habitantes, onde está concentrado o grande déficit habitacional, na faixa de 7.900.000 unidades. Os recursos disponíveis não são só para construção de casas novas, mas também para a melhoria e ampliação das moradias, urbanização (no caso de favelas e palafitas). Temos igualmente recursos para financiar materiais de construção, apoiando o processo de auto-construção, que acontece, no Brasil todo, em quantidade muito significativa.
- A população fixa de Búzios vem crescendo muitíssimo. Segundo o IBGE, em 1940, estávamos na faixa de 3.200. Em 1980, 5.300. Em 1991, 10.500. No ano 2.000, 18.100. Hoje, fala-se de 25, 30 mil habitantes.
- O importante é identificar os problemas que a cidade enfrenta quanto ao trânsito, água, saneamento, nos momentos de pico, quando é visitada por gente do Brasil inteiro e do exterior (basta ver as placas dos carros). E temos que atender a essa turma toda. O prefeito está atacando nessa frente, o Otavinho já tem uma fábrica de projetos. (Risos)
- O presidente Lula sabe que o sr veio a Búzios?
- Sabe sim. Eu tive uma reunião com ele na quinta feira antes do carnaval e pedi autorização para tirar oficialmente férias na quarta, quinta e sexta – isso foi para o Diário Oficial e são férias ainda de 2004! (Risos). O presidente faz reuniões freqüentes com todos os ministros e é do tipo que gosta de ouvir todos os envolvidos nos assuntos – presidentes de empresas, assessores, grupos que vão subsidiar a decisão dele em tal ou qual área.
- Há bastante preocupação aqui no município com o problema da segurança. Ações de regularização fundiária poderiam ajudar já que resultam em inclusão social. Falam que o Comando Vermelho já está instalado em Cem Braças e que na Rasa, toda semana, acontecem vários crimes de morte.
- Voltando da cidade anteontem, eu vi que teve um assassinato na Via Azul. Achei que era um atropelamento, vi os Bombeiros chegando, mas aí soube que tinha sido um assassinato. Mas é uma questão do âmbito do Ministério da Justiça. O governo federal sempre respeita as competências locais, mas, em entendimento com o governador Sergio Cabral, disponibilizou a Força Nacional de Segurança para ajudar o Estado do Rio de Janeiro. Algumas ações estão acontecendo na fronteira do Estado, para coibir entrada de armas e drogas. Mas acho que a sociedade tem que ajudar. Toda essa mentalidade que existe hoje de crime, tráfico, eu tenho uma visão de que isso deriva muito de cinema. As pessoas perdem a sensibilidade. Você olha até no filme mais inocente e sempre tem pelo menos três, quatro mortes. E a pessoa esquece que aquele que está ali apertando o gatilho é um ator, que é uma mentirinha, uma coisa virtual. Pensam que apertar um gatilho é como fazer um filme e saem por aí dando tiro pela ruas. Eu gostaria de ver a reação desses criminosos ao ver realmente o tiro sair, ver uma pessoa sangrar e morrer na rua. Acho que deve ser duro. Quando se perde essa sensibilidade, é preocupante. Você tem que ter uma ação em relação aos pais, uma ação mais intensa de educação, trazer para a sociedade essas pessoas que estão à margem, aumentar a qualidade de vida e a auto-estima dessas pessoas. O Ministério, aliás, foi criado para a inclusão social. Todos os nossos programas são direcionados para isso.
Também é importante essa discussão de utilização de menores nos crimes - não acho que seja necessário rebaixar a idade. Muitos jovens na faixa de 17, 18 anos estão sendo recrutada, por causa do físico. Não interessa ao criminoso usar garotos de 14 anos...
- A obrigatoriedade dos Planos Diretores municipais implica em novas responsabilidades do município em relação a gestão de seu território. As prefeituras estão preocupadas em criar e capacitar seu corpo técnico permanente ou continua a balança continua pendendo para o lado dos cargos comissionados?
- Eu acho que tem que prevalecer os cargos técnicos. O governo federal até colocou uma limitação quanto ao número de cargos em comissão (DAS), que podem ser objeto de indicação de pessoas de fora da administração e eu entendo que é importante os estados e municípios seguirem esse exemplo, para haver continuidade. Se não, você chama 20 pessoas e quando acaba o mandato do prefeito, vêm outras 20 que não sabem nada do que está acontecendo, que vão demorar a aprender e aí há a descontinuidade.
- Como o sr. vê as conseqüências desse novo “ciclo econômico”, o do petróleo, para essa região e para o Estado do Rio como um todo, já que a maioria das cidades beneficiadas pelos royalties não estão investindo esses recursos onde eles poderiam servir para garantir a sustentabilidade de suas economias quando se esgotar o ciclo?
- Eu tenho falado com prefeitos da região e muitos deles estão preocupados com esse crescimento desordenado que aconteceu, por exemplo em Macaé, e estão reservando recursos até com a finalidade de prevenir. Nas nossas ações dentro do PAC estamos tendo especial atenção com relação a esses grandes empreendimentos, que envolvem a atração de muitos trabalhadores. Acabadas as obras, onde vão essas pessoas? Morar em favelas? É o caso do Projeto Jarí, no Amapá, que resultou nas palafitas.
- Há uma divergência de opiniões na cidade em relação a vinda dos Resorts, como o Breezes na praia de Tucuns, o Club Med, o Sheraton e outras bandeiras na praia do Peró, que é em Cabo Frio, mas que fica na zona de influência de Búzios, em uma Unidade de Conservação da Natureza (APA do Pau Brasil). Os que são a favor defendem que vai ser uma injeção de grana na cidade, que vai aumentar a oferta de emprego, que vamos ter turistas de qualidade. Os que são contra dizem que esse tipo de empreendimento enfraquece os negócios da cidade, porque o turista que vem, tem ali dentro tudo o que precisa – restaurante, lojas, lazer. Comparam os resorts aos condomínios, que ficam atrás de muros e não se integram á cidade.
- É um tema controvertido. E é a mesma crítica que alguns têm feito contra os navios de cruzeiro. Que as pessoas não descem do navio, que não vão aos restaurantes, nem fazem compras na cidade. Eu não acho que seja assim. Se você tem um centro de cidade bem organizado, com restaurantes de bom nível, com lojas de grife, isso atrai a população que desce e vem aproveitar. Desde que você tenha também praias limpas. Muita gente pensa que os turistas reclamam mais da segurança, mas reclamam mais é da limpeza. A limpeza da praia tem que ser feita durante diversas horas do dia. Coleta seletiva, então, seria ótimo. É claro que o resort quer segurar o cliente o dia inteiro com diversão, ginástica e tudo o mais. Mas muita gente sai. E o resort não está aqui por acaso. O resort vem porque existe Búzios. Todo mundo sabe que Búzios tem movimento noturno, tem a rua das Pedras, bons restaurantes. O mesmo acontece com quem tem casa. Eu, por exemplo, saio toda a noite para jantar na cidade. Cada dia num restaurante diferente. Cabe à Prefeitura fazer o que já está fazendo. Cuidar da água, do esgoto, das vias, estimular investimento em restaurantes, lojas de grife. É isso que atrai.
