terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Tratando mal o gato

Ele não estava nem aí pras contas, e sobrava para Eva administrar a papelaria e também a casa e as crianças. O Silvio só queria saber de receber a “mesada” no fim do mês. Que ela descontasse o que cabia a ele pagar das despesas, e desse pra ele o dinheiro limpinho, pra que gastasse no bar, no cigarro, nos livros.
Quando Eva começava a se sentir explorada, ele fazia uma meia dúzia de elogios a respeito de sua habilidades de gerência, a capacidade que tinha de economizar, ao carinho com que cuidava dele, e Eva acreditava, mesmo sabendo que, embora aquilo fosse verdade, dito naquela hora, servia apenas para aplacar seu mau humor, deixando tudo como estava.
Antes de casarem, Eva também lia muito. Agora, não tinha tempo. Ou talvez tivesse perdido a vontade.
Só se deu conta, porém, de que as coisas não podiam continuar desse jeito, quando se surpreendeu tratando mal o gato.
- “Que gato chato!” – murmurava irritada, cada vez que o bichano pedia comida. Bem verdade que, estando ou não com fome, o gato miava toda vez que ela chegava da rua, querendo entrar em casa. Mas, tempos atrás, ela, compreensiva, argumentara com Silvio que aquela era uma maneira dele expressar sua afeição pelos donos. E até sugerira que colocassem só um pouquinho de ração no prato, já que ele miava mesmo com o prato cheio.
Para onde fora aquele seu carinho pelo gato? Nem o chamava mais pelo nome – Coringa -, alegando para si mesma que gatos não precisam ter nome, já que, arrogantes, não atendem quando chamados.
E assim Eva implicava o dia inteiro com o gato. Chegava a ser bruta quando sacudia a cadeira da sala de jantar – lugar preferido dele -, na hora em que iam dormir. O felino saía, bem devagar, como para ganhar tempo e ver se ela desistia de botá-lo para fora. Às vezes, tentava voltar para a sala e ela era obrigada a gritar: “Fora, fora!”.
Antes, não era assim. Lembrou de como costumava passar no gato seu pé descalço. Ele, virando de barriga para cima, todo dengoso, ronronando. E de como o Coringa, mal a via deitar no sofá para ver televisão, se aboletava em cima dela, depois de dar umas voltas engraçadas em torno do próprio rabo.
Quando percebeu sua descortesia com o gato, lembrou também que já estava há seis meses sem visitar seus pais. E de como inventava mil desculpas para justificar que tinha que sair, quando eles falavam em fazer um visitinha. – “Aquelas mesmas conversas – antecipava, entediada – os problemas de saúde, a falta de grana, as reprimendas de que as crianças não ligavam para saber dos avós”.
Lembrou depois dos amigos que fora abandonando pelo caminho. No início, pensou que recusava os convites para ficar mais tempo sozinha com o Silvio. Agora, desconfiava que era para evitar que vissem como ele era chato e com que descaso a tratava. Ela já via isso. Mas, se os amigos vissem, ela teria que ver mais ainda.
Já que não conseguia dormir, resolveu limpar com a escova o sofá da sala, cheio de pelos do gato. Foi então que Eva olhou as paredes e viu que precisavam ser pintadas. Nos cantos da sala, o branco da tinta já estava escuro, e nos rodapés, onde a cera verde da ardósia esbarrava, a aparência era de sujo.
Quando deu um passo atrás para colocar de volta as almofadas, ouviu um miado esganiçado. Tinha pisado no gato, deitado, para variar, bem no meio do caminho.
- “Que lugar pra ficar! Shshshshshsh, vai acordar todo mundo!” – sussurrou, pensando que não tinha a menor vontade de pegá-lo no colo e pedir desculpas, como teria feito em outros tempos.
Tomou um copo de leite morno e se atirou lânguida, no sofá.

Miriam Danowski
2006

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