segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Sofia, a crédula

As duas mulheres que caminhavam na direção contrária a sua conversavam animadamente e não tinham nenhuma pressa. Sofia diminuiu o passo e resolveu esperar que passassem, para começar seu pequeno ritual. O dia estava esplêndido. E como ainda era cedo, se podia sentir um friozinho no ar, deixado pela leve névoa recém dispersada. Ela andava na beira do mar, os pés chapinhando na espuma das ondas sonolentas. Era ali, nessa faixa de encontro entre o mar, o ar, a areia e os raios do sol, que “recarregava suas baterias”, diariamente, havia já dois anos, seguindo os conselhos da Dona Dalva, a médium com quem se consultara no centro espírita do Engenho de Dentro.
Agora, as mulheres, sem interromper a conversação, tinham passado, e não havia mais ninguém por perto.
- Espíritos superiores – disse ela, se concentrando – me permitam deixar nesta praia, que este mar leve, o medo, a insônia, as doenças, a solidão, a falta de dinheiro, os problemas no trabalho, tudo o que atrapalha meu desenvolvimento espiritual e que eu sirva de veículo para o desenvolvimento espiritual dos outros seres.
Enquanto falava (em silêncio) ia imaginando aquelas coisas todas caindo no mar e sendo levadas embora.
- Será que esqueci alguma? – indagou para si mesma.
- Ah , falta o Amén.- lembrou.
Sofia continuou caminhando na beira do mar, até estar quase em frente a servidão, por onde tinha chegado na praia. Aí, escolheu um pedaço mais seco da areia e sentou. Respirou fundo e reiniciou a conversação com os “espíritos superiores”:
- Permitam agora que entre em mim esse azul escuro, que é do mar. Esse azul claro, tão leve, que é do céu. Essa espuma tão branca. As nuvens macias. A transparência e a profundidade das águas. A rapidez do vento. O ritmo das ondas. O equilíbrio das gaivotas.
Tinha dias em que pedia coisas mais concretas, como “um bom namorado, achar uma casa nova para morar, a desejada promoção no trabalho, inspiração para a monografia de final do curso noturno de História”. Mas hoje, não sabia por que, preferia se preencher da paisagem. Ou como se fosse feita de espelho e refletisse aquilo tudo. Olhou de novo o mar e viu como aquela impressionante quantidade de água ia, exatamente, até o horizonte. Como se fosse um grande copo, onde não cabia nem uma gota a mais. Mesmo as ondas quando subiam, não alteravam nada, porque, no mesmo momento, outras desciam, mantendo a proporção.
Vestiu a blusa por cima do maiô e se levantou. Teve a sensação de que esquecera alguma coisa: “Ah, o amén!”
Só quando se aproximou das escadarias que levavam à servidão, foi que se deu conta de que não tinha pedido para entrar em sintonia com o universo e todos seres vivos.
- Paciência, amanhã eu peço!” – murmurou, compreensiva.
No quarto-e-sala que alugava nos fundos de uma casa de altos e baixos, a algumas quadras da praia, não sobrava muito espaço. Entre a mesa de jantar e o console, mal dava para passar. A porta do banheiro dava direto para a sala, aquilo lhe incomodava. Os armários não tinham porta, mas isso ela resolve pendurando uma cortina de tecido estampado. No entanto, era prático, e tinha condução na porta.
Pelo que sabia, a edificação tinha sido construída inicialmente para o caseiro. No entanto, a vida ficara difícil para Dona Neusa, a inquilina, que morava na casa da frente. Com a morte do marido, ela se viu obrigada a alugar a meia-água. Foi mesmo uma grande sorte, Sofia estar passando bem em frente quando a velha senhora colocou a placa de aluga-se.
E o sonho daquela noite lhe veio, imediatamente, à lembrança.
Lá estava ela, espantada com o lixo que o mar estava trazendo para a praia. Tocos de madeira, garrafas, pedaços de roupa. Olhando bem, pensou que podiam ser restos de um naufrágio. Teve certeza disso, quando viu mais adiante, estendido de barriga para baixo sobre a areia, o corpo de um homem, já meio em decomposição. Do pescoço do indivíduo, pendia um enorme caracol, preso num cordão de pano que, num ímpeto, ela arrancou, e levou embora.
Sofia interpretou aquilo como uma mensagem: que o náufrago era o marido de Dona Neusa e o talismã em forma de caracol, a casa que precisava. O cenário da praia, que lhe era bem familiar, explicava a intermediação dos “espíritos superiores”, cientes da aflição de sua procura por um aluguel conveniente, já há dois meses.
Se tivesse anotado o sonho, como fazia quase sempre, no caderno espiral colocado na cabeceira da cama, teria ficado mais atenta. E até podia mostrar pra alguém, como prova de que tinha sonhos premonitórios. Mas só lembrou depois, no momento em que viu a placa. E um sonho contado depois do fato acontecer na vida real, não é mais premonitório – perde a graça – lamentou com seus botões.
Naquela quinta feira, depois do carnaval, Sofia tomou o ônibus para o centro da cidade, pouco antes das oito e meia da manhã. A pousada, em que trabalhava de recepcionista, ficava no centro histórico, uns 15 minutos dali.
Sentou numa poltrona, ao lado de um rapazote de jaqueta jeans. Há muito tempo, não tinha aquela sensação, que era freqüente na época em que cursava o ginásio no Colégio Ipiranga. Nessas ocasiões, tinha certeza de que era invisível. Quando a mulher gorda, carregada de sacolas, entrou pela porta da frente, ela teve um sobressalto.
- E se ela sentar em cima de mim? – esticou o pescoço para tentar se ver no espelho retrovisor do motorista, e nada. Não alcançara o ângulo certo? Ou estava realmente invisível?
Quando a mulher passou por ela e desabou com as sacolas no banco seguinte, Sophia respirou fundo: “Ufa!”.
Inventara esse joguinho pela primeira vez para poder ouvir, sem ser vista, as conversas entre seu então namorado, o Alfredo, e a Sonia, pretensa rival. Depois, tinha perdido o controle. Assim, sem mais nem menos, acontecia de ficar invisível, independente da sua vontade.
Na verdade, este era apenas um dos diversos poderes que ela tinha. Ou, pelo menos, gostava de pensar que tinha.
Um poder que achava muito excitante era o de transmitir pensamentos. Quando se apaixonou pelo Gonçalo, no ano anterior, isso lhe foi muito útil. Era assim: quando estava conversando com ele, depois das aulas do cursinho de vestibular, entremeava o que dizia realmente, com o que queria dizer. É claro que o que queria dizer era dito em pensamento. Exemplo: “Sim, já estudei toda a história da revolução francesa, a tomada da Bastilha, a constituição de 1791, a república jacobina ... Ah, como você é lindo Gonçalo! Queria estar nos teus braços, rodopiando num desses bailes da monarquia francesa... Falta estudar a queda de Robespierre, o reinado de Napoleão”...

Miriam Danowski
Búzios, 2007

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