- Eu fiz um DVD, onde mostro as 57 nacionalidades de estrangeiros que moram hoje em Búzios e participam da vida econômica, cultural, social. Nenhum lugar da América do Sul tem essa característica, nenhuma cidade do nosso tamanho.
- É, Búzios é conhecida mundialmente, e é diferente das outras cidades, muito valorizada pelos estrangeiros. Você, por exemplo, é argentino e eu sou neto de argentino. (Risos). Na verdade, minha avó, por parte de mãe era argentino, meu avô era espanhol.
- Eu falei com deputado Gabeira e ele me disse que, nesta semana, está entrando com um projeto no Congresso, permitindo aos estrangeiros, que têm permanência, escolher o prefeito. Chama de Lei da Reciprocidade, já que na Argentina, um brasileiro, com permanência pode votar no prefeito, que lá é o intendente.
- Búzios tem uma situação peculiar. Eu não vi ainda equivalente em outros municípios. Mas acho que é uma questão que pode ser discutida no Congresso, mas não sei se é de aplicação nacional. Tem que ver as limitações, no contexto geral, de participação do estrangeiro nas decisões nacionais, como nas cias de aviação, direção de jornais. No nordeste brasileiro, o investimento estrangeiro é forte por causa das linhas aéreas – capital espanhol, português, italiano e até oriental. Isso é matéria típica da Comissão de Constituição e Justiça.
- Podemos contar com seu apoio?
- (Risos) Eu não sou político. Mas é claro que, através do meu partido (o PP), eu tenho uma relação intensa com deputados e senadores... Deixa eu ver o projeto. Tenho boa relação com o PV.
- O sr queria falar dos deficientes...
- É, já que falamos tanto de Urbanismo e Desenvolvimento Urbano, vou falar da preocupação que estamos tendo em dar transporte e acessibilidade a prédios públicos e a prédios privados com freqüência de público, para que se tenha rampas, dimensões de banheiro suficientes para passar as cadeiras de rodas, etc. Estamos fazendo isso também no metrô de Porto Alegre, colocando escada rolante e elevadores onde é necessário. E nos projetos habitacionais, casas ou blocos, estamos exigindo também um número mínimo de unidades preparadas para esse tipo de deficientes. Porque é um drama passar pelo constrangimento que teve que passar a vereadora do Rio, a Georgete, que tinha que ser carregada para entrar nos prédios públicos. Os arquitetos do passado esqueceram disso.
- No Plano Diretor de Búzios, além da preservação do patrimônio natural, está incluído o impacto de vizinhança.
- Isso é muito bom, porque é um instrumento para se redirecionar empreendimentos, adequando-os ao ambiente urbanístico e ao ambiente natural. Ou seja, você colocar uma casa de espetáculos num ambiente que é de tranqüilidade não vai afetar só pelo barulho – que pode ter um tratamento acústico – mas por causa do movimento de carros, da circulação da garotada. O Direito de Vizinhança existe exatamente para isso. Têm ocorrido situações interessantes, a exemplo de comunidades que não querem aceitar a presença de igrejas ou de indústrias. O Estatuto da Cidade é um documento importante, e muita gente desconhece. Vocês podiam sugerir ao prefeito que fizesse folhetos com essas explicações, para a população saber quais são seus direitos. O Plano Diretor Participativo é uma das conseqüências do Estatuto da Cidade.
- Qual foi a primeira vez que o sr. veio a Búzios?
- Foi em 1986.
- O que mudou nesses 20 anos?
- A cidade evoluiu muito. Eu sou do tempo em que a gente quando vinha pra cá, tinha que trazer botijão de água e comida. Hoje, o comércio se desenvolveu. A água ainda vem pelos caminhões-pipa, mas só eventualmente. Agora, a cidade tem que obedecer a esse Plano Diretor, para evitar que haja uma situação delicada no seu crescimento, que tem que ser ordenado. Porque se está investindo, investindo, e é preciso evitar a ocupação de morros, evitar que o crescimento perturbe ecologicamente a cidade.
- Tem gente aqui que quer que a cidade pare de crescer e se possível volte ao passado, quando era uma aldeia de pescadores. E outros que acham que deve crescer mais e mais, receber cada vez mais visitantes, se modernizar.
- A expansão tem que haver, só que tem que ser ordenada. Se uma área já está bem ocupada, que se dirija as autorizações de construções para outras. Também não adianta fazer construções verticalizadas, que não têm nada a ver com a arquitetura local.
- O sr. conheceu o Umberto Modiano?
- Sim, conheci.
- Ele, que era sócio do jornal, e que tinha todas aquelas terras na Praia Rasa, às vezes reclamava: “Estou perdendo uma grana preta aqui, podia fazer igual à Avenida Atlântica”...
- (Risos) Eu acompanhei a construção daquilo tudo, do hotel na ilha, da marina.
- Agora vem aí o Eike Batista.
- É, o Eike está aí. A cidade atrai por suas características. Foi o que eu disse, mesmo com os resorts, a cidade tem vida própria.
- O sr. vem sempre nesta época?
- Não, já vim em muitas ocasiões. Ainda no mês passado, estive aqui na casa do Pratini aqui do lado. Trabalhei com ele em vários momentos. Quando ele foi ministro das Minas e Energia, de Agricultura. No passado, na década de 70, também trabalhei muitos anos com ele no Ministério da Indústria e Comércio.
- O sr. joga golfe também?
- (Risos) Não, não jogo, mas sei que ele e a Beth jogam todo dia. O que eu fiz aqui, que não fazia há muito tempo foi voltar a correr. Depois de ter emagrecido dez quilos, correr a praia ida e volta já foi um bom exercício. Tenho que correr, agora, é atrás dos projetos para cidade. (Risos). Tem que ser o mais rápido possível, porque eu estou me reunindo novamente no início de março com o Presidente sobre saneamento e manejo de águas pluviais, por isso queria ter esses projetos na mão. O Otavinho veio aqui ontem. Já trouxe a carta que eu pedi a ele com uma idéia geral dos projetos e uma estimativa de valor e, na semana que vem, me apresenta os projetos básicos.
