Exótica
Ela não devia ter mais de 11 anos, quando teve, pela primeira vez, a grande dúvida. Era ou não era bonita?
Primeiro, tentou descobrir por si própria. Diante do espelho comprido do armário de vestir, Madalena se olhou atentamente. Bem magra, os ossinhos do quadril à vista, marcando o pano fino do vestido tubinho, a clavícula junto ao pescoço revelando profundas “saboneteiras”. Lembrou do que lhe repetia a avó, cada vez que se encontravam: “Você tem que se alimentar melhor, minha filha, tem que ter uns quilos extras para perder se ficar doente”.
Era verdade que ela não tinha quilos extras. Também pudera, não parava de crescer. Na turma da escola, era das mais altas. Só umas três ou quatro garotas ficavam atrás dela na fila para entrar na sala de aula. Tentava parecer menor, arqueando os ombros para a frente, o que não mudava muita coisa, além de reforçar o jeito desengonçado.
Mais um motivo para a avó lhe pegar no pé: “Senta direito Madá, ajeita esses ombros!” Realmente, a velha senhora sabia do que estava falando. Sua aparência era sóbria e, mesmo não chegando aos cinqüenta anos ainda, parecia muito mais. O vestido, de uma estampa escura, contribuía para isso. Na cabeça esbranquiçada prematuramente pelo tifo, um coque cuidadoso não deixava um fio fora do lugar. Mas, a postura era impecável!
Foi a mãe de Madalena, porém, que lhe contou, como se conta um segredo: “Vovó só senta nessas cadeiras duras, de espaldar alto, e só dorme de barriga pra cima – o que também evita as rugas – veja como a pele dela é lisinha”.
Ainda na frente do espelho, Madá olhou para seus pés – enormes. Os sapatos de couro preto, amarrados com um cordão no peito do pé, faziam crer que ainda eram maiores. E faziam um barulhão quando andava, por causa da chapinha colocada na parte da frente da sola, para que durasse mais.
Não conseguira convencer a mãe a comprar o modelo de duas cores que a Raquel usava. Essa sim era sortuda: nem baixa nem alta, narizinho arrebitado, cabelo liso, pernas bem torneadas, boca carnuda, grandes dentes. E, ainda por cima, rica. A melhor amiga morava com os pais numa cobertura em Botafogo e tinha até chofer.
As roupas da Raquel eram compradas em loja, as dela, sua mãe mesmo costurava. Não sabia por que, mas não era a mesma coisa – tinha certeza que todos reparavam.
Já estava ficando escuro, quando resolveu continuar se olhando em outro espelho. O banheiro de azulejos amarelos e pretos tinha, acima da pia, uma lâmpada comum. Madalena foi buscar a luminária fluorescente, recém comprada. Viu de bem perto seu rosto refletido. Admirou a cor dos olhos – o azul ficara com um tom violeta, iluminado desse jeito. Eram bonitos, reconheceu.
Os cabelos encaracolados, porém, não obedeciam ao comando da escova. Pareciam ter vontade própria. Resolveu fazer uma “touca”, umedecendo-os e escovando para um e outro lado. Meia hora depois, por fim estavam lisos, como ela queria. Era só não pegar chuva. Isso tinha acontecido no sábado anterior, no caminho para uma festa de aniversário. E fora um desastre. Aí, além de enrolados, ficaram elétricos e nada os convencia a assentar na cabeça. Olhou-se de novo. Lamentou que os cabelos não lhe chegassem nem aos ombros. Abriu, então, a caixa de fitas de pano e prendeu uma ao lado da outra com grampos, na cabeça. Balançou o pescoço e as tiras coloridas, que indo até o meio das costas lhe faziam cócegas, e achou que estava parecida com a Raquel.
Quando o pai chegou lá pelas sete e meia da noite, Madalena se deu conta de que não tinha chegado a nenhuma conclusão. E decidiu tirar a dúvida: “Papai, você me acha bonita?”
- Exótica, minha filha. Você é bem exótica – respondeu o pai, beijando-a na bochecha.
Miriam Danowski
novembro de 2006
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário