Búzios, agosto 2002
Canevacci:
“Búzios, metrópole comunicacional”
Entrevista a Miriam Danowski
A cidade está se preparando para fazer seu Plano Diretor e uma pergunta continua sem resposta. Que cidade nós queremos? Mesmo porque nem sabemos quem somos nós. Uma bucólica vila de pescadores? Um balneário democrático, acessível a todos? Um lugar chique, de turismo internacional?
Nessa Praia de Babel (d’aprés Marcelo Lartigue), vamos indo. De crise em crise, de temporada em temporada. Adorando quando os turistas chegam, mas logo torcendo para que vão embora e a cidade fique toda pra nós.
O projeto da Torre de Babel era ambicioso. Conectar a terra com o céu e conversar com os deuses diretamente, olho no olho. E deu no que deu. Crime e castigo – uma tremenda confusão, cada povo condenado a falar uma língua diferente, ninguém se entendendo.
Nós buzianos aprendemos a lição e fomos mãos humildes. Horizontalizamos o projeto e transformamos a torre em praia. Não falamos direto com os deuses, mas em compensação nos entendemos (quase sempre). Cada um por aqui fala uma língua, mas isso é o de menos. Numa dessas capas do Peru, se disse uma vez, por ocasião de uma copa do mundo, que Búzios não tinha dúvida de que ia ganhar. Claro, são tantas as nossas nacionalidades, que uma delas ganharia.
Seríamos tudo isso ao mesmo tempo? Bucólicos, chiques, democráticos? Cosmopolitas, pescadores, deuses?
O antropólogo Massimo Canevacci, da Universidade de Roma, fala aqui sobre esse desafio do homem contemporâneo de habitar identidades múltiplas, inventar constantemente o presente, integrando o local com o global, sem tentar afastar os conflitos. Esta entrevista foi dada em sua vinda à Búzios, na última semana, para participar do Seminário de Antropologia Cultural e Comunicação Visual, organizado por Carmen Tatsch, pesquisadora da escola de Comunicação da UFRJ, que desenvolve, sobre a Rasa, a pesquisa “Resgate do Folclore como recurso à promoção de bem estar sócio-interacional”.
- Não é assim também com o dualismo esquerda-direita?
- Isso é um pouco complicado. Mas os partidos de esquerda não compreenderam ainda muito bem esse processo de mudança, por isso, às vezes, a direita ganha mais facilmente, pois embora não domine a teoria, sabe na prática. Berlusconi, o primeiro ministro da Itália, é um exemplo. Ganhou as eleições com relativa facilidade por ser homem das comunicações, donos de tvs e jornais. A comunicação é política. E a direita sabe fazer essa relação entre a política e a comunicação. Hoje, você tem que saber intervir na luta dos signos, dos símbolos de comunicação – o jeito de vestir-se, de fazer música, de utilizar o corpo. E, no corpo, nada é natural. Tudo é construído, através de formas culturais. A esquerda e, de modo geral, as ciências sociais, tem dificuldade de entender. Que o corpo não é natural, mas uma construção. Cada indivíduo é muito particular e na sua vida quer produzir e não herdar. Isso significa que a identidade pode ser múltipla. Inclusive eu, num mesmo dia, posso atravessar identidades diferentes. Agora estou aqui, com esta roupa, falo com você. Antes, eu era outra pessoa. Esta noite, não sei onde vou, que roupa vou vestir, que música vou ouvir.
- Isso não causa uma certa vertigem?
- Está certo. É uma grande vertigem, mas também um grande desafio. Pode ser percebido como fratura, fragmentação, onde você pode perder. Há uma tradição de ler os fragmentos como uma coisa ruim. A minha perspectiva é muito diferente. Eu gosto da fragmentação do meu eu, dos meus eus. O plural do eu não é nós, é eus. É uma pluralização da minha individualidade. Que eu quero chamar “multividuo”. Uma multiplicidade de subjetividades, que eu posso, como um cyber-pirata, por exemplo, conseguir através da Internet. Lá você pode adquirir a identidade que quiser.
- É como a liberdade que a gente tem hoje de não ficar assistindo um único filme ou um único canal na TV? Com o controle remoto, editamos a nossa programação, construímos nosso próprio canal.
- Sim, cada pessoa constrói sua própria viagem, que é totalmente individual. Não é uma experiência comum. Nesse sentido, também, a dimensão coletiva, comunitária, é uma coisa horrorosa. Todo mundo aqui fala da comunidade de Búzios, mas a comunidade significa que não tem uma diferença entre os indivíduos. A comunidade deve resolver tudo, sem conflito, sem diferenças, sem controle. Em primeiro lugar, comunidade é controle. Um controle terrível. É difícil sair do controle da comunidade. A palavra comunidade parece que tem um poder mágico, de resolver os conflitos – religiões, partidos, individualidades, jeitos de viver. Mas não existe isso. E se existisse seria uma coisa horrorosa. A diferença é fundamental. O passado da modernidade foi saber escolher o que era comum. Agora, é poder escolher a diferença entre as pessoas. Este é um momento fascinante. A diferença tem a mesma importância que uma vez teve a identidade. A gente está transitando de um sistema lógico, político, filosófico, antropológico, fundado sobre a identidade, para um sistema muito mais complexo, onde a diferença é que funciona. E isso significa que num mesmo sujeito também estão as diferenças.
- Diante do “multividuo”, como fica a questão da representação, mesmo a política? Já que cada um é muitos, como se fazer representar?
- Na minha opinião, está acabando um sistema político baseado nos partidos. A forma “partido” nasceu, alcançou a maturidade, envelheceu e está morrendo. Que novas formas, “pós-políticas”, podem ser inventadas? O conceito é meio ambíguo, não sei o que dizer... Gosto também de falar das formas apolíticas. Porque a matriz da política é a Polis, a cidade, a modernidade. Se o contexto é a metrópole comunicacional, também a política, como uma forma lingüística, como um conceito, não é mais adequada. Tanto na Europa, como nos Estados Unidos - no Brasil, também, está nascendo – aquilo que se chama “tatz” (temporary autonomous zone = zona temporariamente libertada). O melhor exemplo para isso é a rave, uma festa ilegal, que você faz em uma velha fábrica abandonada, onde você pode convocar, de uma maneira informal, dezenas de pessoas. Por uma noite, ou duas, a velha fábrica, que era o lugar da produção, volta a ser um espaço de liberdade, com música inovadora, etc. Momentos temporários de liberdade são fundamentais para se viver numa multiplicidade. Porque, se você pára, você fica numa condição de estabilidade e, em grande parte, reproduz o poder.
- Voltando a Búzios, com suas inúmeras nacionalidades...
- Você estava me dizendo que um levantamento estatístico apontou que quase 50 etnias diferentes estavam presentes em Búzios. A tentativa de restabelecer uma Búzios de pescadores – como era bonita a Búzios da minha infância, dava muito peixe, as casas ficavam dia e noite com a porta aberta, toda essa brincadeira. Isso não pode mais existir. Agora, Búzios é um espaço, mais que um lugar. Lugar é muito identificativo, espaço é bem mais fluído, multiplicativo, no qual a tensão, o desafio, entre o que é bem localizado e o que é bem globalizado se produz. E o desafio não pode se resolver de uma só maneira, restabelecendo apenas o “local” ou ficando somente no “global”. É o que a gente gosta de chamar “glocal”, uma tensão constante entre o local e o global. E cada pessoa pode tentar inventar a sua resposta. A resposta não pode ser uma identidade de Búzios. Nunca vai ser isso. (Risos...) Búzios será sempre mais um espaço de liberdade e de experimentação, se transcorrer nesse tipo de fluxo e lidar constantemente com sua pluralidade de identidades.
- Como podemos aqui em Búzios pensar sobre a cidade, já que vamos fazer nosso Plano Diretor, dar os rumos para onde a cidade deve crescer ou se desenvolver. Como isso vai se expressar no espaço?
- É a mesma coisa. O que falei se refere também ao Urbanismo e à Arquitetura. Búzios não pode ser o que foi uma vez, nem como é Las Vegas. Búzios tem que inventar sua própria forma. Fiquei muito impressionado com aqueles trabalhos expostos no seminário, feitos com giz, muito original. Assim é com o Urbanismo e a Arquitetura. Você tem que inventar formas inovadoras. Você não pode, por exemplo, parar o consumo. A cidade era a da produção, agora é do consumo, que é tão importante quanto a comunicação. Mas o que significa consumo? Uma cidade como Búzios, que tipo de consumo tem que oferecer? Não somente ao habitante, mas também ao estrangeiro. Isso pede novas formas na Arquitetura. O arquiteto mais interessante da contemporaneidade é o que sabe produzir formas que não são mais paradas, mas múltiplas. Que se movem. No Japão, na Holanda, há muitos arquitetos bem experimentais, cujos edifícios não param. O exemplo pode ser banal, mas veja o Mexicoloco...
- Ah, o Guapoloco...
- O que o Guapoloco fez? Utilizou um tipo de Arquitetura desconstrutiva, modificando a perspectiva (fazendo-a oblíqua), que foi utilizada por muitos arquitetos experimentais dos anos 80 e 90. Você pode entender que aquela multiperspectiva, embora seja uma tentativa um pouco simplista e banalizadora, segue uma tendência da arquitetura contemporânea, muito interessante. Muitos arquitetos contemporâneos não querem fazer lojas, casa, espaços, na forma da perspectiva tradicional, preferem a multiperspectiva e acabou. Libenskind, Ghery, Ito, diversos arquitetos estão produzindo novas formas. Acho que Búzios podia ser um espaço onde esse tipo de arquitetura inovadora pode produzir um urbanismo diferente. Que está no presente, mas que produz futuro. E não se congela no passado dos pescadores.
- Nós arquitetos estamos muito incomodados com os muros, que estão mudando a cara da cidade.
- As casas no lado esquerdo da Praia do Canto, que chegam até o mar, parecem fortalezas. Você passeia pela praia e tem esse muro, que é um horror. Você fecha a relação entre a cidade e o mar com esse tipo de privatização. Incrível, a estrutura arquitetônica é horrorosa. Não sei como o município de Búzios permite uma coisa assim, deviam ser destruídos.
- Também acontece com os condomínios – bairros dentro de muros. Explica-se pelos problemas de segurança, mas é horrível.
- Sim, urbanisticamente, é uma coisa horrorosa.
- Discutimos muito por aqui, também, a preservação do estilo de Búzios. Que está se perdendo.
- Você não pode reproduzir a casa do pescador dos anos 50. É uma coisa simplesmente ridícula, não funciona. Os arquitetos têm que fazer novas formas arquitetônicas, que respondam às normas da administração da cidade, mas que permitam as pessoas escolher. Essa relação entre a forma de arquitetura experimental e a forma da arquitetura ligada ao contexto é fundamental.

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