- O sr. já conhecia o Otavinho?
- Já tinha estado com ele uma vez. Ele foi quem fez esta casa. E a do lado, do Loureiro.
- Ele é conhecido como xerife.
- Isso é bom.
- Mais alguma coisa, ministro?
- Eu queria mandar um recado para os prefeitos, deputados, senadores. Quem me conhece, já sabe disso. Eu não marco audiência. Basta ligar para a minha secretária, perguntar se eu estou, se estou na cidade. Eu não marco hora, porque meu horário é das sete da manhã à meia- noite. E disponibilizo meu telefone, que é (61) 9994-5527. Pode ligar, que eu respondo. Uma vez uma revista de grande circulação – vou dizer qual é, a Veja – e foram milhares de ligações. Tem gente que fica tímida: “Ah, pois não, é engano!” Mas aí eu ligo de volta. (risos) Uma vez eu estava aqui em Búzios e recebi telefonema de duas cidades de Minas. Disseram que viram numa revista antiga – certamente aquelas que ficam meses nas ante-salas de consultórios médicos ou de dentistas. Outro dia alguém me deixou um recado: “Vi seu telefone, liguei. Desculpe não ter falado”.
A revista Veja em Portugal chama-se Sábado, mas circula na quinta feira... (Risos) Saiu a mesma matéria lá e recebi muitos telefonemas das pessoas, dizendo que seria bom se os ministros de lá também dessem seus telefones. Secretária, cerimonial segurança, tudo isso afasta muito a gente do povo. Muita gente liga só para conversar, não é para pedir nada.
- O sr. é simpático assim também lá em Brasília, ou é só aqui?
- (Risos) Eu sou assim mesmo. Gosto de andar sozinho. Anteontem, fui ao Rio pegar meu filho e fui dirigindo o meu carro. Por falar em carro, lembro que no Ministério nós temos outra área que pouca gente sabe que é nossa, o Denatran. O Contran também. Os dois eram, antigamente, do Ministério da Justiça. Então, toda essa parte de trânsito, regulamentação, implementação, é com a gente. Muito particularmente, é meu interesse pessoal, porque eu perdi um filho em acidente de trãnsito. Há três anos atrás, no Rio de Janeiro. Havia três rapazes a bordo, o carro capotou e só o meu filho morreu. Graças a Deus que os outros não tiveram nada. Sou a favor de uma campanha para que os pardais sejam colocados em maior número e que estejam em locais visíveis, e não escondidos atrás de árvores ou de vigas de viaduto. Pardal tem que sair do ninho, porque seu objetivo é inibir, para evitar que essa garotada continue morrendo, não é só arrecadar. Onde meu filho morreu, na Praia de Botafogo, na última curva do Aterro, pouco antes do túnel, eu já vi dois ou três acidentes iguaizinhos e nunca ninguém colocou nada para evitar isso – nem redutor de velocidade nem pardal.
Búzios 2007
Sonhos que aconteceram
Por Miriam Danowski
De 25 de julho a 5 de agosto de 2004, o Instituto de Arquitetos do Brasil - núcleo Búzios apresentou, na Praça Santos Dumont, a exposição "Búzios dos nossos sonhos”, reunindo, em painéis ilustrados, idéias para valorizar, embelezar e aprimorar a cidade. A exposição, vista por estudantes, crianças, políticos, moradores e visitantes, suscitou debates na imprensa e explicações dadas pelos expositores ao público na própria praça.
Aos arquitetos interessava o exercício da liberdade de imaginação, além de despertar a percepção e o senso crítico da comunidade sobre o espaço arquitetônico e paisagístico de Búzios, conforme declarações dadas na época.
Três anos depois, diversos desses projetos e idéias mostrados nos 14 painéis expostos pelos 18 arquitetos do núcleo viraram realidade, como o Parque da Lagoa da Ferradura, sugerido pelos participantes com o nome de Parque da Usina, uma opção de lazer da comunidade, para a prática de esportes e de atividades culturais, na região central da península. Igualmente a proposta de um corredor cultural indo da Rua das Pedras, ao longo da Orla Bardot, até os Ossos, que foi incorporada no Plano Diretor como “Área de Especial Interesse Cultural”. Também foi implementada a proposta de abertura para o mar da Estrada José Bento Ribeiro Dantas, no trecho junto à Colônia de Pesca de Manguinhos, com o Centro Gastronômico de Manguinhos.
Falta agora a criação de um sistema de ciclovias, atendendo ciclistas e pedestres, e não só os automóveis, a valorização de bairros, como Cem Braças; a presença pública e a oferta de equipamentos urbanos na Praia de Geribá; o resgate das servidões, para uso da comunidade; e a criação de um circuito de praças temáticas, servindo simultaneamente à população local e aos interesses do turismo.
Búzios 2005
Jogando confete
Por Miriam Danowski
Realmente muito legal o bloco do Perú, que comemorou dia 23 os também 23 anos do jornal. Nesses tempos esquisitos, em que Búzios deriva de cá pra lá, sem saber qual a sua cara (a velha dúvida cazuziana) e, pior, tenta “à la Zeillig, do Woody Allen” imitar a cara dos outros, adorei dançar ali, ao som das marchinhas de antigamente, tocadas pela banda do mestre Derli, atrás da alegoria do Helinho.
Foi mesmo comovente ver o pessoal da terra e de fora se juntando ao bloco que começou com uns gatos pingados e no fim virou multidão.
Naquele momento, me dei conta do que já sabia - que o Perú é, ainda, verdadeiramente, a “pièce de resistance” do espírito buziano, que teima em não esmorecer, apesar dos lugares-comuns da “vida civilizada”, do utilitarismo da política partidária, da hipocrisia das religiões tornadas modernas e marketáveis, de tudo isso que veio junto com a emancipação que tanto queríamos, como o contra-peso que você tem que levar pra casa junto com o filé mignon.
Admiro realmente essa força do Marcelo (antes partilhada com o Aníbal e, agora, com a Mônica), que entendeu desde o início, que o humor é uma arma poderosa, a única capaz de desmontar a arrogância, o autoritarismo e a caretice, vindos de onde vierem. O humor, mais até do que a política, é capaz de sintonizar gregos e troianos, pobres e ricos, turistas e nativos.
Tenho ouvido e lido vários candidatos a prefeito falando de cultura e identidade. Espero que tenham a sensibilidade de perceber que a questão é muito delicada e, principalmente, numa cidade turística que, com voracidade, tende a transformar tudo em mercadoria e a descartar tudo o que não se enquadra. Parabéns ao Perú pelo aniversário. Continue a ser do-contra, a andar na contra-mão, a fazer as perguntas erradas, a “carnavalizar a vida”, como já disse o mano Caetano.
