segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Vertigem

Ele chegara cedo demais à Rodoviária naquela manhã de quinta feira. Sentado numa das cadeiras do setor de espera, aguardava o ônibus, que só sairia às 9:15h para Búzios. Quase uma hora pela frente. Ficou esperando que o assaltasse o mal-estar que sempre lhe causava estar ali. Mas não veio nada, só uma sonolência e um afastamento. Augusto se olhava de longe, sentado no meio da pequena multidão, ali aglomerada.
De onde vinha essa calma que lhe permitia estar lá e observar, ao invés de angustiar-se e fugir?
A garota que passou à sua frente não tinha mais de 20 anos, esguia, sobre uns saltos altíssimos e finos. Comprou a passagem num dos guichês e dirigiu-se às filas de cadeiras. Por que não caía? Como se equilibrava? – se perguntou, enquanto a acompanhava com os olhos, aflito, até que finalmente a viu sentar. Indiferente à sua aflição, a garota nem se encostou no espaldar da cadeira, como ele teria feito, para ter certeza de que não iria desabar. Na pontinha do assento, ela exibia, vaidosa, as pernas longas e bem torneadas que, cruzadas, balançava pra lá e pra cá.
Vindo do outro lado do salão, desafiando todas as leis da gravidade, apareceu em seguida um homem de uma só perna, manejando com tanta destreza as muletas que o amparavam, que parecia ter nascido com elas. Augusto reparou que a área de atrito das muletas com o chão era mínima.
Olhou para a direita: dois homens vestidos com uns macacões amarelos faziam àquela hora a manutenção das lâmpadas. Ajeitaram a escada perto de uma fluorescente queimada. Enquanto um segurava, para firmar a escada, o outro subia. Quando chegou ao topo, o rapaz olhou pra baixo e Augusto imaginou que estaria olhando para o reflexo da escada sobre o piso brilhante. Resistiria ao convite de mergulhar naquela outra dimensão? Ou subiria, passo a passo, a escada refletida, na compulsão de trocar mais uma lâmpada, já que na sala simétrica também havia uma queimada?
Por alguma razão recordou as aulas de Física do colégio. Tanto tempo depois e agora, finalmente, estaria entendendo o que era centro de gravidade? Residiria na Física a explicação daquela força que o puxava para o centro da terra, como se o chão encerado não fosse mais que uma película fina sobre o abismo infinito?
O homem gordo, de barriga protuberante, tinha o centro de gravidade em algum ponto estratégico ao longo da espinha dorsal. A senhora de óculos, vestido de florzinha, apoiada no guichê da empresa rodoviária, dividia com o balcão a responsabilidade de manter-se em pé. A adolescente nostálgica, de olhos perdidos, tinha os cotovelos apoiados no puxador da mala, onde descansava parte de seu peso.
Tudo de repente ficou mais claro: “quando o corpo de alguém se associa a um objeto ou a outro corpo, o centro de gravidade não é mais só da pessoa – sai por aí, vagando, até encontrar o lugar certo, entre os dois”.
Junto ao balcão da lanchonete, sobre bancos de madeira muito altos, diversos rapazes estavam sentados. Augusto não têve dificuldade em imaginar um viajante apressado e distraído, empurrando um carrinho cheio de malas, abalroando o primeiro da fila e os viu cair uns sobre os outros, como um castelo de cartas.
Quando desceu as rampas para o grande pátio do qual saíam os ônibus, continuou a observar. Chamou-lhe atenção a senhora sentada no banco do lado oposto à plataforma dos ônibus. Parecia esperar a hora certa e a quantidade de coragem necessária para sair dali e correr até o ônibus. Para isso, tinha que atravessar o pátio inteiro. Não ficou sabendo se ela atravessaria, já que o ônibus dele saiu antes.
Passando em frente ao cais do porto, tranqüilizou-o a fileira interminável de containers – tão sólidos, sobre o chão. Mas, não conseguiu, por mais que tentasse, acreditar que a ponte sobre a qual o ônibus passava, a caminho da Região dos Lagos, fosse estável e não fosse se quebrar em mil pedaços, a qualquer momento, com a vibração dos caminhões.
O barquinho de pescador, minúscula noz, amarrada a uma das pilastras da ponte, não parecia que fosse cair. Só se o mar, o grande mar azul escuro da baía, caísse em cima dele.
Foi um dia estranho esse dia, em que Augusto observou sua vertigem.

