terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Coluna de gastronomia,
Revista Mais Búzios 2002 a 2003,
em parceria com Eduardo Harguindeguy

Em Búzios, também se come a paisagem

Para os iniciados, a natureza generosa de Búzios não é desfrutada apenas pelos olhos. Entra-se nela de corpo inteiro, e se é penetrado por ela, radicalmente. E cinco sentidos não são, certamente, suficientes para esse contato tão estreito, tão deliciosamente primitivo.
Não é por acaso que se ouve falar de gente que vem aqui “recarregar as baterias”, “lavar a alma”, “arejar a cabeça”, “zerar o taxímetro”. Vir a Búzios é uma daquelas experiências integrais, em que o corpo e o espírito se alimentam, simultaneamente, reciprocamente. E a culinária buziana, resultado da alquimia operada a partir dos ingredientes trazidos pelas dezenas de culturas que compõem essa nacionalidade cosmopolita, é tão generosa quanto a natureza deste lugar. Pode-se até falar – pegando carona não autorizada no vocabulário do ecologicamente correto – em biodiversidade gastronômica.
Uma outra viagem começa para o visitante. Cozinha francesa, italiana, Argentina, tailandesa, japonesa, tcheca, alemã, espanhola. Muitas vezes, transmutações de várias cozinhas, denunciando o percurso que o chef fez, antes de chegar a Búzios e ser adotado por esta cidade tão hospitaleira.
Conduzido por essa culinária cosmopolita, o paladar vai migrando, também, através dos muitos Brasis, cada estado, cada região – Bahia, Espírito Snato, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo – com uma identidade inteiramente diferente da outra.
A geografia conspira e cerca Búzios, pelo menos a península, de mar por todos os lados, tornando o peixe, os mariscos, os crustáceos, presenças marcantes na maioria das receitas.
Nesse sentido, diz-se que aqui comemos a paisagem, já que se pode degustar tais iguarias, dos inúmeros restaurantes de frente para essas praias paradisíacas, ou em outros, cuja ambientação remete a memória ao cenário ali antes desfrutado.
Os que só querem aplacar a fome, decerto não hão de ter vindo às praias certas. Não encontrarão aqui o utilitarismo das metrópoles, apesar de termos alguns protagonistas da comida urgente – a quilo -, porém de grife. A preferência fica mesmo com a slow-food, não por ideologia, mas por vocação.
Há ainda o imperdível interlúdio com a comida nativa, nos pequenos restaurantes locais, onde os donos, buzianos de berço, pessoalmente pilotam o fogão, e imprimem ao cardápio a simplicidade no preparo dos pratos, nos quais a economia de adereços garante a autenticidade do resultado. Finalmente, o peixe não quer ser nada além de um peixe, a carne é apenas uma carne. Mas tudo com a mesma forte personalidade que, ainda hoje, faz com que esses originais habitantes da antiga aldeia de pescadores fiquem saudavelmente indiferentes aos ricos e famosos, que circulam anônimos e tranqüilos pela Rua das Pedras, sem serem reconhecidos ou assediados.
Alimentar-se em Búzios é mais que uma adorável sensação. É uma emoção, que a memória não apaga, já que inclui, além da comida e da bebida, a experiência da boa companhia à nessa (difícil não se reencontrar por aqui um velho amigo ou não se fazer um novo), o aconchego da ambientação cuidadosamente concebida, a harmonia da arquitetura das antigas construções locais ou a delicadeza dos novos espaços projetados, a qualidade do serviço.
À boa mesa, em Búzios, comparecem a luz, o vento, a lua, as estrelas. A cultura e a história.

Barão de Curupira

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