Búzios 2005
Viagem à Varig, via Buenos Aires
Por Miriam Danowski
O dinheiro curto, as vantagens do câmbio favorável, pouco tempo para uma viagem longa e a decisão estava tomada. Uma semana em Buenos Aires, que tal? E, de quebra, a chance de entender, finalmente, de onde saíram esses seres incompreensíveis, que adoram Búzios, mas se reúnem diariamente para reclamar da administração, dos políticos, da economia da cidade. Que, na época das vacas gordas, ficaram conhecidos pelo compulsivo “dáme dos” quando saíam às compras pelas ruas e gostavam de alguma mercadoria. Depois, a situação ficou difícil: a crise econômica dos últimos anos imprimiu um golpe terrível no orgulho nacional, ameaçando o glamour da vida com jeito europeu. Em Búzios, o “dá-me dos” deu lugar ao “vamos compartir”, na hora de dividir com o parceiro um único prato no almoço.
O roteiro era extenso. Restaurantes para comer carnes, iguarias regionais, pratos étnicos, bares tradicionais, bares da moda, museus, casa de cultura, shows de tango, lugares para se dançar, livrarias, bazares tradicionais, mercado de antiguidades, lojas de design, artesanato. Além disso um circuito de arquitetura – projetos contemporâneos, prédios modernos, edifícios históricos. Os táxis baratíssimos garantiam o acesso rápido aos pontos de visitação, através das amplas avenidas, com pavimentação impecável. Nada de engarrafamento, nada de tumulto no trânsito. Confusão, só a de todo dia, na Plaza de Mayo. Mas aí ninguém se espanta, já que essas manifestações, passeatas, discursos, indignações praticamente fazem parte do calendário de eventos da cidade.
Tanto para ver, tanto para ouvir, tanto para caminhar e descobrir que, ao turista que visita Buenos Aires, só resta a terrível aflição de estar perdendo o imperdível ou se conformar em voltar uma e outra e várias outras vezes. Pode-se talvez resumir: uma cidade para se “curiosear”, que é a palavra que eles espertamente inventaram para falar do exercício da curiosidade. Olhos atentos, sim, mas tal percepção também diz respeito ao paladar. Buenos Aires é para ser degustada.
Mario L. Tercco, fazendo alusão ao livro “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, diz o que significa entrar em Buenos Aires e qual a melhor maneira de se fazer isso. Sair de Buenos Aires, no entanto, parece não ser tão fácil. Ou, pelo menos, não o foi para mim.
A passagem da Varig era até mais cara que a de outras companhias aéreas, mas os horários eram mais adequados e a viagem direta, sem escalas – apenas três horas, como o trajeto Rio-Búzios. Lemos as notícias sobre a crise da empresa, o leilão iminente, mas que graça tem a vida sem uma dose de risco?
A dose, porém, foi bem maior do que podíamos esperar. Na ida, o vôo que saía às 20:45h do Rio foi cancelado e tivemos que pegar um que ia para o Uruguai, com escala em São Paulo. Resultado: a chegada, prevista para a meia noite, só aconteceu uma hora e meia depois. A alfândega, a ida de táxi até o hotel e o jantar de estréia na capital portenha virou mesmo um lanchinho no quarto, graças aos biscoitos estrategicamente reservados para eventualidades.
Se o atraso da ida significou contratempo, a volta foi pior.
O vôo, no domingo, estava marcado para as 18:35h. Porém foi cancelado, sem aviso prévio, sendo o próximo previsto para as 2h da manhã. Depois de despacharmos as malas e recebermos um vale-lanche e um vale-jantar para resistirmos até a partida, lá ficamos nós, ao todo 50 candidatos a passageiros, no aeroporto de Ezeiza, no meio do nada, a uns 40 minutos da cidade. Só nos restava procurar a cadeira mais confortável para sentar e esperar. Lá pelas 22h, outra má notícia – o novo vôo também tinha sido cancelado e só sairíamos no de 5 da manhã. Já estávamos quase indo para a Plaza de Mayo para protestar, quando a Varig resolveu nos adotar: “Vamos levar vocês para o Hilton, que é onde costuma ficar a tripulação”. A maior festa, que brasileiro é antes de mais nada um otimista: “Oba! Vamos para o Hilton, a maior mordomia! Mais uma hora e meia de espera – primeiro até o ônibus chegar, depois dentro do ônibus até liberarem as malas de dois passageiros que resolveram pedir as malas de volta. Conversa vai, conversa vem com o motorista, perguntamos: “E onde fica mesmo o hotel?” Na Santa Fé com Callao, foi a resposta. Um passageiro argumentou: “Ué! Mas o Hilton não fica aí!”. E decepcionados, lamentamos as conseqüências de não dominar o idioma alheio: era Wilton e não Hilton! Chegamos às 22 no hotel, e um garçom mal humorado resmungava que não havia ali serviço de jantar, só café da manhã. Anotou nossos pedidos e mais de uma hora depois trouxe os pratos feitos num restaurante das vizinhanças. Exaustos, lá pela meia noite e meia fomos dormir. Duas horas de sono e éramos um bando de zumbis mais uma vez rumo à Ezeiza.
Finalmente o vôo saiu, depois de diversas brigas com as autoridades locais que queriam cobrar novas taxas de embarque de quem havia atravessado a aduana na noite anterior, e que exigiam o código de barras que estavam nos bilhetes que a própria Varig rasgara quando emitira novos boletos para o vôo das 5h.
Já em território brasileiro, no aeroporto de Guarulhos, os problemas continuaram. Se os sem-terra e os sem-teto estão na mídia, nós os sem-avião, continuávamos incógnitos, mas fazendo jus ao cargo: o vôo das 11:30h foi cancelado e o próximo sairia às 13h. Para não perder o hábito, outra fila (a décima da jornada), para trocar os bilhetes.
Alguém lembrou o filme do Spilberg – o Terminal – em que Viktor (Tom Hanks), um visitante do leste europeu em Nova York cuja terra natal está em guerra, acaba virando morador do aeroporto John Kennedy, onde permanece por mais de um ano. A história foi inspirada em um fato real, que, na verdade, ocorreu no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, onde o protagonista teve sua entrada negada por ser iraniano e por estar sem seu certificado de refugiado, que havia sido roubado. De fato, dava para imaginar que íamos ficar para sempre naqueles aeroportos.
