O massacre das focas
Ele não queria seguir seus pensamentos, e ficou a olhar para eles:
“Eu devia ter pago a conta de luz na sexta feira – agora não vou mais poder pagar pela Internet – vou ter que ir ao banco – e segunda feira é o último dia do mês – certamente vou enfrentar uma fila – principalmente na hora do almoço, que é meu único tempo livre para resolver essas burocracias – e aí corro o risco de chegar tarde na reunião da Associação Comercial – logo no dia da posse da nova diretoria – ainda mais que eu sou agora o segundo tesoureiro, vai pegar mal – além de que eu queria chegar uns quinze minutos antes para levar um papo com a Clotilde – bonitona a Clotilde.... – a maior sorte ter encontrado ela na loja de CDs naquela noite – o pretexto para a abordagem foi idiota, mas perfeito – você conhece este último CD do Chico? – e aí, papo vai, papo vem – que tal tomarmos um sorvete aqui do lado? – e ela parece que foi com a minha cara – e eu nem estava com a minha melhor pinta – tinha acabado de arrancar um dente e a boca ainda estava um pouco torta por conta da anestesia – e até que o Dr. Jacson não cobrou um preço tão alto – um canal e uma coroa por 1.200 reais, em quatro vezes – não é caro, mas eu é que estou ganhando pouco – isso vai fazer falta – eu estava querendo ir pra Bolívia mês que vem – será que a Clotilde vai querer ir comigo? – ou é melhor convidar o Zéca – é, talvez esse tipo de viagem seja mais pra ir com um amigo – e pensando bem, nem minha namorada ainda ela é...”
Percebeu que era um fluxo inesgotável. Uma coisa puxa a outra, e os pensamentos se encadeavam, se sucediam sem parar, infinitamente.
_ “Mais inacreditável é que parecem ter vida própria. Eu não os comando!” – reconheceu exausto.
Indiferentes à sua inquietação, os pensamentos continuavam a atropelar-se: “Eu não os comando - até parece que eles é que me pensam – isso é uma loucura – acho que ninguém mais se preocupa com isso – as pessoas pensam e só – quem manda eu ser tão esquisito? – desde pequeno que fico brincando com as idéias – até parece que tem mais um cara dentro de mim – me enchendo o saco, me aporrinhando – o que eu digo, ele duvida – me questiona, me deixa indeciso – eu quero ir e ele pergunta se quero mesmo – tem certeza? – tem hora que eu vacilo, ele me deixa de cabeça quente! – será que eu sou mais de um? – bem que o cara do centro espírita me avisou – meu filho, você precisa freqüentar mais, se desenvolver, assim você atrai esses espíritos ruins e eles ficam te atormentando”.
O filme já ia começar. O documentário sobre o massacre das focas no Canadá puxou sua atenção e apaziguou a torrente de pensamentos.
- “O governo canadense aprovou recentemente um aumento no número total permitido para a caça de focas no país: até 350 mil animais podem ser abatidos este ano. As focas de ‘pele branca’ (com até duas semanas de idade) continuam protegidas como resultado de ações do Greenpeace e de outras organizações nas décadas de 70 e 80, quando alguns dos piores abusos contra os direitos dos animais foram banidos. No entanto, as focas adultas são abatidas legalmente sob a legislação do Canadá”...Ele cruzou duas pernas. As outras duas, estendeu sobre a poltrona da frente, aproveitando que o cinema estava meio vazio.
Miriam Danowski
outubro 2006
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
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