Miriam Danowski
Búzios, 2007
Os três planos

Mariana tinha uns 15 anos, quando no ginásio do colégio Alcântara, descobriu que a vida, o mundo, as pessoas, tudo que existe na face da Terra, é regido pelas regras da Geometria Descritiva.
A professora era convincente. E tinha autoridade. Não houve quem, na turma, deixasse de ficar impressionado logo na primeira aula, quando ela, pegando um pedaço de giz em cada mão, escreveu com desenvoltura, uma frase pra lá e outra pra cá, como se estivessem de frente para um espelho.
E se alguém ousasse conversar com o colega do lado no meio de uma explicação, ela nem pestanejava: tacava no sujeito e no cúmplice o tal giz, com toda força e, dependendo onde pegasse, podia fazer um bom estrago.
No cenário formado pelos três planos, o triedro, as crianças foram apresentadas aos pontos, às retas e, finalmente, aos sólidos. E conforme a posição, projetavam sombras nas paredes.
Começou com um ponto. Com dois, dava pra formar uma reta. Com três, definia-se um plano. Uma reta de frente para um plano, podia virar um ponto, se o ângulo fosse exatamente de 90 graus. Se um pedaço de reta estivesse paralelo a um dos planos, ele ia aparecer de tamanho idêntico na projeção. Se formasse um outro ângulo, podia crescer ou diminuir.
Quando todos tinham entendido bem isso, Dona Sarita, resolveu complicar. E fez com que imaginassem as retas atravessando os planos. Depois mostrou como os planos podiam se interceptar e formar retas. Depois, como os sólidos, que tinham volume, ficavam, se fossem cortados pelos planos. Já os sólidos, entrando um por dentro do outro, podiam gerar figuras planas – um losango, um quadrado, um retângulo, um triângulo. Lá pelas últimas aulas do curso, dava para ouvir uma mosca voar, tamanha era a concentração da turma.
Desafiou então: imaginem agora isso tudo em movimento. Uma reta girando em torno de um ponto pertencente a ela mesmo, forma o que? E um triângulo girando em torno de uma reta formada por dois planos que se atravessam?
A esta altura, Mariana concluiu que estava aí a matriz de todas as coisas - a vida real e as aparências. Do mais simples ponto, parado, ao giro mais alucinado de um sólido completamente irregular em torno de uma reta posta em deriva.
Imaginou então que, se em vez de um triedro, onde estavam projetadas as larguras, alturas e profundidades – as coordenadas espaciais -, houvesse mais um plano, este poderia representar o tempo. Por que ninguém teria pensado nisso antes? Ou será que ela era uma espécie de gênio, mais brilhante que qualquer um ali?
Naquela noite, teve um sonho. Ela, a mãe e o pai estavam sentados à mesa de jantar. As paredes atrás deles eram de espelho. No prato dela, só no dela, pedaços de giz esperavam para ser engolidos. No espelho, porém, eles se refletiam como nacos da aipim. Ela tentava falar pra sua mãe que não podia comer aquilo, mas a voz não saía. No espelho a frente dela, para sua maior aflição, não era a mãe que via, mas Dona Sarita, fazendo caras e bocas insinuantes, com o rosto bem colado ao do seu pai.
Era domingo e acordou meio desconcertada, duvidou da eficácia daquela teoria, achou que a professora podia não ser muito confiável. Mas, no final do dia, já tinha se esquecido do sonho e estava tranqüila. Nos meses que se seguiram, constatou que a vida ficara mais fácil. Se brigava com uma amiga, imaginava que era porque estavam em planos diferentes. Tinham ficado amigas porque era pontos que pertenciam a uma reta, que resultara da interseção desses planos. Só que a partir de um certo momento, embora guardassem a mesma direção, seguiam sentidos diferentes. Mas que momento era esse? Algum poliedro giratório viera de não sei onde e esbarrara num dos planos? Sempre restava uma incógnita, mas como parecia que era ela quem decidia, ficava menos nervosa.
Quando duvidava do amor do namorado, colocava a dúvida dentro de uma esfera suspensa no ar, no interior do triedro, e olhava com atenção o reflexo dela nos três planos. Então, se assegurava que não havia uma só explicação para o afastamento dele nas últimas semanas. Certamente, podia estar enamorado de outra, mas também podia estar afetado pelas brigas entre seus pais, que estavam por se separar. Ou, simplesmente, podia estar deprimido com as notas baixas na prova de Química. E, se porventura, a esfera estivesse nas posições de coordenada negativa, então, as justificativas se multiplicariam, ampliando as possibilidades.
Muito tempo depois, com nostalgia, Mariana iria se lembrar dessa época, em que podia escolher seu próprio destino.