Chegamos ao Rio lá pelas 14:30h, quase 24 horas depois de chegarmos inicialmente ao aeroporto de Buenos Aires. Lamentos a parte, por nossa Varig, mais um patrimônio nacional a ir por água abaixo, quase teria valido a pena ir de ônibus. Mais 22 horinhas e uma boa economia.
Búzios 2006
“Desenvolver sem mudar”, o desafio de Búzios
Por Miriam Danowski (IAB-Búzios)
Saint Tropez, com seus 5 mil habitantes, e com cerca de 1.200 hectares de extensão, tem um dos metros quadrados mais caros da Europa. E isso decorre, segundo o prefeito Jean Michel Couve e o consultor de urbanismo da Prefeitura de lá, Frédéric Finey, de um consenso, de uma espécie de pacto entre a população e seus governantes, que vem se consolidando cada vez mais, graças a um sistema completamente transparente de gestão pública, além de um forte controle do uso do solo
No encontro realizado no Hotel Pérola, Jean Michel advertiu sobre os potenciais desafios do Turismo:
- “O turismo pode ser a melhor ou a pior das atividades econômicas. Se mal conduzido, pode empobrecer um lugar em 15, 20 anos”.
E alinhou as indagações que devem ser feitas por uma sociedade que queira levar avante um Plano Diretor, como Búzios está pretendendo hoje.
-“É para fazer como todo mundo faz? É para parecer mais bonitos do que somos? É para melhorar a qualidade de vida dos moradores?”
Para ele, as respostas giram em torno de duas opções, que foram as escolhidas pela comunidade de Saint Tropez: “Intercâmbio cultural e melhoria da qualidade de vida”.
Em conversa com o IAB de Búzios, no dia anterior, durante almoço no restaurante Cigalon, ele já havia mencionado a política rígida que adotam em relação à proporção entre a quantidade de casas de veraneio e de casas de morador – 1 para 1. A idéia é evitar o acúmulo de edificações que ficam vazias a maior parte do ano, como acontece com os apartamentos da Praia do Forte em Cabo Frio e como aconteceria com os apart-hotéis que queriam se instalar em Búzios e foram, recentemente, rejeitados por mobilização popular. É claro que ajuda o fato de Jean Michel já estar no comando da cidade há 12 anos seguidos, fora os seis anos de um primeiro mandato, garantindo a continuidade dos projetos. Nessa ocasião, falou ainda da sua preocupação sobre o rumo que Búzios vai dar ao seu desenvolvimento: “A entrada da cidade não me entusiasmou muito. Depois conheci o hotel El Cazar, onde estou hospedado. Linda vista pro mar, os barquinhos. Aí me levaram à praia da Tartaruga, maravilhosa! O centro da cidade, então, é mágico. Mas quando fui a João Fernandes, levei um susto! Tomara que não repitam aqui nossos erros lá na Europa. Costa sul da Espanha, sul de Portugal, Cote DÁzûr, Ilha de Malta, sul da Turquia. Eram todos lugares paradisíacos, que foram estragados”.
As autoridades tropezianas entendem o Turismo como indústria e é assim que fazem a gestão da cidade, de maneira profissional, através de uma entidade de economia mista. É, então, essa sociedade anônima de direito privado, tendo o poder público como o maior participante do Conselho Administrativo e principal capital, que garante o comando da Prefeitura em relação às políticas de Turismo.
Da aproximação de Saint Tropez com Búzios, a delegação espera, basicamente, a possibilidade de intercâmbio de clientes e a multiplicação da imagem dos dois destinos turísticos.
O segredo é não crescer – O presidente da AHB, Antonio Valente, revelou, no debate, ter ficado impressionado com a paixão do prefeito de St Trop e sua equipe por sua cidade, o que seria, acredita, a base do bom trabalho que desenvolvem. E perguntou ao prefeito de Saint Tropez como conseguem manter-se tão pequenos, com uma área quase seis vezes menor que a de Búzios, e uma população que é um quinto da nossa.
Jean Michel Couve atribuiu isso à vontade da população, com um forte sentimento de identidade e de pertinência ao seu território: “Queremos nos manter como somos, sem nos deixar seduzir por motivações passageiras, modismos, falsas atualidades. O tropeziano é agarrado às suas convicções e isso facilita a vida o prefeito”. E aproveitou para sugerir ao povo de Búzios o difícil desafio de “desenvolver sem mudar”.
Armando Ehrenfreund e Antonio Valente, respectivamente representando as associações Comercial e de Hotéis de Búzios, além dos presentes na platéia, fizeram ainda outras questões ao prefeito e ao secretário de Turismo de St Tropez:
- Qual é a quantidade de leitos disponíveis na hotelaria?
- Temos em torno de 1.500 leitos e esse número não pode ser ampliado.
- Onde moram os que trabalham nos hotéis, nos restaurantes, no setor de comércio e serviços da cidade?
- Em torno de St Tropez, desenvolvemos planos de moradia para esse pessoal. Mas não vendemos as casas ou os apartamentos populares. Para que não haja especulação imobiliária a partir desses investimentos subsidiados pelo Estado. Preferimos o aluguel.
- Vocês têm hotéis de cadeia?
- Não. Somente hotéis dos roteiros de Charme, a maioria de 20 a 40 apartamentos. Mesmo os nossos dois hotéis com 100 apartamentos, não são de bandeira, de redes, de cadeias. Aliás, a nossa bandeira é que Saint Tropez. Não temos grandes hotéis e não temos redes como Mc Donalds.. Por ter mantido essa identidade é que garantimos nossa clientela, de pai para filho, através de gerações.
- Existe a possibilidade de construir um condomínio de casas em Saint Tropez?
- Não. Não existe esta possibilidade. Não queremos uma cidade de veraneio.
- Como fazem para preservar o meio ambiente?
- Temos uma boa legislação que protege a parte costeira, numa faixa de 150m, além do Patrimônio Histórico e do Patrimônio Ambiental. Mas isso só é possível graças à vontade do Estado francês e das autoridades eleitas. Escolhemos lá dois ou três lugares que poderão ter algum desenvolvimento, desde que isso não mude o aspecto geral da cidade, nem as atividades que correspondem às raízes históricas locais.
Búzios 2007
Picadinho de inimigo à moda do chefe
Por Barão de Curupira (*)
Esta receita passou de pai para filho desde o século II, de que datam os primeiras ocorrências dos goitacazes na região dos Lagos e no Espírito Santo. Os descendentes dessa tribo, extinta por volta do século XVII, ainda habitam entre nós. Aliás, estão inclusive sendo documentados por este jornal, para posterior inclusão no documentário do Marcelo, como mais uma nacionalidade da nossa Praia de Babel.
