O padre
O padre sentou-se ao seu lado, no ônibus. Adriana vinha da Região dos Lagos para o Rio, numa segunda feira chuvosa. Na verdade, a princípio, não viu quem era aquele sujeito que embarcou em algum ponto do trajeto.
Não olhou imediatamente, para evitar o contato visual com alguém que poderia ser uma companhia desagradável para uma viagem.
Somente muitos quilômetros depois, quando tentou tirar a capa de chuva e sentiu que o cordão dela estava preso no banco do lado, foi que olhou e deparou com o padre.
- Olá , desculpe, eu não tinha visto que era o senhor…
- Bom dia, tudo bem? – respondeu ele, aproveitando para pedir emprestado o jornal, que ela acabara de ler e enfiado no porta-coisas da poltrona da frente. – É para distrair – explicou. Isso aqui está ficando bom, hein?! – apontou, se referindo à obra de duplicação da Estrada, na altura de São Pedro D’Aldeia.
- Será que vai ficar pronto para o verão?
- Acho que não – respondeu Adriana – está muito em cima.
Enquanto ele lia o jornal, ela tentava se lembrar se havia na edição daquele dia alguma matéria imprópria para padres. Não me lembrou de nenhuma.
Pegou na mochila um livro. Mas, ler as páginas da esquerda, a constrangia: “Será que ele vai pensar que o estou observando?”
Na altura de Rio Bonito, tirou os óculos e olhou a paisagem do vale todo verde, entre as montanhas verdes, lindo. Um bando de pássaros brancos atravessou, da esquerda para a direita, e ela os seguiu com o olhar. Mais explicitamente do que o necessário, talvez para o padre notar: “Ele terá percebido como sou sensível, como sou espiritualizada?”
Impossível não ouvir uma vozinha, vinda de algum remoto canto dela mesma: “Quando é que você vai parar com isso de agir como se sempre estivesse sendo observada?”
Seu vizinho de poltrona pegou uma agenda e anotou alguma coisa. Guardou-a em seguida, para mais adiante, tornar a pegá-la e fazer outras anotações.
Ocorreu a ela que ele podia estar fazendo isso porque a viu escrevendo e quis se exibir, como ela tinha feito com os pássaros. E sentiu um calafrio quando passou por sua cabeça que ele podia estar impressionado de vê-la escrevendo assim compulsivamente.
Olhou em volta. A maioria dos outros passageiros apenas apreciava a paisagem ou conversava.
De repente, Adriana achou que ele lançava um olhar comprido sobre seu papel, dobrado em quatro, onde ela escrevia com letras míudas. Por via das dúvidas, fêz das letras seguintes uns garranchos. Incompreensíveis.
- “Agora, não tem mais perigo!” – pensou, encostando tranqüilizada na poltrona.
Mal o ônibus parara no estacionamento do Oásis Graal, para um intervalo de 15 minutos na viagem, o padre disparou porta afora, impaciente. Ela não fazia idéia do que o apressava, mas faria sentido a alusão bíblica daquele nome para ele? Estaria pensando no cálice sagrado, enquanto bebia a coca-cola no balcão ao lado do qual ela podia vê-lo encostado?
Acomodada na poltrona, lembrou do que dizia seu ex-marido a respeito da má sorte que trariam as freiras nas viagens aéreas: “Se entrar num avião e me deparar com uma freira, volto para atrás na mesma hora. Elas dão azar...”
- “Será que a lógica se aplica também aos padres?” – pensou
De repente, antecipou o medo que sempre sentia ao atravessar a ponte Rio-Niterói. Toda a vez, imaginava que o ônibus ia despencar naquele abismo...” Tranqüilizou-a, porém, surpreendentemente a presença do padre ali ao seu lado: “Pelo menos, teria ele para me dar a extrema unção. Isso é confortante! Apesar de eu nem ser católica. Mas numa situação dessas, quem pensaria nisso?”
Um dúvida e um sobressalto: “Já que ele é tão conservador, vai ver que vai se negar, dizendo que encomendar a alma de uma judia contraria a missão de uma padre católico. Sei lá!”
Mais adiante, o ônibus passou em frente àquele cemitério-parque que se estende ao lado da rodovia, com as montanhas ao fundo, realmente uma bonita paisagem. Uma placa convidava os vivos a pensar no futuro inevitável, com um linguajar de anúncio imobiliário: “Mais que um cemitério, uma pintura...”
Enquanto isso, alguma coisa preocupava o padre, Adriana podia notar. Tentava ligar para alguém, do celular. Depois de algumas tentativas, finalmente conseguiu: “Poxa, você desligou o celular? Estou chegando, leva o livro.”
Aproximavam-se da ponte. O mar negro e oleoso do fundo da Baía, as garças branquíssimas contrastantes. De repente, o padre se levantou, fez um aceno de despedida e desceu no último ponto de ônibus.
-“Filho-da-mãe! – pensou ela indignada. – “Ele não podia fazer isso comigo! Vou ter que atravessar a ponte, novamente, sozinha?!”
Miriam Danowski
novembro 2005
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
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