terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Paixonite aguda

A primeira vez que seu coração de menina-moça bateu por um homem, não foi exatamente por um homem. Era um artista de cinema. A foto de Richard Chamberlain fazia parte da sua coleção de artistas. Ao lado de Anthony Perkins, James Garner, Gregory Peck, Rock Hudson, John Saxon, George Chakiris, Troy Donahue, Tab Hunter, Tony Curtis e Elvis Presley. Fotos com os cantos cortados, num álbum que não cansava de folhear pra frente e pra trás, a cada dia. A vida de todos acompanhava, de ler na revista Cinelândia. Não via nenhum deles nos filmes – naquela idade, preferia ver desenho animado. Só o dito cujo, que trabalhava num seriado da TV – Dr.Kildare -, que ela não perdia por nada no mundo. Num outro canal, passava outro filme de médico, que algumas amigas suas preferiam – o Ben Casey -, mas ela achava o Vince Edwards peludo demais.
Depois, veio a paixão pelo Roberto. Roberto Carlos, o cantor. Ai, quantas tardes passou com a orelha colada na caixa de som, os olhos marejados...
“Como vai você?
Que já modificou a minha vida, Razão da minha paz já esquecidaNem sei se gosto mais de mim ou de você”.
Nessa ocasião, experimentou o primeiro ciúme – um aperto no coração quando soube que “o rei” estava tendo um caso com a Wanderléa. Mas aí reparou que o nome dela tinha uma parte do seu – Léa. Aquela coincidência tinha uma razão. Ela não sabia qual era, mas de repente ficou mais conformada.
Jair, seu primo, era um belo rapaz, e a atraía. Encontravam-se uma vez por ano, no aniversário da avó, no Realengo. Só que os dois não falavam. Um oi na entrada, um tchau na saída – no máximo. Léa conversava mesmo era com o irmão dele, o Milton, que era mais novo. E mais feio. Com este, não ficava tímida. Falavam de mil coisas e ela imaginava que Jair observava os dois, curioso. Só que não tinha coragem de conferir.
Num certo verão, foi com a família para um hotel-fazenda na Posse, perto de Friburgo. O dono era um senhor de meia-idade, que ali morava com a mulher e a filha Ariane. Léa caiu de amores pelo Seu Júlio e passava longas tardes na varanda da casa principal se perguntando por que ela não tinha nascido antes. Se tivesse a idade da mulher dele, certamente ele iria olhar pra ela de outro jeito, pensava. E aquela era uma barreira intransponível.
Mas, a paixonite aguda ainda estava por vir. O Arnaldo freqüentava o mesmo colégio que ela. Felizmente, quando Léa e as amigas dividiram o território, nenhuma outra menina o escolheu. O Sérgio era da Denise, o Marcelo era da Soninha, o Marcos era da Sofia. Eles não sabiam de nada, nem nunca saberiam.
Uma vez, passou pela turma um caderno de recordações, como todas costumavam fazer. Cada um escreveu lá uma coisa – uma poesia, uma frase, um desenho. A primeira vez que leu o que o Arnaldo tinha escrito, ela achou que era uma confissão de amor:
“Deixo aqui essa recordação dos bons tempos de colégio, dos dias alegres e dos amigos, em cujo número sempre desejo estar.
Com respeito e admiração
Arnaldo”
Cada vez que relia, porém, mais se decepcionava. Se ele queria ser sempre seu amigo, é que não tinha nenhuma intenção de ser seu namorado. E que história era aquela de respeito e admiração? Puxa, não era esse sentimento que queria inspirar nele!
Um dia, passou com uma amiga em frente ao prédio onde o Arnaldo morava, no Catete. Aproveitando a distração do porteiro, pegou uma folha do jardim. “Querido diário – escreveu à noitinha – esta é uma planta do jardim dEle! Olha que linda!”
No aniversário do Arnaldo, ela levou o disco novo do Pepino di Capri pra emprestar e esqueceu lá. Quando ele devolveu, o disco tinha entranhado o cheiro da madeira da vitrola. Hum, como era bom aquele cheiro! – pensava ela, a cada fungada.
Dava trabalho aquela paixão. Somar os números das placas dos carros, pra ver se eram iguais à soma dos algarismos equivalentes ao nome e sobrenome dele. Assistir na TV as partidas de futebol dos domingos – ela, que sempre odiara – só pra saber se ele, que era torcedor fanático do Flamengo, ia estar de bom ou de mau humor nas aulas da manhã de segunda feira. Ler, além do seu próprio horóscopo, o dele. Assim, poderia tirar melhor partido das situações.
Quando descobriu que o Arnaldo freqüentava as terças e quintas o curso de inglês a dois quarteirões de sua casa, Léa se alvoroçou. Como as aulas terminavam pontualmente às 5 da tarde, ela saía sob qualquer pretexto às 4 e quarenta e cinco, atravessava o sinal, dava a volta no quarteirão (cada dia numa direção, pra disfarçar) e, controlando o relógio, passava “por acaso” na frente do prédio do curso. Era tanta estratégia para esses encontros casuais, que não sobrava muita energia (e nenhuma coragem) para falar com ele. Um “oi, tudo bem” e voltava pra casa. Aí lembrava de tudo que podia ter falado – não entendia porque, simplesmente, não conseguia pensar, quando estava na frente dele. No diário, anotava, então, para falar depois, o que nunca acontecia.
Se a convivência no colégio era cheia de emoções, o encontro com ele, no baile que quase sempre acontecia aos sábados, no clube, era insuportável. É que ali havia um risco bem concreto. Ele poderia tirá-la pra dançar. Entre o medo e o desejo, Léa, inquieta, sentia-se mal, ficava enjoada. Às vezes, tinha que correr para o banheiro e vomitar.
Mas o Arnaldo nunca dançou com ela. Então, Léa se acalmou. E se convenceu de que ele não queria era dar na pinta. Teve certeza disso, quando surpreendeu os olhares enviezados que ele lançava na sua direção. Tadinho, como é tímido! – pensou, compreensiva.

Miriam Danowski
2006

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