sábado, 5 de janeiro de 2008

Texto para concurso da Revista Piauí (*)
Búzios maio 2007

O tanque da Harley

Os desafios que o professor de literatura gostava de propor aos seus alunos já tinham ficado famosos na história do liceu. Não se contentava em sugerir um tema ou um título. Preferia propor uma frase, que os alunos tinham que dar um jeito de encaixar nas dissertações. No quadro negro, escrevera a frase da dissertação do mês: “… E escondeu o punhado de cânfora no tanque de sua Harley”.
Matias virou-se para José e comentou: “Oba, sei tudo sobre motos, essa vai ser mole para mim”.
Gaspar, debochado como sempre, foi logo dando um jeito de driblar a tarefa: “Se a empregada do cara se chamasse Harley, ele podia esconder a tal da cânfora no tanque de lavar roupa dela...”
Encantava ao professor Gustavo, mais que o resultado final, os caminhos tão pessoais que cada um escolhia para resolver a empreitada. Para medir a reação da turma diante dessa sua nova proposta, olhou detidamente para cada aluno. E, com maior atenção, para o Tadeu, sentado como sempre na primeira fila, ajeitando de tempos em tempos o cabelo liso que teimava em cair-lhe sobre os olhos. Era mesmo bonito o rapaz, reconheceu o professor. Ainda mais assim, com a expressão intrigada de quem tentava decifrar uma charada.
O velho Gustavo se deu conta, mais uma vez, de que era a ele que seus desafios literários eram endereçados. Tadeu não era muito de falar, mas tinha uma percepção aguda. As poucas observações que fazia eram tiros certeiros.
Alheio à admiração do professor, o rapaz estava de fato entretido com a frase escrita com giz no quadro negro. Viu que precisava saber o que era realmente a cânfora e para que servia. Indagado, o professor explicou que a cânfora não é solúvel em água, mas que, com facilidade, se dilui na gasolina ou na benzina. Disse também que instituições de pesquisa têm denunciado a grande toxicidade da substância e que o governo tem tomado medidas para controlar seu uso na fabricação de esmaltes de unha e outros ítens da cosmética, no contato com crianças e pessoas doentes, principalmente.
Em seguida, Tadeu reparou que a frase falava de um punhado, que não deixa de ser uma medida de quantidade, só que muito imprecisa. “Um pouco parecida com pitada, que aparece na maioria das receitas culinárias, principalmente quando citam o sal como ingrediente” – pensou.
“Da mesma maneira, punhado deixa um bocado de arbitrariedade para o protagonista da receita”. Quando pensou isso, notou a palavra bocado, que é ainda mais imprecisa – tanto, que nenhuma receita costuma usá-la. Uma coisa sabia. Um punhado não é muito. E podia se referir a uma substância em pó, umas folhas, uns ramos....
No entanto, se a cânfora fora escondida no tanque da moto, esse “escondida” significava que o sujeito pensava em recuperá-la depois. E, sendo assim, provavelmente não a teria colocado ali na forma de pó. Só se não sabia que a cânfora iria se diluir. Ou será que teria um jeito de coar a gasolina e recuperar a substância original? Ou deixar a gasolina se evaporar, simplesmente?
Para esclarecer esse tipo de dúvida, teria que procurar alguém do curso de química. Mas antes, Tadeu preferiu investigar melhor o assunto. Na verdade, tinha um certo orgulho de sua organização mental, de testá-la nesses desafios. Olhou pro lado e viu a preocupação estampada na cara de vários colegas. Ele, no entanto, sabia que o importante era ficar tranqüilo e abordar todos os ângulos do problema, antes de tirar qualquer conclusão.
De repente, percebeu que havia uma coisa antes de todas. Uma espécie de invasão de domicílio. O professor dar um título, um tema, era aceitável, porque era claramente um exercício de poder. Mas querer que uma frase de sua autoria fizesse parte da redação alheia, era bem diferente, uma imposição disfarçada. Antes mesmo de encaixar a frase no texto, Tadeu começou a senti-la como um corpo estranho, um intruso. Depois, numa reversão súbita de sentimento, teve vontade de construir todo o conto ao redor desse estranho. Quando pensou “ao redor”, imaginou, é claro, um círculo, e a frase perto do centro, nem no início, nem no fim. Mas isso era muita submissão, uma aceitação incondicional da autoridade do mestre. Imaginou, em seguida, outra solução: largar a frase distraídamente em algum lugar do texto. Um lugar onde ela passasse quase desapercebida, onde não pudesse exercer qualquer tipo de contaminação.
Lançou um olhar para o professor, que lhe retribuiu sorrindo com cumplicidade, sem saber que o rapaz não estava se sentindo nem um pouco cúmplice. Ao contrário, o sentimento de Tadeu era mais de raiva. Só que uma raiva diferente, que lhe dava um certo prazer, e o aproximava do professor Gustavo, como uma vítima se aproxima de seu algoz.
O rapaz, vivendo a estranheza daquela emoção nunca antes experimentada, não fazia idéia da verdadeira razão desses jogos mentais postulados pelo mestre.
Gustavo era um homem esquisito, inquieto. Achava que nada de mal lhe acontecia. Nunca batera com o carro, nunca ficara seriamente doente, nunca fora demitido. Preso, por participar dos movimentos estudantis na faculdade, escapara ileso, sem ser torturado. Não porque tivesse delatado os companheiros, mas porque ninguém tivera nada para lhe perguntar. Sentia como se tivesse o “corpo fechado”. Isso era bom, mas era também motivo de angústia. Era como se a sensação de estar invisível, que ele tantas vezes tivera na adolescência, tivesse contagiado tudo. Como se ele não fosse muito real. Como se planasse, sem peso. Por vezes, desejou ter uma âncora. Ou uma coisa muito pesada, para amarrar no pé e voltar para o mundo.
Cada vez que sentava para ler um livro, acontecia coisa parecida: uma frase era o suficiente para alimentar meia hora de devaneios. Seu mundo interior não dependia quase nada do que vivia. Assim, quando começou a ensinar literatura, viu que aquela era uma ótima maneira de se apoderar da vida alheia. Isso sim, mobilizava-lhe a curiosidade e lhe atiçava o ânimo.
A idéia das frases-intrusas surgira durante sua diversão favorita dos fins de semana – a pintura. Mas ele não conseguia criar alguma coisa do nada. Sentiria vertigem se tivesse que pintar numa tela em branco. Preferia consertar o que alguém tivesse feito antes.
Num armarinho, comprava um pedaço pequeno de tecido, de preferência um retalho da banca de saldos. Colava aquilo numa folha de papel, com muita margem. E ficava horas ali, completando a padronagem, ampliando o tecido até suas novas margens. As vezes, completava só as linhas. Outras, estendia as cores. E, como lhe afligia a falta de limites, ia fazendo as cores se desvanecerem, para o final não ser muito abrupto.
Quando esticava as linhas, dava um jeito delas se emaranharem, de modo a esconder as pontas. Senão, outro aflito podia inventar de continuá-las. Quando o sol começava a se pôr, ele se apressava em terminar a pintura e definia claramente as margens, para que nenhuma dúvida pairasse de que aquele era o final.
O sol também se punha quando, no final da aula, Tadeu se aproximou de sua mesa para entregar a redação. Gustavo estremeceu ao sentir a aproximação do aluno. Respirou fundo, decidiu que não era a hora de remexer sua vida, foi até o quadro negro e escreveu a frase do próximo conto: “O gongo bateu na lateral da locomotiva e nenhum passageiro arriscou um pio”.

(*) O texto não foi mandado porque perdi o prazo

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