segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Os três planos

Mariana tinha uns 15 anos, quando no ginásio do colégio Alcântara, descobriu que a vida, o mundo, as pessoas, tudo que existe na face da Terra, é regido pelas regras da Geometria Descritiva.
A professora era convincente. E tinha autoridade. Não houve quem, na turma, deixasse de ficar impressionado logo na primeira aula, quando ela, pegando um pedaço de giz em cada mão, escreveu com desenvoltura, uma frase pra lá e outra pra cá, como se estivessem de frente para um espelho.
E se alguém ousasse conversar com o colega do lado no meio de uma explicação, ela nem pestanejava: tacava no sujeito e no cúmplice o tal giz, com toda força e, dependendo onde pegasse, podia fazer um bom estrago.
No cenário formado pelos três planos, o triedro, as crianças foram apresentadas aos pontos, às retas e, finalmente, aos sólidos. E conforme a posição, projetavam sombras nas paredes.
Começou com um ponto. Com dois, dava pra formar uma reta. Com três, definia-se um plano. Uma reta de frente para um plano, podia virar um ponto, se o ângulo fosse exatamente de 90 graus. Se um pedaço de reta estivesse paralelo a um dos planos, ele ia aparecer de tamanho idêntico na projeção. Se formasse um outro ângulo, podia crescer ou diminuir.
Quando todos tinham entendido bem isso, Dona Sarita, resolveu complicar. E fez com que imaginassem as retas atravessando os planos. Depois mostrou como os planos podiam se interceptar e formar retas. Depois, como os sólidos, que tinham volume, ficavam, se fossem cortados pelos planos. Já os sólidos, entrando um por dentro do outro, podiam gerar figuras planas – um losango, um quadrado, um retângulo, um triângulo. Lá pelas últimas aulas do curso, dava para ouvir uma mosca voar, tamanha era a concentração da turma.
Desafiou então: imaginem agora isso tudo em movimento. Uma reta girando em torno de um ponto pertencente a ela mesmo, forma o que? E um triângulo girando em torno de uma reta formada por dois planos que se atravessam?
A esta altura, Mariana concluiu que estava aí a matriz de todas as coisas - a vida real e as aparências. Do mais simples ponto, parado, ao giro mais alucinado de um sólido completamente irregular em torno de uma reta posta em deriva.
Imaginou então que, se em vez de um triedro, onde estavam projetadas as larguras, alturas e profundidades – as coordenadas espaciais -, houvesse mais um plano, este poderia representar o tempo. Por que ninguém teria pensado nisso antes? Ou será que ela era uma espécie de gênio, mais brilhante que qualquer um ali?
Naquela noite, teve um sonho. Ela, a mãe e o pai estavam sentados à mesa de jantar. As paredes atrás deles eram de espelho. No prato dela, só no dela, pedaços de giz esperavam para ser engolidos. No espelho, porém, eles se refletiam como nacos da aipim. Ela tentava falar pra sua mãe que não podia comer aquilo, mas a voz não saía. No espelho a frente dela, para sua maior aflição, não era a mãe que via, mas Dona Sarita, fazendo caras e bocas insinuantes, com o rosto bem colado ao do seu pai.
Era domingo e acordou meio desconcertada, duvidou da eficácia daquela teoria, achou que a professora podia não ser muito confiável. Mas, no final do dia, já tinha se esquecido do sonho e estava tranqüila. Nos meses que se seguiram, constatou que a vida ficara mais fácil. Se brigava com uma amiga, imaginava que era porque estavam em planos diferentes. Tinham ficado amigas porque era pontos que pertenciam a uma reta, que resultara da interseção desses planos. Só que a partir de um certo momento, embora guardassem a mesma direção, seguiam sentidos diferentes. Mas que momento era esse? Algum poliedro giratório viera de não sei onde e esbarrara num dos planos? Sempre restava uma incógnita, mas como parecia que era ela quem decidia, ficava menos nervosa.
Quando duvidava do amor do namorado, colocava a dúvida dentro de uma esfera suspensa no ar, no interior do triedro, e olhava com atenção o reflexo dela nos três planos. Então, se assegurava que não havia uma só explicação para o afastamento dele nas últimas semanas. Certamente, podia estar enamorado de outra, mas também podia estar afetado pelas brigas entre seus pais, que estavam por se separar. Ou, simplesmente, podia estar deprimido com as notas baixas na prova de Química. E, se porventura, a esfera estivesse nas posições de coordenada negativa, então, as justificativas se multiplicariam, ampliando as possibilidades.
Muito tempo depois, com nostalgia, Mariana iria se lembrar dessa época, em que podia escolher seu próprio destino.

Miriam Danowski
Búzios, 2007

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