Miriam Danowski
Búzios, 2007
Sofia, a crédula

As duas mulheres que caminhavam na direção contrária a sua conversavam animadamente e não tinham nenhuma pressa. Sofia diminuiu o passo e resolveu esperar que passassem, para começar seu pequeno ritual. O dia estava esplêndido. E como ainda era cedo, se podia sentir um friozinho no ar, deixado pela leve névoa recém dispersada. Ela andava na beira do mar, os pés chapinhando na espuma das ondas sonolentas. Era ali, nessa faixa de encontro entre o mar, o ar, a areia e os raios do sol, que “recarregava suas baterias”, diariamente, havia já dois anos, seguindo os conselhos da Dona Dalva, a médium com quem se consultara no centro espírita do Engenho de Dentro.
Agora, as mulheres, sem interromper a conversação, tinham passado, e não havia mais ninguém por perto.
- Espíritos superiores – disse ela, se concentrando – me permitam deixar nesta praia, que este mar leve, o medo, a insônia, as doenças, a solidão, a falta de dinheiro, os problemas no trabalho, tudo o que atrapalha meu desenvolvimento espiritual e que eu sirva de veículo para o desenvolvimento espiritual dos outros seres.
Enquanto falava (em silêncio) ia imaginando aquelas coisas todas caindo no mar e sendo levadas embora.
- Será que esqueci alguma? – indagou para si mesma.
- Ah , falta o Amén.- lembrou.
Sofia continuou caminhando na beira do mar, até estar quase em frente a servidão, por onde tinha chegado na praia. Aí, escolheu um pedaço mais seco da areia e sentou. Respirou fundo e reiniciou a conversação com os “espíritos superiores”:
- Permitam agora que entre em mim esse azul escuro, que é do mar. Esse azul claro, tão leve, que é do céu. Essa espuma tão branca. As nuvens macias. A transparência e a profundidade das águas. A rapidez do vento. O ritmo das ondas. O equilíbrio das gaivotas.
Tinha dias em que pedia coisas mais concretas, como “um bom namorado, achar uma casa nova para morar, a desejada promoção no trabalho, inspiração para a monografia de final do curso noturno de História”. Mas hoje, não sabia por que, preferia se preencher da paisagem. Ou como se fosse feita de espelho e refletisse aquilo tudo. Olhou de novo o mar e viu como aquela impressionante quantidade de água ia, exatamente, até o horizonte. Como se fosse um grande copo, onde não cabia nem uma gota a mais. Mesmo as ondas quando subiam, não alteravam nada, porque, no mesmo momento, outras desciam, mantendo a proporção.
Vestiu a blusa por cima do maiô e se levantou. Teve a sensação de que esquecera alguma coisa: “Ah, o amén!”
Só quando se aproximou das escadarias que levavam à servidão, foi que se deu conta de que não tinha pedido para entrar em sintonia com o universo e todos seres vivos.
- Paciência, amanhã eu peço!” – murmurou, compreensiva.
No quarto-e-sala que alugava nos fundos de uma casa de altos e baixos, a algumas quadras da praia, não sobrava muito espaço. Entre a mesa de jantar e o console, mal dava para passar. A porta do banheiro dava direto para a sala, aquilo lhe incomodava. Os armários não tinham porta, mas isso ela resolve pendurando uma cortina de tecido estampado. No entanto, era prático, e tinha condução na porta.
Pelo que sabia, a edificação tinha sido construída inicialmente para o caseiro. No entanto, a vida ficara difícil para Dona Neusa, a inquilina, que morava na casa da frente. Com a morte do marido, ela se viu obrigada a alugar a meia-água. Foi mesmo uma grande sorte, Sofia estar passando bem em frente quando a velha senhora colocou a placa de aluga-se.
