sábado, 5 de janeiro de 2008

Texto para o Jornal O Perú Molhado
Búzios 2006

Na cama: um filme de ação

Por Miriam Danowski

Parece insólito, mas o filme do jovem chileno Matías Bize, rodado em 1995 e exibido no XII Festival de Cinema de Búzios, consegue ser cinema de ação, ainda que rodado, integralmente, dentro de um quarto de motel. E não falo só da tórrida transa do jovem casal, que a fotografia de Gabriel Diaz e Cristián Castro, primeiro, transforma em pintura abstrata e, depois, decompõe em percepção cubista.
Uma troca de olhares numa festa, meia dúzia de palavras, clima de sedução. Nada disso vê o espectador, que só fica sabendo que os dois acabam de se conhecer.
Enquanto não há passado nem futuro, o contato físico dispensa palavras. Intimidade total na completa presença. Não há ali ninguém além de Daniela e Bruno. Depois, tornam a fazer sexo, conversam, fumam, fazem sexo de novo, falam e fazem silêncio.
Eles não sabem nem o nome do outro. Ela pede pra ele adivinhar. No jogo de tentativas, desfilam todas as mulheres da vida dele – as que conheceu e as que imaginou. E ela não pode decidir na pele de qual gostaria de estar.
- E, agora, o que fazemos? – ele pergunta. São quatro da manhã. Ele liga a TV. O filme de sacanagem não desperta nenhum interesse – redundante. Daniela sintetiza: “Muito cedo para partir, muito tarde para chegar”.
Onde ela não pode chegar a esta hora? – ele se pergunta, mas não pode perguntar.
Primeira ausência: um, depois o outro, vão ao banheiro. Quando ele vai, ela abre sua carteira e descobre fotos de crianças – provavelmente os filhos. Depois, na vez dela, é ele que vasculha sua bolsa: convites de casamento – o dela, daí a poucos dias. Mentira ou versão?
Primeira invasão: o celular que toca. Ela diz que é a amiga, em quem o marido bate. Isso explica a ligação tão fora de hora. Um pouco depois, toca o dele: é a ex-mulher. Quer saber onde está.
- Com os amigos do mestrado - ele engana.
Primeira briga: no calor da interlocução amorosa, ele chama pela ex. Quer consertar, mas erra o nome da amante. E ela se debate num ciúme que não tem o direito de estar ali. Mas está e produz o primeiro ressentimento: como você se sentiria se eu fizesse isso?
O glamour do encontro estremece, se ofendem, se recriminam. Confessam a insegurança que se instala, passado o êxtase do contato físico.
- Como eu vou saber se você não é uma dessas malucas, que vai ficar me ligando todo os dias?
- E como eu vou saber que você não é um desses tarados, que vai me sufocar daqui a pouco, com uma meia de seda?
Provavelmente, não vão se ver nunca mais. Mas é para essa desconhecida que ele conta um segredo que nunca revelara a ninguém. Sobre o dia em que se calou ao ver o irmão que fugira. E sobre a culpa que carregava depois do sumiço do menino para sempre. E é para esse desconhecido que ela também conta que o homem com quem vai casar bateu nela diversas vezes – que o drama da amiga era, na verdade, o seu.
Comovente no filme a linha fina sobre a qual se equilibram os dois amantes. Viver o momento como personagem de si próprio ou se entregar, deixar-se conhecer e, nessa medida, conhecer o outro? Um dilema que vai se complicando, enquanto a vida lá de fora, pouco a pouco, invade o quarto, e a cama. Não estão mais a sós. Ao seu lado se deitam todas as facetas da dimensão humana, que Matias Bize expressa no texto impecável – os defeitos, as idiossincrasias, os desejos e os medos de todos nós. Mais ação que isso?

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