sábado, 5 de janeiro de 2008

Texto para o Jornal O Perú Molhado
Búzios 2003


Monte Rosa:
“Um pé em Brasília é fundamental”

Entrevista a Miriam Danowski

Há 13 anos, Ronaldo Monte Rosa, na presidência da Embratur, durante o governo Collor de Mello, instituiu Búzios como Área de Interesse Turístico. Significava um controle rígido do uso e ocupação do solo e medidas drásticas para preservar os bens naturais e o estilo singular de nossa arquitetura. O governo federal entendeu, na época, que a importância de Búzios como destino turístico, extrapolava o âmbito municipal. Interessava ao país como um todo preservá-la e valorizá-la. Como a intenção não se realizou, para recuperar o tempo perdido, ele recomenda mais agressividade na política municipal de Turismo, a começar pela criação de uma Casa de Búzios em Brasília

O ano era 1991 e Búzios, ainda 3º distrito de Cabo Frio, era governada pelo prefeito Ivo Saldanha, que se negou a assinar o convênio para a implementação dessa legislação. Assim, nada aconteceu.
Na verdade, aquilo representaria uma emancipação branca, “federalizando” as regras municipais de uso do solo que Búzios havia conseguido introduzir na Lei de Uso do Solo de Cabo Frio, através do vereador Octavio Raja Gabaglia, ainda na gestão do prefeito Alair Correia.
Em passeio por Búzios, no último fim de semana, hospedado pelo empresário Sérgio Murad, Ronaldo, que mora em Brasília, lamenta o fracasso da tentativa: “Aquela legislação poderia ter servido como um freio a certas ambições desmedidas de empresários que, visando o lucro esquecem do aspecto da preservação do patrimônio histórico, cultural ou ambiental. Esquecem que é isso que atrai o turista e faz com que ele venha gastar aqui seu belo dinheiro, gerando empregos, impostos, etc. A gente vê hoje uma Rua das Pedras descaracterizada, com edificações que às vezes lembram a Oscar Freire em São Paulo, às vezes o centro de Campos de Jordão, às vezes Miami”.
Monte Rosa nasceu nas Alagoas, “no município progressista de São Luiz do Quitunde, onde o Banco do Brasil era a única agência bancária”: “Uma vez, eu ia passando de carro, viajando para Pernambuco. Quando cheguei em São Luiz do Quitunde, me deu aquela emoção e liguei pra um amigo em Brasília. Olha, tô passando em São Luiz do Quitunde, e passei! (Risos) Meu pai era gaúcho, engenheiro agrônomo, e foi tocar um projeto de agronomia lá no Engenho Barreiros, onde conheceu minha mãe, alagoana legítima. E foi nesse engenho que eu nasci, de parteira, à moda antiga”.
Como não podia deixar de ser, Monte Rosa esteve entre os convidados para o casamento do filho do ex-presidente Fernando Collor, no último sábado, em Araras, Petrópolis, assim como Eduardo Modiano, Gilberto Gil e outras figuras do empresariado e da classe política nacional. À respeito da cassação política sofrido por seu antigo chefe, diz que pode demorar, mas a verdade vai se restabelecer: “Independentemente de erros que o governo Collor tenha cometido, eu nunca aceitei que ele tivesse sofrido um golpe político. A corrupção que pode ter havido no governo dele foi infinitamente menor do que a que houve no governo Fernando Henrique e que a de hoje. O gancho para tirar o Collor do governo foi o PC Farias, que não era ministro, nem presidente de nenhuma instituição governamental. Mas o que tirou o Collor do poder foi ter contrariado interesses que estavam enraizados aí há séculos. De grandes corporações como a Fiesp. E da classe política que não estava sendo atendida nas suas barganhas. O cara terminou com o cheque ao portador, o título ao portador – essas medidas que permitem fazer um rastreamento -, e ainda foi taxado como corrupto”.

A arquitetura típica – Ronaldo afirma que ninguém pode ser contra o crescimento econômico, o progresso, desde que aconteça de uma forma ordenada. E dá o exemplo da praia do Forte, em Salvador, onde há uma rua de comércio com os restaurantes e butiques, que lembra a nossa Rua das Pedras. No entanto, as lojas de griffes importantes como Richards e Lenny ocupam as casinhas de pescador. Eles tomam esses cuidados: de não deixar que a arquitetura típica do lugar seja descaracterizada.
É também o caso de Veneza, onde, para se ter uma idéia, o Mac Donald está discretamente instalado numa construção antiga, adaptado à arquitetura da cidade, sem letreiros escandalosos.
Mesmo o turismo ecológico, que é um dos mais novos segmentos do turismo já está, segundo ele, atento para não permitir que esse fluxo de visitantes transforme a cultura local. - “A intenção deve ser de manter em sua atividade as pessoas que estão fazendo uma renda, tecendo uma rede, fazendo um artesanato típico qualquer, que é isso que o turista quer ver. É preciso que se preserve esses hábitos culturais, sob pena de se acabar com o glamour, com o charme do lugar” - explica.
A responsabilidade de preservar o que ainda não está destruído está nas mãos, afirma Monte Rosa, do futuro Prefeito ­- a Rua das Pedras, as praias, o ar bucólico de nossa paisagem. Ele fala também de sua perplexidade diante do que aconteceu com João Fernandes: “O que é aquele troço vertical branco? O hotel dos italianos? É um absurdo terem permitido construir aquilo. Aliás, toda aquela ocupação, uma favela-chique” – diz ele, parodiando o Nani Mancini. Fala, igualmente, de sua aflição pelo destino da Ferradura, “que está indo pelo mesmo caminho”.
Não é pouco o que se espera do novo governo. E Ronaldo, também, não economiza em expectativas: “Tem que segurar esse tipo de crescimento deosordenado e de mau gosto. Incentivar o empresariado daqui a resgatar o que havia de belo no passado. Coisas pequenas, mas que fazem uma diferença, como os letreiros das lojas, que devem ser padronizados, ter algum charme. Não pode ser o que está aí, cada um mais berrante, querendo chamar mais atenção”. Lembra que Búzios chegou a ter uma cultura dessas placas de madeira, feitas por artistas locais.
Outra coisa impensável para ele é o centro da cidade sem tubulação elétrica embutida, uma enorme poluição visual justo no lugar mais visitado pelos turistas.

O quadripé essencial - A infraestrutura pública (saneamento, segurança, etc), a infraestrutura privada (hotéis, restaurantes, comércio), o agenciamento turístico e a divulgação (as agências, os operadores, as casas de câmbio), que complementam esse atendimento ao turista, e finalmente os recursos humanos (garçons, camareiras, atendentes). Esses são, segundo Ronaldo Monte Rosa, os quatro pés sobre os quais se apóia o sucesso de uma política de Turismo.

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