Coluna de gastronomia,
Revista Mais Búzios 2002 a 2003,
em parceria com Eduardo Harguindeguy
Por paladares
nunca dantes navegados
Caro leitor, há dias em que nosso espírito amanhece com um quê de explorador, sentimos na alma a ânsia de aventuras, de descobrir o inesperado por mares nunca dantes navegados, quiçá um pouco do fogo dos lusitanos antigos, desbravadores de mares e continentes à procura de temperos e especiarias, que deliciavam os requintados paladares europeus.
Num desses dias, andando pela Orla Bardot, fiquei extasiado diante das silhuetas dos belos veleiros aportados no nosso acolhedor ancoradouro, do brilho do sol nos mastros, do barulho das enxárcias batidas pelo vento, do grito das gaivotas. Súbito, eu era dois: meio Lord Jim, meio capitão Kirk. Um desejo de exotismo, de mudança, uma necessidade de, por momentos, me colocar nas antípodas e mergulhar num mundo diferente e invulgar.
Dado que a melhor maneira de vencer uma tentação é, desde que Oscar Wilde o descobriu, entregar-se a ela, decidi que deveria o quanto antes resolver esta questão, antes que se transformasse em obsessão.
Travava este duelo interior, quando me deparei com minha amiga Orianne de Guermantes, a bela duquesa de olhos cor de pervinca, que se compadeceu deste seu fiel súdito e admirador e ordenou: “Meu querido Barão, nenhum de seus ilustres ancestrais foi jamais um pusilânime, tampouco um poltrão. A que vem agora esta languidez? Aqui mesmo em Búzios, existem lugares adequados para acalmar certos desejos, sem necessidade de viagens incômodas e malas perdidas em aeroportos anônimos e vulgares. Siga-me, ou levá-lo a um lugar em que você poderá submergir-se no incomum”.
Aceitando o convite da minha formosa amiga, deixei-me guiar por essa Beatrice resoluta que, sem demora, me dirigiu, margeando o passeio à beira do mar, para o restaurante Sawasdee. Exóticas iguarias tailandesas acenavam para nós.
Fomos recebidos pelo Marcos que, em seu impecável traje branco, oficiava como capitão da cozinha e que, num lampejo, compreendeu a nossa necessidade.
Guiados pelo seu pulso firme, entregamo-nos então a seus sábios conselhos numa viagem redentora através dos aromas, sabores, texturas e cores da cozinha Thai.
Algum senão sobre a pimenta? – perguntou nosso chef, delicadamente. Minha amiga vacilou e murmurou alguma coisa, que não ouvi, mas adivinhei, conhecedor de seu espírito simultaneamente firme e volátil: ela temia perder a consciência, no frenesi de tal intensificador de sabores. Já eu, ávido de intensidades e de inconsciências, desejoso inclusive de testemunhar as dela, respondi que estava pronto até para os excessos. Deve o leitor saber que o gengibre, o alho, o curry e as pimentas ardidas são usados, na cozinha tailandesa, para incendiar mesmo os mais delicados paladares. E lá foi o Marcos em direção à cozinha, enquanto nós bebericávamos um aperitivo de lichia com sakê, refrescante e introdutório da viagem que nos aguardava.
O inusitado nos surpreendeu já no primeiro prato: camarões levemente fritos, vestidos com lichias e acompanhados de um relish de cenoura, pepino e folhas de hortelã finamente fileteadas. O ácido, o picante, o doce e o salgado. Para além do óbvio, a harmonia desses sabores trazidos do antigo reino do Sião, não resulta – ao que começamos a perceber – das semelhanças, mas dos contrastes.
Quando o gentil garçom nos trouxe a iguaria seguinte, nossa imaginação já nos havia transportado para Bangkok, onde, entretidos, observávamos, no movimentado mercado flutuante de Damnoebn Saduak, no de Cahttuchak, ou no de Chiang Mai, a infinidade estonteante de temperos , ervas, frutas frescas e toda sorte de ingredientes.
Mas a volta ao Sawasdee – “bem-vindo” em tailandês – foi muito bem recompensada e passamos a degustar uma berinjela grelhada, de pele crocante, polpa macia, regada ao molho de missô e gergelim. E eu me dei conta da importância das texturas – a resistência que o crocante, nessa culinária exótica, impõe à nossa voracidade. Uma resistência que, de tão sutil, se vira em convite. Não sei bem por que, este pensamento me fez lançar um olhar furtivo em direção à minha amiga duquesa que, mordiscando seu último pedacinho de berinjela, no entanto, já estava longe, levada pelo devaneio daqueles sabores d’além mares.
Enquanto minha companhia ia distante, consultei a carta de vinhos da casa, e a encontrei bastante diversificada, com muitas opções, inclusive alguns regionalismos, como vinhos de Rioja (Espanha) e Sardenha (Amarone Vila Erbice).
O aroma do camarão ao leite de côco, curry verde e açafrão fez finalmente regressar dos sonhos a bela de Guermantes, e pudemos experimentar juntos mais uma delícia. Desta vez, os camarões descansavam majestosos sobre um ninho de macarrãozinho de trigo sarraceno, frito no wok, que, de onde estávamos, podíamos observar ser manuseado com maestria pelo chef Marcos.
Ainda o destino nos reservava outra maravilha: um filé de congro ao caramelo de curry, num prato delicadamente decorado com finas tiras de aipo e cenoura e lasquinhas de limão cafir. Exultei quando Marcos confirmou minha primeira suspeita quanto à identidade daquele pescado: a consistência e a carne branca, no máximo, me fariam confundí-lo com um cherne.
É um exercício que faço sempre – tentar adivinhar os ingredientes. Chego a provar certas combinações de olhos fechados, para não me ludibriar pela evidência do olhar, o mais ocidental dos sentidos. Porém, ali, de frente para o mar da Armação, na ambientação agradabilíssima do Sawasdee, nem foi preciso. Mesmo de olhos abertos, segui minha acompanhante nos seus devaneios e, súbito, estávamos em contato com o verdadeiro espírito da Tailândia, com o aroma das flores e dos incensos, o requinte ornamental dos templos budistas, as procissões de barcos, as cores fantásticas dos tecidos.
Para saciar finalmente qualquer anseio de exotismo só faltava a satisfação final: salada de frutas com sorvete de creme sobrenadando num molho quente de laranja discretamente temperado. Novamente, os contrastes dessa linguagem gastronômica tão sutil, em que qté o quente e o frio dialogam.
Difícil foi partir de tão acolhedor ambiente, mas lá fomos nós, sabedores de que novas aventuras nos aguardavam, em algum outro recanto desta Babel de mil sabores que é Armação dos Búzios.
Barão de Curupira
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
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