sábado, 5 de janeiro de 2008

Texto publicado no Jornal O Perú Molhado
Búzios 2007

Picadinho de inimigo à moda do chefe

Por Barão de Curupira (*)

Esta receita passou de pai para filho desde o século II, de que datam os primeiras ocorrências dos goitacazes na região dos Lagos e no Espírito Santo. Os descendentes dessa tribo, extinta por volta do século XVII, ainda habitam entre nós. Aliás, estão inclusive sendo documentados por este jornal, para posterior inclusão no documentário do Marcelo, como mais uma nacionalidade da nossa Praia de Babel.

Ingredientes
* 1 (um) inimigo bem tenrinho
A escolha do inimigo (tapouyest, na lingua do seu povo) é fundamental para o sucesso do prato. É claro que você tem que ser fiel ao seu DNA goytacaz e escolher um inimigo corajoso, já que esta qualidade vai passar pra você, como sempre acreditaram seus ancestrais. Mas não custa unir o útil ao agradável e preferir um inimigo que vá também agradar seu paladar. Muito “malhado” não serve, que vai custar muito a cozinhar. Muito balofo também não – prejudica seu colesterol.
* 1 (um) saco de mandioca descascada
Você pode tentar convencer seu inimigo a descascar a mandioca pra você, o que não vai ser fácil, já que os inimigos costumam ser gente “du-contra”.
* 1 (um) saco de cebola cortada em rodelas
A cebola convém você mesmo descascar, porque você pode se emocionar vendo seu inimigo chorar e resolver almoçar no “comida a quilo” da esquina, estragando todo o ritual.
* 1 (uma) dentadura de alho – termo utilizado na tradicional culinária goytacaz para designar a quantidade ideal de alho por inimigo, equivalendo ao número de dentes que o sujeito tiver na boca. Hoje em dia, como os dentistas custam caro, essa medida pode ser substituída pelo bom senso, se você tiver algum.
* 20 (vinte) molhos de cheiro verde – tempero muito útil, principalmente se seu inimigo não é muito chegado a um chuveiro.
* 5 (cinco) vidros de azeite extra virgem, sem o vidro
* 10 (dez) vidrinhos de aji no moto – para realçar o sabor do prato e despertar seu apetite. Com ou sem o vidrinho, a seu gosto.
* pimenta, à vontade

Modo de preparar
Pegue um caldeirão bem grande, encha de água, ferva e convide seu inimigo a entrar. Se ele desconfiar de suas intenções (que são péssimas), invente qualquer coisa. Diga que aquilo é um ofurô japonês, por exemplo.
Quando a carne estiver começando a amaciar, tire o sujeito da panela e corte em pedacinhos. Reserve.
Numa outra panela, faça um refogado com o azeite, o alho e a cebola. Junte a mandioca, previamente cozida.
Despeje tudo no caldeirão, acrescente o inimigo picadinho, mexa bem, abaixe o fogo e tampe. Cozinhe por meia hora, adicione o aji no moto, o cheiro verde e sirva em panela de barro.

Rendimento
Dependendo da fome dos convidados, esta receita dá para até 8 (oito) pessoas.

Adaptações
Como os tempos mudaram bastante, desde que seus parentes goitacazes habitavam essa região, e não está tão fácil conseguir bons inimigos, você pode fazer uma adaptação desta receita, usando mesmo um amigo (ou uma amiga, conforme sua preferência) como ingrediente. Embora a democracia esteja na moda, o prato é “à moda do chefe”, e como você é o chefe, pode fazer a variação que bem entender.
Pode até preferir interpretar esta tradicional receita no seu sentido “bíblico”. Neste caso, sugerimos que, em vez do caldeirão, você procure um motel. Fica mais confortável.

(*) Crítico de gastronomia e guloso incorrigível. Barão, tem passaporte para circular nos ambientes mais refinados. Curupira, porque incorpora, de tempos em tempos, aquela entidade folclórica, brasileiríssima, que só valoriza o que sobrevive a uma boa digestão.

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