Texto publicado no Jornal O Perú Molhado
Búzios 2005
Viagem à Varig, via Buenos Aires
Por Miriam Danowski
O dinheiro curto, as vantagens do câmbio favorável, pouco tempo para uma viagem longa e a decisão estava tomada. Uma semana em Buenos Aires, que tal? E, de quebra, a chance de entender, finalmente, de onde saíram esses seres incompreensíveis, que adoram Búzios, mas se reúnem diariamente para reclamar da administração, dos políticos, da economia da cidade. Que, na época das vacas gordas, ficaram conhecidos pelo compulsivo “dáme dos” quando saíam às compras pelas ruas e gostavam de alguma mercadoria. Depois, a situação ficou difícil: a crise econômica dos últimos anos imprimiu um golpe terrível no orgulho nacional, ameaçando o glamour da vida com jeito europeu. Em Búzios, o “dá-me dos” deu lugar ao “vamos compartir”, na hora de dividir com o parceiro um único prato no almoço.
O roteiro era extenso. Restaurantes para comer carnes, iguarias regionais, pratos étnicos, bares tradicionais, bares da moda, museus, casa de cultura, shows de tango, lugares para se dançar, livrarias, bazares tradicionais, mercado de antiguidades, lojas de design, artesanato. Além disso um circuito de arquitetura – projetos contemporâneos, prédios modernos, edifícios históricos. Os táxis baratíssimos garantiam o acesso rápido aos pontos de visitação, através das amplas avenidas, com pavimentação impecável. Nada de engarrafamento, nada de tumulto no trânsito. Confusão, só a de todo dia, na Plaza de Mayo. Mas aí ninguém se espanta, já que essas manifestações, passeatas, discursos, indignações praticamente fazem parte do calendário de eventos da cidade.
Tanto para ver, tanto para ouvir, tanto para caminhar e descobrir que, ao turista que visita Buenos Aires, só resta a terrível aflição de estar perdendo o imperdível ou se conformar em voltar uma e outra e várias outras vezes. Pode-se talvez resumir: uma cidade para se “curiosear”, que é a palavra que eles espertamente inventaram para falar do exercício da curiosidade. Olhos atentos, sim, mas tal percepção também diz respeito ao paladar. Buenos Aires é para ser degustada.
Mario L. Tercco, fazendo alusão ao livro “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, diz o que significa entrar em Buenos Aires e qual a melhor maneira de se fazer isso. Sair de Buenos Aires, no entanto, parece não ser tão fácil. Ou, pelo menos, não o foi para mim.
A passagem da Varig era até mais cara que a de outras companhias aéreas, mas os horários eram mais adequados e a viagem direta, sem escalas – apenas três horas, como o trajeto Rio-Búzios. Lemos as notícias sobre a crise da empresa, o leilão iminente, mas que graça tem a vida sem uma dose de risco?
A dose, porém, foi bem maior do que podíamos esperar. Na ida, o vôo que saía às 20:45h do Rio foi cancelado e tivemos que pegar um que ia para o Uruguai, com escala em São Paulo. Resultado: a chegada, prevista para a meia noite, só aconteceu uma hora e meia depois. A alfândega, a ida de táxi até o hotel e o jantar de estréia na capital portenha virou mesmo um lanchinho no quarto, graças aos biscoitos estrategicamente reservados para eventualidades.
Se o atraso da ida significou contratempo, a volta foi pior.
O vôo, no domingo, estava marcado para as 18:35h. Porém foi cancelado, sem aviso prévio, sendo o próximo previsto para as 2h da manhã. Depois de despacharmos as malas e recebermos um vale-lanche e um vale-jantar para resistirmos até a partida, lá ficamos nós, ao todo 50 candidatos a passageiros, no aeroporto de Ezeiza, no meio do nada, a uns 40 minutos da cidade. Só nos restava procurar a cadeira mais confortável para sentar e esperar. Lá pelas 22h, outra má notícia – o novo vôo também tinha sido cancelado e só sairíamos no de 5 da manhã. Já estávamos quase indo para a Plaza de Mayo para protestar, quando a Varig resolveu nos adotar: “Vamos levar vocês para o Hilton, que é onde costuma ficar a tripulação”. A maior festa, que brasileiro é antes de mais nada um otimista: “Oba! Vamos para o Hilton, a maior mordomia! Mais uma hora e meia de espera – primeiro até o ônibus chegar, depois dentro do ônibus até liberarem as malas de dois passageiros que resolveram pedir as malas de volta. Conversa vai, conversa vem com o motorista, perguntamos: “E onde fica mesmo o hotel?” Na Santa Fé com Callao, foi a resposta. Um passageiro argumentou: “Ué! Mas o Hilton não fica aí!”. E decepcionados, lamentamos as conseqüências de não dominar o idioma alheio: era Wilton e não Hilton! Chegamos às 22 no hotel, e um garçom mal humorado resmungava que não havia ali serviço de jantar, só café da manhã. Anotou nossos pedidos e mais de uma hora depois trouxe os pratos feitos num restaurante das vizinhanças. Exaustos, lá pela meia noite e meia fomos dormir. Duas horas de sono e éramos um bando de zumbis mais uma vez rumo à Ezeiza.
Finalmente o vôo saiu, depois de diversas brigas com as autoridades locais que queriam cobrar novas taxas de embarque de quem havia atravessado a aduana na noite anterior, e que exigiam o código de barras que estavam nos bilhetes que a própria Varig rasgara quando emitira novos boletos para o vôo das 5h.
Já em território brasileiro, no aeroporto de Guarulhos, os problemas continuaram. Se os sem-terra e os sem-teto estão na mídia, nós os sem-avião, continuávamos incógnitos, mas fazendo jus ao cargo: o vôo das 11:30h foi cancelado e o próximo sairia às 13h. Para não perder o hábito, outra fila (a décima da jornada), para trocar os bilhetes.
Alguém lembrou o filme do Spilberg – o Terminal – em que Viktor (Tom Hanks), um visitante do leste europeu em Nova York cuja terra natal está em guerra, acaba virando morador do aeroporto John Kennedy, onde permanece por mais de um ano. A história foi inspirada em um fato real, que, na verdade, ocorreu no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, onde o protagonista teve sua entrada negada por ser iraniano e por estar sem seu certificado de refugiado, que havia sido roubado. De fato, dava para imaginar que íamos ficar para sempre naqueles aeroportos.
Chegamos ao Rio lá pelas 14:30h, quase 24 horas depois de chegarmos inicialmente ao aeroporto de Buenos Aires. Lamentos a parte, por nossa Varig, mais um patrimônio nacional a ir por água abaixo, quase teria valido a pena ir de ônibus. Mais 22 horinhas e uma boa economia.
sábado, 5 de janeiro de 2008
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