Ingredientes
* 1 (um) inimigo bem tenrinho
A escolha do inimigo (tapouyest, na lingua do seu povo) é fundamental para o sucesso do prato. É claro que você tem que ser fiel ao seu DNA goytacaz e escolher um inimigo corajoso, já que esta qualidade vai passar pra você, como sempre acreditaram seus ancestrais. Mas não custa unir o útil ao agradável e preferir um inimigo que vá também agradar seu paladar. Muito “malhado” não serve, que vai custar muito a cozinhar. Muito balofo também não – prejudica seu colesterol.
* 1 (um) saco de mandioca descascada
Você pode tentar convencer seu inimigo a descascar a mandioca pra você, o que não vai ser fácil, já que os inimigos costumam ser gente “du-contra”.
* 1 (um) saco de cebola cortada em rodelas
A cebola convém você mesmo descascar, porque você pode se emocionar vendo seu inimigo chorar e resolver almoçar no “comida a quilo” da esquina, estragando todo o ritual.
* 1 (uma) dentadura de alho – termo utilizado na tradicional culinária goytacaz para designar a quantidade ideal de alho por inimigo, equivalendo ao número de dentes que o sujeito tiver na boca. Hoje em dia, como os dentistas custam caro, essa medida pode ser substituída pelo bom senso, se você tiver algum.
* 20 (vinte) molhos de cheiro verde – tempero muito útil, principalmente se seu inimigo não é muito chegado a um chuveiro.
* 5 (cinco) vidros de azeite extra virgem, sem o vidro
* 10 (dez) vidrinhos de aji no moto – para realçar o sabor do prato e despertar seu apetite. Com ou sem o vidrinho, a seu gosto.
* pimenta, à vontade
Modo de preparar
Pegue um caldeirão bem grande, encha de água, ferva e convide seu inimigo a entrar. Se ele desconfiar de suas intenções (que são péssimas), invente qualquer coisa. Diga que aquilo é um ofurô japonês, por exemplo.
Quando a carne estiver começando a amaciar, tire o sujeito da panela e corte em pedacinhos. Reserve.
Numa outra panela, faça um refogado com o azeite, o alho e a cebola. Junte a mandioca, previamente cozida.
Despeje tudo no caldeirão, acrescente o inimigo picadinho, mexa bem, abaixe o fogo e tampe. Cozinhe por meia hora, adicione o aji no moto, o cheiro verde e sirva em panela de barro.
Rendimento
Dependendo da fome dos convidados, esta receita dá para até 8 (oito) pessoas.
Adaptações
Como os tempos mudaram bastante, desde que seus parentes goitacazes habitavam essa região, e não está tão fácil conseguir bons inimigos, você pode fazer uma adaptação desta receita, usando mesmo um amigo (ou uma amiga, conforme sua preferência) como ingrediente. Embora a democracia esteja na moda, o prato é “à moda do chefe”, e como você é o chefe, pode fazer a variação que bem entender.
Pode até preferir interpretar esta tradicional receita no seu sentido “bíblico”. Neste caso, sugerimos que, em vez do caldeirão, você procure um motel. Fica mais confortável.
(*) Crítico de gastronomia e guloso incorrigível. Barão, tem passaporte para circular nos ambientes mais refinados. Curupira, porque incorpora, de tempos em tempos, aquela entidade folclórica, brasileiríssima, que só valoriza o que sobrevive a uma boa digestão.
Búzios 2003
Monte Rosa:
“Um pé em Brasília é fundamental”
Entrevista a Miriam Danowski
Há 13 anos, Ronaldo Monte Rosa, na presidência da Embratur, durante o governo Collor de Mello, instituiu Búzios como Área de Interesse Turístico. Significava um controle rígido do uso e ocupação do solo e medidas drásticas para preservar os bens naturais e o estilo singular de nossa arquitetura. O governo federal entendeu, na época, que a importância de Búzios como destino turístico, extrapolava o âmbito municipal. Interessava ao país como um todo preservá-la e valorizá-la. Como a intenção não se realizou, para recuperar o tempo perdido, ele recomenda mais agressividade na política municipal de Turismo, a começar pela criação de uma Casa de Búzios em Brasília
O ano era 1991 e Búzios, ainda 3º distrito de Cabo Frio, era governada pelo prefeito Ivo Saldanha, que se negou a assinar o convênio para a implementação dessa legislação. Assim, nada aconteceu.
Na verdade, aquilo representaria uma emancipação branca, “federalizando” as regras municipais de uso do solo que Búzios havia conseguido introduzir na Lei de Uso do Solo de Cabo Frio, através do vereador Octavio Raja Gabaglia, ainda na gestão do prefeito Alair Correia.
Em passeio por Búzios, no último fim de semana, hospedado pelo empresário Sérgio Murad, Ronaldo, que mora em Brasília, lamenta o fracasso da tentativa: “Aquela legislação poderia ter servido como um freio a certas ambições desmedidas de empresários que, visando o lucro esquecem do aspecto da preservação do patrimônio histórico, cultural ou ambiental. Esquecem que é isso que atrai o turista e faz com que ele venha gastar aqui seu belo dinheiro, gerando empregos, impostos, etc. A gente vê hoje uma Rua das Pedras descaracterizada, com edificações que às vezes lembram a Oscar Freire em São Paulo, às vezes o centro de Campos de Jordão, às vezes Miami”.
Monte Rosa nasceu nas Alagoas, “no município progressista de São Luiz do Quitunde, onde o Banco do Brasil era a única agência bancária”: “Uma vez, eu ia passando de carro, viajando para Pernambuco. Quando cheguei em São Luiz do Quitunde, me deu aquela emoção e liguei pra um amigo em Brasília. Olha, tô passando em São Luiz do Quitunde, e passei! (Risos) Meu pai era gaúcho, engenheiro agrônomo, e foi tocar um projeto de agronomia lá no Engenho Barreiros, onde conheceu minha mãe, alagoana legítima. E foi nesse engenho que eu nasci, de parteira, à moda antiga”.
Como não podia deixar de ser, Monte Rosa esteve entre os convidados para o casamento do filho do ex-presidente Fernando Collor, no último sábado, em Araras, Petrópolis, assim como Eduardo Modiano, Gilberto Gil e outras figuras do empresariado e da classe política nacional. À respeito da cassação política sofrido por seu antigo chefe, diz que pode demorar, mas a verdade vai se restabelecer: “Independentemente de erros que o governo Collor tenha cometido, eu nunca aceitei que ele tivesse sofrido um golpe político. A corrupção que pode ter havido no governo dele foi infinitamente menor do que a que houve no governo Fernando Henrique e que a de hoje. O gancho para tirar o Collor do governo foi o PC Farias, que não era ministro, nem presidente de nenhuma instituição governamental. Mas o que tirou o Collor do poder foi ter contrariado interesses que estavam enraizados aí há séculos. De grandes corporações como a Fiesp. E da classe política que não estava sendo atendida nas suas barganhas. O cara terminou com o cheque ao portador, o título ao portador – essas medidas que permitem fazer um rastreamento -, e ainda foi taxado como corrupto”.
