Texto para o Jornal O Perú Molhado
Búzios 2006
“Desenvolver sem mudar”, o desafio de Búzios
Por Miriam Danowski (IAB-Búzios)
Saint Tropez, com seus 5 mil habitantes, e com cerca de 1.200 hectares de extensão, tem um dos metros quadrados mais caros da Europa. E isso decorre, segundo o prefeito Jean Michel Couve e o consultor de urbanismo da Prefeitura de lá, Frédéric Finey, de um consenso, de uma espécie de pacto entre a população e seus governantes, que vem se consolidando cada vez mais, graças a um sistema completamente transparente de gestão pública, além de um forte controle do uso do solo
No encontro realizado no Hotel Pérola, Jean Michel advertiu sobre os potenciais desafios do Turismo:
- “O turismo pode ser a melhor ou a pior das atividades econômicas. Se mal conduzido, pode empobrecer um lugar em 15, 20 anos”.
E alinhou as indagações que devem ser feitas por uma sociedade que queira levar avante um Plano Diretor, como Búzios está pretendendo hoje.
-“É para fazer como todo mundo faz? É para parecer mais bonitos do que somos? É para melhorar a qualidade de vida dos moradores?”
Para ele, as respostas giram em torno de duas opções, que foram as escolhidas pela comunidade de Saint Tropez: “Intercâmbio cultural e melhoria da qualidade de vida”.
Em conversa com o IAB de Búzios, no dia anterior, durante almoço no restaurante Cigalon, ele já havia mencionado a política rígida que adotam em relação à proporção entre a quantidade de casas de veraneio e de casas de morador – 1 para 1. A idéia é evitar o acúmulo de edificações que ficam vazias a maior parte do ano, como acontece com os apartamentos da Praia do Forte em Cabo Frio e como aconteceria com os apart-hotéis que queriam se instalar em Búzios e foram, recentemente, rejeitados por mobilização popular. É claro que ajuda o fato de Jean Michel já estar no comando da cidade há 12 anos seguidos, fora os seis anos de um primeiro mandato, garantindo a continuidade dos projetos. Nessa ocasião, falou ainda da sua preocupação sobre o rumo que Búzios vai dar ao seu desenvolvimento: “A entrada da cidade não me entusiasmou muito. Depois conheci o hotel El Cazar, onde estou hospedado. Linda vista pro mar, os barquinhos. Aí me levaram à praia da Tartaruga, maravilhosa! O centro da cidade, então, é mágico. Mas quando fui a João Fernandes, levei um susto! Tomara que não repitam aqui nossos erros lá na Europa. Costa sul da Espanha, sul de Portugal, Cote DÁzûr, Ilha de Malta, sul da Turquia. Eram todos lugares paradisíacos, que foram estragados”.
As autoridades tropezianas entendem o Turismo como indústria e é assim que fazem a gestão da cidade, de maneira profissional, através de uma entidade de economia mista. É, então, essa sociedade anônima de direito privado, tendo o poder público como o maior participante do Conselho Administrativo e principal capital, que garante o comando da Prefeitura em relação às políticas de Turismo.
Da aproximação de Saint Tropez com Búzios, a delegação espera, basicamente, a possibilidade de intercâmbio de clientes e a multiplicação da imagem dos dois destinos turísticos.
O segredo é não crescer – O presidente da AHB, Antonio Valente, revelou, no debate, ter ficado impressionado com a paixão do prefeito de St Trop e sua equipe por sua cidade, o que seria, acredita, a base do bom trabalho que desenvolvem. E perguntou ao prefeito de Saint Tropez como conseguem manter-se tão pequenos, com uma área quase seis vezes menor que a de Búzios, e uma população que é um quinto da nossa.
Jean Michel Couve atribuiu isso à vontade da população, com um forte sentimento de identidade e de pertinência ao seu território: “Queremos nos manter como somos, sem nos deixar seduzir por motivações passageiras, modismos, falsas atualidades. O tropeziano é agarrado às suas convicções e isso facilita a vida o prefeito”. E aproveitou para sugerir ao povo de Búzios o difícil desafio de “desenvolver sem mudar”.
Armando Ehrenfreund e Antonio Valente, respectivamente representando as associações Comercial e de Hotéis de Búzios, além dos presentes na platéia, fizeram ainda outras questões ao prefeito e ao secretário de Turismo de St Tropez:
- Qual é a quantidade de leitos disponíveis na hotelaria?
- Temos em torno de 1.500 leitos e esse número não pode ser ampliado.
- Onde moram os que trabalham nos hotéis, nos restaurantes, no setor de comércio e serviços da cidade?
- Em torno de St Tropez, desenvolvemos planos de moradia para esse pessoal. Mas não vendemos as casas ou os apartamentos populares. Para que não haja especulação imobiliária a partir desses investimentos subsidiados pelo Estado. Preferimos o aluguel.
- Vocês têm hotéis de cadeia?
- Não. Somente hotéis dos roteiros de Charme, a maioria de 20 a 40 apartamentos. Mesmo os nossos dois hotéis com 100 apartamentos, não são de bandeira, de redes, de cadeias. Aliás, a nossa bandeira é que Saint Tropez. Não temos grandes hotéis e não temos redes como Mc Donalds.. Por ter mantido essa identidade é que garantimos nossa clientela, de pai para filho, através de gerações.
- Existe a possibilidade de construir um condomínio de casas em Saint Tropez?
- Não. Não existe esta possibilidade. Não queremos uma cidade de veraneio.
- Como fazem para preservar o meio ambiente?
- Temos uma boa legislação que protege a parte costeira, numa faixa de 150m, além do Patrimônio Histórico e do Patrimônio Ambiental. Mas isso só é possível graças à vontade do Estado francês e das autoridades eleitas. Escolhemos lá dois ou três lugares que poderão ter algum desenvolvimento, desde que isso não mude o aspecto geral da cidade, nem as atividades que correspondem às raízes históricas locais.
sábado, 5 de janeiro de 2008
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