Vertigem
Ele chegara cedo demais à Rodoviária naquela manhã de quinta feira. Sentado numa das cadeiras do setor de espera, aguardava o ônibus, que só sairia às 9:15h para Búzios. Quase uma hora pela frente. Ficou esperando que o assaltasse o mal-estar que sempre lhe causava estar ali. Mas não veio nada, só uma sonolência e um afastamento. Augusto se olhava de longe, sentado no meio da pequena multidão, ali aglomerada.
De onde vinha essa calma que lhe permitia estar lá e observar, ao invés de angustiar-se e fugir?
A garota que passou à sua frente não tinha mais de 20 anos, esguia, sobre uns saltos altíssimos e finos. Comprou a passagem num dos guichês e dirigiu-se às filas de cadeiras. Por que não caía? Como se equilibrava? – se perguntou, enquanto a acompanhava com os olhos, aflito, até que finalmente a viu sentar. Indiferente à sua aflição, a garota nem se encostou no espaldar da cadeira, como ele teria feito, para ter certeza de que não iria desabar. Na pontinha do assento, ela exibia, vaidosa, as pernas longas e bem torneadas que, cruzadas, balançava pra lá e pra cá.
Vindo do outro lado do salão, desafiando todas as leis da gravidade, apareceu em seguida um homem de uma só perna, manejando com tanta destreza as muletas que o amparavam, que parecia ter nascido com elas. Augusto reparou que a área de atrito das muletas com o chão era mínima.
Olhou para a direita: dois homens vestidos com uns macacões amarelos faziam àquela hora a manutenção das lâmpadas. Ajeitaram a escada perto de uma fluorescente queimada. Enquanto um segurava, para firmar a escada, o outro subia. Quando chegou ao topo, o rapaz olhou pra baixo e Augusto imaginou que estaria olhando para o reflexo da escada sobre o piso brilhante. Resistiria ao convite de mergulhar naquela outra dimensão? Ou subiria, passo a passo, a escada refletida, na compulsão de trocar mais uma lâmpada, já que na sala simétrica também havia uma queimada?
Por alguma razão recordou as aulas de Física do colégio. Tanto tempo depois e agora, finalmente, estaria entendendo o que era centro de gravidade? Residiria na Física a explicação daquela força que o puxava para o centro da terra, como se o chão encerado não fosse mais que uma película fina sobre o abismo infinito?
O homem gordo, de barriga protuberante, tinha o centro de gravidade em algum ponto estratégico ao longo da espinha dorsal. A senhora de óculos, vestido de florzinha, apoiada no guichê da empresa rodoviária, dividia com o balcão a responsabilidade de manter-se em pé. A adolescente nostálgica, de olhos perdidos, tinha os cotovelos apoiados no puxador da mala, onde descansava parte de seu peso.
Tudo de repente ficou mais claro: “quando o corpo de alguém se associa a um objeto ou a outro corpo, o centro de gravidade não é mais só da pessoa – sai por aí, vagando, até encontrar o lugar certo, entre os dois”.
Junto ao balcão da lanchonete, sobre bancos de madeira muito altos, diversos rapazes estavam sentados. Augusto não têve dificuldade em imaginar um viajante apressado e distraído, empurrando um carrinho cheio de malas, abalroando o primeiro da fila e os viu cair uns sobre os outros, como um castelo de cartas.
Quando desceu as rampas para o grande pátio do qual saíam os ônibus, continuou a observar. Chamou-lhe atenção a senhora sentada no banco do lado oposto à plataforma dos ônibus. Parecia esperar a hora certa e a quantidade de coragem necessária para sair dali e correr até o ônibus. Para isso, tinha que atravessar o pátio inteiro. Não ficou sabendo se ela atravessaria, já que o ônibus dele saiu antes.
Passando em frente ao cais do porto, tranqüilizou-o a fileira interminável de containers – tão sólidos, sobre o chão. Mas, não conseguiu, por mais que tentasse, acreditar que a ponte sobre a qual o ônibus passava, a caminho da Região dos Lagos, fosse estável e não fosse se quebrar em mil pedaços, a qualquer momento, com a vibração dos caminhões.
O barquinho de pescador, minúscula noz, amarrada a uma das pilastras da ponte, não parecia que fosse cair. Só se o mar, o grande mar azul escuro da baía, caísse em cima dele.
Foi um dia estranho esse dia, em que Augusto observou sua vertigem.
Miriam Danowski
Búzios, 2007
segunda-feira, 31 de dezembro de 2007
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Um comentário:
Esse texto agarrou com destreza a minha atenção. E eu gostei desse agarramento! Me vi retornando a rodoviária de Belo Horizonte, na década de noventa.Eu ficava indo e voltando de lá, de Mariana, de Niterói, do Rio... E gostava de observar os jeitos de falar com seus devidos sotaques, as caras e bocas das pessoas, as expressões dos olhares. Tentava descobrir as emoções escondidas ou entender as explícitas!
Gosto do seu jeito de escrever e gosto de você... mesmo que você não escreva nada! rss
beijoca,
Ruth.
Postar um comentário