sábado, 5 de janeiro de 2008

Texto para o Jornal O Perú Molhado
Búzios, 2003

A arte nada ingênua de Ivy Maria

Por Miriam Danowski

Quando, há 30 anos, Ivy desembarcou de um navio no porto de Santos, vinda da Áustria com seu marido Nikolaus, ficou deslumbrada com a multidão de gente, cada um ocupado com uma atividade diferente, cada um vestido de um jeito. Naquele momento sentiu, definitivamente, o pulso tropical. E, mais do que qualquer outra sensação, a cor. A profusão de cores, da qual nunca se afastaria em suas pinturas.
Ivy Maria Jancso é de descendência húngara. Aliás, a sensibilidade para as artes parece rondar a família – ela é prima do reputadíssimo cineasta Miklos Jancso.
Mas ela, que morara na França e diversos países da Europa, além da Áustria, acabaria, em São Paulo, habitando, não a capital, mas um lugar perdido, num sítio, comprado de um japonês, em Suzano, que hoje faz parte da Grande São Paulo, mas que, naquele tempo era completamente isolado. É que, depois de problemas no parto de um de seus quatro filhos – “Os médicos só queriam fazer cesariana!” -, desistiu do arremedo de civilização da cidade grande e confiou mais na saudável vida do campo, na boa comida, nos bons ares.
De início, os vizinhos estranharam aquela gente de roupas finas, de hábitos sofisticados, mas que, depois se aproximaram, passando a tratá-los como amigos. Ela conta que plantou ali muitas batatas e que, os camponeses da região, com o tempo, os imitaram, fazendo que essa cultura se espalhasse e virasse tradição.
Naquela época, Ivy, que, na Áustria, ensinava História da Arte e trabalhava com desenho de moda, não pintou muito, já que estava completamente envolvida com a criação de seus filhos. “Eram anos do governo Geisel – diz ela - e lembro que ficávamos impressionados com o séqüito de empregados de que podíamos dispor”. Na Europa, além de cara, esse tipo de mão de obra, doméstica, era raríssima – como ainda é.
Hoje, habitando uma casa muito tranqüila, no Village dos Ossos, com uma vista repousante sobre o mar de Búzios, ela revive um pouco aquele tempo. E cantarola uma velha modinha carioca, que fala de lugares perdidos: “Moro onde não mora ninguém, onde não vive ninguém. É lá onde moro, onde eu me sinto bem”.
Entre o sítio paulista e a calma de sua vida atual, Ivy viveu, porém, um período de vida social intensa, até porque os negócios de seu ex-marido, que era presidente de uma multi-nacional, pediam isso.
E esse movimento, as pessoas, as cores, impressões que a marcaram, desde que botou, pela primeira vez, os pés no Brasil, estão capturadas na suas telas. À primeira vista, um observador desatento poderia considerar sua pintura primitiva, ingênua. Mas há ali bem mais do que isso – uma inteligência, um humor delicado, uma inquietação. Ora nos remete a Matisse, ora às pinceladas dos fauvistas mas, sobretudo à uma linguagem muito pessoal, autêntica.
Em Búzios, Ivy se sente à vontade – “É o meu lugar”. Mas confessa que não escapou da força que a paisagem aqui exerce sobre os artistas. - “Eu não era tão figurativa, não sou realmente uma primitiva, mas alguma coisa acontece aqui que me faz querer pintar assim”.
Ela não parece ser, no entanto, com seu jeito meio sério, um pouco à la Jeanne Moreau, pessoa que tenha medo de experimentar a vertigem, bem conhecida dos artistas, a cada começo, a cada novo trabalho. E escapa, com sabedoria, desse canto da sereia, que seduz grande parte dos artistas de Búzios. Não é por menos que descobrimos, surfando, numa dessas pinturas, o próprio São Francisco, em sua batina e suas sandálias. E, numa outra, um vaso, onde não há flores, mas peixes.
A recorrente ilha Feia, mulheres vestidas como européias em cenários tropicais. Por toda a casa, paredes repletas de suas telas e de telhas, sobre as quais ela também pinta. E há, também, um livro, autobiográfico, que ela está escrevendo, devagar, memórias de viajante.
A poucos dias de uma exposição de seus trabalhos no Espaço Cultural dos Correios, no Rio, onde ela vai mostrar, de 10 de março a 10 de abril, cerca de 40 pinturas, Ivy pensa alto: “Pintar é tão solitário...”, enquanto tenta fugir da máquina fotográfica, com que tentamos fazer uma foto dela para esta matéria.
É solitário pintar, é solitário viver, mas não há escolha – bem sabe Ivy – para quem precisa pintar para respirar. Mesmo porque, como diz seu filho Stephan: “Ela não pinta para os outros, pinta para ela mesma”.

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