A arquitetura típica – Ronaldo afirma que ninguém pode ser contra o crescimento econômico, o progresso, desde que aconteça de uma forma ordenada. E dá o exemplo da praia do Forte, em Salvador, onde há uma rua de comércio com os restaurantes e butiques, que lembra a nossa Rua das Pedras. No entanto, as lojas de griffes importantes como Richards e Lenny ocupam as casinhas de pescador. Eles tomam esses cuidados: de não deixar que a arquitetura típica do lugar seja descaracterizada.
É também o caso de Veneza, onde, para se ter uma idéia, o Mac Donald está discretamente instalado numa construção antiga, adaptado à arquitetura da cidade, sem letreiros escandalosos.
Mesmo o turismo ecológico, que é um dos mais novos segmentos do turismo já está, segundo ele, atento para não permitir que esse fluxo de visitantes transforme a cultura local. - “A intenção deve ser de manter em sua atividade as pessoas que estão fazendo uma renda, tecendo uma rede, fazendo um artesanato típico qualquer, que é isso que o turista quer ver. É preciso que se preserve esses hábitos culturais, sob pena de se acabar com o glamour, com o charme do lugar” - explica.
A responsabilidade de preservar o que ainda não está destruído está nas mãos, afirma Monte Rosa, do futuro Prefeito - a Rua das Pedras, as praias, o ar bucólico de nossa paisagem. Ele fala também de sua perplexidade diante do que aconteceu com João Fernandes: “O que é aquele troço vertical branco? O hotel dos italianos? É um absurdo terem permitido construir aquilo. Aliás, toda aquela ocupação, uma favela-chique” – diz ele, parodiando o Nani Mancini. Fala, igualmente, de sua aflição pelo destino da Ferradura, “que está indo pelo mesmo caminho”.
Não é pouco o que se espera do novo governo. E Ronaldo, também, não economiza em expectativas: “Tem que segurar esse tipo de crescimento deosordenado e de mau gosto. Incentivar o empresariado daqui a resgatar o que havia de belo no passado. Coisas pequenas, mas que fazem uma diferença, como os letreiros das lojas, que devem ser padronizados, ter algum charme. Não pode ser o que está aí, cada um mais berrante, querendo chamar mais atenção”. Lembra que Búzios chegou a ter uma cultura dessas placas de madeira, feitas por artistas locais.
Outra coisa impensável para ele é o centro da cidade sem tubulação elétrica embutida, uma enorme poluição visual justo no lugar mais visitado pelos turistas.
O quadripé essencial - A infraestrutura pública (saneamento, segurança, etc), a infraestrutura privada (hotéis, restaurantes, comércio), o agenciamento turístico e a divulgação (as agências, os operadores, as casas de câmbio), que complementam esse atendimento ao turista, e finalmente os recursos humanos (garçons, camareiras, atendentes). Esses são, segundo Ronaldo Monte Rosa, os quatro pés sobre os quais se apóia o sucesso de uma política de Turismo.
Búzios 2003
Quando a alta gastronomia
põe os pés na areia
e vai ao supermercado
As cozinhas do Cigalon, do Sawasdee, da Pousada Casas Brancas e do Parvati foram invadidas no último fim de semana por uma pequena legião de talentosos chefs trazidos por Rosário Scarpato, da TV Il Gambero Rosso – cuja tradução literal seria “o camarão vermelho” –, para gravar um programa de gastronomia, que vai ao ar pela RaiSat, no mês de julho.
Will Goodfarb, de Nova Iorque, Martin Lippo, de Barcelona e Donato de Santis, de Buenos Aires, fazem uma culinária experimental que, além de alimentar os corpos e agradar o paladar, o olfato e a visão, pretendem fazer pensar.
Tudo começou com o encontro entre Miriam Cutz, responsável pela área de Relações Internacionais da Secretaria de Turismo do Estado do Rio de Janeiro, e o produtor italiano Rosário Scarpato, há dois anos, quando ela o levou para conhecer os melhores restaurantes da região de Petrópolis, resultando numa generosa matéria na revista Il Gambero Rosso, especializada em gastronomia e vinhos. No ano passado, o Estado do Rio mereceu outra cobertura especial, desta vez incluindo uma gravação de 45 minutos para a TV. Começaram pelo 1º Congresso Pan Americano de Sommeliers, depois o “Serra Vitis” – evento anual de gastronomia e vinhos, na região de Araras e Correias, em Petrópolis – e também gravaram um módulo que se intitulou a “Baía do Sabor”, tematizando Angra dos Reis e Paraty.
Rosário, que mora na Austrália, participa das produções do grupo Il Gambero Rosso como editor, diretor, apresentador e redator.
Miriam, há pelo menos cinco anos, se ocupa da divulgação turística no exterior das diversas regiões do Estado do Rio, ofuscadas pela atratividade e pelo excelente marketing que tem sido feito pela capital. O fato de o município e do Estado terem o mesmo nome, costuma também confundir, além dos turistas estrangeiros, os próprios brasileiros viajantes. Ela reconhece: “Esse trabalho tem sido diretamente incentivado pelo próprio secretário de Estado de Turismo, Sérgio Ricardo de Almeida, com quem formulamos como estratégias para interessar a mídia internacional, temas, ‘ganchos’, não só turísticos”.
Rosário queria fazer um programa-piloto, primeiro de uma série, levando chefs internacionais para cozinhar com cozinheiros locais em regiões com potencialidade ainda não consolidada como destino gastronômico. Ele faz, entretanto, uma ressalva: “A intenção é trocar as experiências e não colonizar”.
Essa convergência de interesses facilitou tudo e o que era só sonho, virou realidade. Miriam sugeriu a Rosário as fazendas do Vale do Café, produto turístico fantástico, embora ainda pouco explorado. Ofereceu também Búzios, por achar que se adequava aos objetivos do programa. Ficaram quase um ano conversando e resolveram convidar quatro chefs de cozinha, de lugares diferentes do mundo. Outra idéia de Miriam também foi aceita – a de incluir um chef local, o que facilitaria a integração das culturas. Escolheram Sonia Persiani, do Cigalon.