E o sonho daquela noite lhe veio, imediatamente, à lembrança.
Lá estava ela, espantada com o lixo que o mar estava trazendo para a praia. Tocos de madeira, garrafas, pedaços de roupa. Olhando bem, pensou que podiam ser restos de um naufrágio. Teve certeza disso, quando viu mais adiante, estendido de barriga para baixo sobre a areia, o corpo de um homem, já meio em decomposição. Do pescoço do indivíduo, pendia um enorme caracol, preso num cordão de pano que, num ímpeto, ela arrancou, e levou embora.
Sofia interpretou aquilo como uma mensagem: que o náufrago era o marido de Dona Neusa e o talismã em forma de caracol, a casa que precisava. O cenário da praia, que lhe era bem familiar, explicava a intermediação dos “espíritos superiores”, cientes da aflição de sua procura por um aluguel conveniente, já há dois meses.
Se tivesse anotado o sonho, como fazia quase sempre, no caderno espiral colocado na cabeceira da cama, teria ficado mais atenta. E até podia mostrar pra alguém, como prova de que tinha sonhos premonitórios. Mas só lembrou depois, no momento em que viu a placa. E um sonho contado depois do fato acontecer na vida real, não é mais premonitório – perde a graça – lamentou com seus botões.
Naquela quinta feira, depois do carnaval, Sofia tomou o ônibus para o centro da cidade, pouco antes das oito e meia da manhã. A pousada, em que trabalhava de recepcionista, ficava no centro histórico, uns 15 minutos dali.
Sentou numa poltrona, ao lado de um rapazote de jaqueta jeans. Há muito tempo, não tinha aquela sensação, que era freqüente na época em que cursava o ginásio no Colégio Ipiranga. Nessas ocasiões, tinha certeza de que era invisível. Quando a mulher gorda, carregada de sacolas, entrou pela porta da frente, ela teve um sobressalto.
- E se ela sentar em cima de mim? – esticou o pescoço para tentar se ver no espelho retrovisor do motorista, e nada. Não alcançara o ângulo certo? Ou estava realmente invisível?
Quando a mulher passou por ela e desabou com as sacolas no banco seguinte, Sophia respirou fundo: “Ufa!”.
Inventara esse joguinho pela primeira vez para poder ouvir, sem ser vista, as conversas entre seu então namorado, o Alfredo, e a Sonia, pretensa rival. Depois, tinha perdido o controle. Assim, sem mais nem menos, acontecia de ficar invisível, independente da sua vontade.
Na verdade, este era apenas um dos diversos poderes que ela tinha. Ou, pelo menos, gostava de pensar que tinha.
Um poder que achava muito excitante era o de transmitir pensamentos. Quando se apaixonou pelo Gonçalo, no ano anterior, isso lhe foi muito útil. Era assim: quando estava conversando com ele, depois das aulas do cursinho de vestibular, entremeava o que dizia realmente, com o que queria dizer. É claro que o que queria dizer era dito em pensamento. Exemplo: “Sim, já estudei toda a história da revolução francesa, a tomada da Bastilha, a constituição de 1791, a república jacobina ... Ah, como você é lindo Gonçalo! Queria estar nos teus braços, rodopiando num desses bailes da monarquia francesa... Falta estudar a queda de Robespierre, o reinado de Napoleão”...

Miriam Danowski
Búzios, 2007
Quando eu vi você,
Tive uma idéia brilhante,
Como se eu olhasse de dentro de um diamante,
E meu olho ganhasse mil faces num só instante,

Basta um instante,
E você tem amor bastante.


Paulo Leminski