Gravaram primeiro um programa no Vale do Paraíba, sobre a história e a cultura gerada em torno do ciclo do café no Estado, com receitas da época do Império, as maneiras de produzir e preparar o café, os chás imperiais, etc. E, depois, vieram para Búzios, onde cada cozinheiro fez a apresentação de seu cardápio em um restaurante diferente. Will Goodfarb cozinhou no Sawasdee, Martin Lippo, nas Casas Brancas e Donato de Santis, no Parvati. Sonia, cujo restaurante está de mudança para um novo endereço, na Pousada do Sol, utilizou as instalações da cozinha do Café Concerto.
Uma gastronomia extra-territorial
Will, que atua principalmente entre o Maine e a Filadélfia, tem especialidade em patisserie, tendo sido responsável por esse setor no conhecido Morimoto. Trabalhou, também, por cinco anos, num dos restaurantes mais famosos do mundo, El Bulli, de Férran Adriá. Foi fundador do movimento Akwa, que discute e propõe direções para o futuro da cozinha do planeta. E, agora, está para abrir um restaurante em Nova Iorque, no Washington Park, que vai se chamar “Cru”, com um conceito novo, se desenvolvendo ao redor de uma cave.
Martin, argentino, é um dos líderes, como Will, do movimento internacional dos “cozinheiros viajantes”, ou da “cozinha de viagem”. Ele explica: “A cozinha de viagem pressupõe vários desafios. Um deles é chegar a um lugar desconhecido, não conhecendo as condições, as técnicas disponíveis, as tradições, quase nada. E ter que, rapidamente, preparar o menu para o mesmo dia, uma coisa que nunca se fez antes, que não se sabe se vai dar certo. Um grau de risco sempre existe, mas nesse caso, é bem maior”. E compara os cozinheiros viajantes a um conjunto de músicos, que se reúne numa noite para improvisar, para tocar o que resolvem no momento: “Somos todos cozinheiros, cozinhamos bem, fazemos comidas saborosas e ricas. Mas sempre podemos melhorar. Fazemos um prato hoje, amanhã ele pode sair melhor e, assim, vamos apurando o resultado, às vezes durante um mês inteiro, até podermos dizer que aquela é a nossa obra final. Como um artista, um arquiteto. Mas, no caso da cozinha de viagem, é diferente. Nosso trabalho depende muito da informação, do grau de percepção para entender o contexto local. Temos que buscar as fontes, os livros, ir ao mercado, conversar, andar na rua, observar, perguntar. Além disso, há o problema do idioma. Venho ao Brasil, e consigo me virar. Mas se vou à Alemanha, à Tailândia, a coisa começa a ficar mais difícil”. No entanto, ressalta que esse tipo de trabalho proporciona muito intercâmbio, já que se alimenta da globalização das culturas: “A cozinha continua sendo a dos restaurantes, mas há cozinheiros como eu, na maioria jovens, que começam a trabalhar de maneira itinerante, um pouco como artistas, buscando sua expressão”.
- Nada tem a ver, porém - diz Martin -, a “cozinha de viagem” com a “cozinha internacional”, concebida pelas redes hoteleiras a partir de 1890, dirigida especialmente aos seus clientes, os turistas.
Continua: “Nós temos um grupo, o Del Fuego, que é como uma banda de rock que sai viajando pelo mundo. Aliás, estivemos aqui em Búzios há três anos atrás. Nos intervalos das viagens, cada um cuida da sua própria vida, de sua família, seus negócios”.
O italiano De Santis, que mora e trabalha em Buenos Aires, onde dirige o restaurante Verace e protagoniza um popular programa de TV – o El Gourmet -, foi o autor do último cardápio, apresentado, domingo, no Parvati. Seu currículo profissional inclui outros ítens invejáveis como ter sido chefe de cozinha do estilista Gianni Versace e no restaurante Valentino, na Califórnia.
Sonia, argentina-buziana, chef do Cigalon, restaurante vinculado à escola francesa, e também uma experimentadora, foi a conexão dos cozinheiros internacionais com Búzios. Na verdade, Rosário reconhece que o programa nunca poderia ter tido o bom resultado que teve, sem sua ajuda, em todas as etapas, da concepção do evento até seus mínimos detalhes de produção: “Ela não só representou a cozinha local, mas foi quem nos ajudou a ler a cultura de Búzios. Nos levou à horta do Carlinhos na Rasa, ao pescadores para escolhermos o pescado. Sua intermediação foi fundamental”.
Contrariando as expectativas
Martin, Will e Donato têm em comum o fato de não quererem fazer só comida. Estão interessados, antes de mais nada, na experimentação. Rosário exemplifica: “Will, outro dia aqui, serviu uma ceia ao revés: começou com uma sobremesa – uma trufa de cacau com azeite de dendê, rodeada por uma farofa falsa, feita com leite em pó, maracujá em pó, tudo de supermercado, feita com a maior delicadeza. E essa não é bem a expectativa de quem vai a um restaurante comer uma massa”.
Martin, também, usou a brasileiríssima caipirinha, dentro de uma “pipeta” (conta-gotas), que podia ser espirrada sobre uma lagosta. Diz Rosário: “Essa ‘pipeta’ é usada há pelo menos cinco anos por diversos chefs, mas sempre se pode criar uma situação nova”.
A subversão dos chefs não se limita, porém, ao emprego de tecnologias. Rosário determinou que os cozinheiros usassem os ingredientes locais ou pedaços da história e da cultura do lugar, além do vínculo criado com os restaurantes onde cozinharam. Entre esses ingredientes, eles identificaram a pimenta rosa (a aroeira), o pescado, muita fruta tropical e ... a cultura de ir às compras no supermercado!
Rosário justifica: “É a prova de que se pode fazer alta gastronomia, receitas sofisticadas, com produtos industrializados, tudo que está ao acesso das pessoas comuns. Martin, por exemplo, estava caminhando na praia e encontrou um pedaço de madeira e fez, ele mesmo, uma peça para servir os espetos de camarão. Esse é o espírito”.
Só que a estranheza, segundo ele, vem do contraste entre esses produtos simples e populares e ingredientes especiais como a trufa, por exemplo. E confessa: “Não posso, na verdade, dizer que a trufa é um produto simples”. (Risos…)
Os próximos programas para a TV não pretendem sempre girar em torno de cozinheiros-celebridades, cozinheiros-star: “Vamos fazer também com gente normal. Não se pode estar longe do povo. As pessoas têm que entender o que queremos expressar. O ideal seria que, em um evento como este, trouxéssemos uma televisão local”.
O programa gravado em Búzios terá 20 minutos de duração. Rodrigo e Federico Garcia, de Mendoza, são os responsáveis pela câmera e pela fotografia.
